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segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Uma criança sem mãe

A morte de minha mãe foi rápida e brutal — teve um vírus no estômago na sexta-feira à noite e estava morta na segunda-feira de manhã. Não houve tempo de me despedir. Não estava preparada para perdê-la. Mas como explicar a morte para uma criança de dois anos? Perguntei a meu pai como eu reagira.
“Você era muito pequena, foi fácil distraí-la.” Sua resposta apressada me fez entender que, na época, ele não conversara comigo sobre o assunto e mesmo agora só fala de mamãe se o pressiono.
Quase todas os personagens da minha infância eram como eu — sem mãe: Cinderela, Dumbo, Bambi e Branca de Neve. Os autores usam a técnica de criar personagens sem mães para dar-lhes um status de heroínas e fazê-las despertar mais carinho. E eu, criança, gostava das heroínas — não porque as visse como abandonadas e vulneráveis, mas porque tínhamos alguma coisa em comum.
Imagino que vocês esperam que eu fale da tristeza que senti por ser órfã de mãe, ou das habilidades que tive de desenvolver para compensar a perda. Mas a verdade é que não posso dizer que senti falta de mãe, pois houve várias mulheres que, cada uma a seu modo, desempenharam função de mãe para mim. Fui cercada de tias, irmãs, avó afetuosíssimas que capricharam nas minhas refeições, trançaram meu cabelo, me contaram histórias na hora de dormir e ouviram minhas histórias com interesse. Fui levada e buscada na escola com cuidado, prepararam-me para viver com naturalidade a primeira menstruação, deram-me o primeiro sutiã. Meu pai foi uma presença protetora e não me lembro de jamais ter sido carente de amor ou sentir falta de abraços quando era pequena.
Na época da escola, intuí que o fato de não ter mãe me tornava especial, mais importante de alguma forma. Usei isso com as freiras para que me dessem um tratamento diferente. Usei também com meu pai, reclamando dele quando se atrasava para me apanhar: “Se mamãe estivesse viva, aposto que ela chegaria na hora.” Na fase de competição entre adolescentes, quando minhas amigas se queixavam de suas mães, eu dizia: “Vocês, pelo menos, têm mãe.”
Foi só quando tive meu filho que comecei a sentir falta de minha mãe. Não porque ela poderia me ajudar a cuidar dele, mas porque, com Jacob, veio o entendimento do que uma mãe dá a seu filho, do que uma mãe é. Senti por meu filho um amor absoluto que eu não imaginava que um ser humano pudesse ter pelo outro. Percebi o que eu perdera e do que eu sentira falta, mas que nunca me ocorrera.
Fiquei especialmente atenta quando ele fez dois anos e cinco dias, exatamente a idade que eu tinha quando minha mãe morreu. Procurava entender como sua morte me afetara. Tentava imaginar como seria uma criança que mal começou a andar e tem o centro de sua vida roubado. Mas não conseguia me lembrar da experiência.
Eu não podia voltar àquela época. Em vez disso, fixei-me na minha relação com Jacob — de mãe para filho e não de filho para mãe.
Colocava seus dedinhos roliços na palma da minha mão e imaginava que minha mãe também segurara meus dedos assim. Brincava com ele de “aperto de mão secreto” — três apertos de mão enquanto eu murmurava “amo você”. Quem fazia assim comigo era minha avó materna. Talvez ela também tenha brincado dessa forma com minha mãe. Quando consolava Jacob em sua tristeza ou fazia cosquinhas na sua barriga para que ele risse, achava que certamente mamãe fizera o mesmo comigo.
Pela primeira vez eu pensava em minha mãe como uma mulher que amara sua filha e se alegrara com ela com a mesma paixão que eu sentia por Jacob. Então chorei muitas vezes, de forma profunda, como uma purificação.
Chorei pela mulher que foi tirada de sua filha. Chorei por aquela menininha que eu queria abraçar e a quem eu queria dizer o quanto lamentava a perda que ela sofrerá. Dizer que eu a protegeria e a ajudaria a se sentir segura. Queria que ela soubesse que fora muito e profundamente amada por sua mãe. Fazer isso me deu liberdade de experimentar todas as sensações que eu passara a vida negando.
Agora, quando leio para Jacob dormir e vejo filmes com ele, ainda tenho empatia por personagens solitários: o ET, separado da nave-mãe, o bebê dinossauro que perdeu a mãe tão cedo, a Pequena Sereia, que só tinha o pai, e a Bela, que enfrentou a Fera sem ter a mãe para lhe dar conselhos. E agora, apesar de ser imensamente grata por todas as figuras femininas que desempenharam para mim função materna, também entendo como corta o coração a idéia de uma criança sem mãe. O que a vida não me ensinou, eu aprendi com meu filho.

JANE KIRBY

domingo, 8 de novembro de 2009

É o coração que lembra

“Jamais houve uma criança tão encantadora,
mas sua mãe ficava satisfeita quando o fazia dormir.”

RALPH WALDO EMERSON



“A mãe de quem você se lembra, é a mãe que você será!”
Essas palavras inundaram a minha mente na manhã em que fui mãe pela primeira vez. Ao colocarem Kaley em meus braços, aquela trouxinha quentinha e agitada de olhos arregalados, jurei para mim mesma que seria a melhor das mães, o tipo de mãe da qual eu me lembrava: amorosa, paciente, eternamente calma e plácida. Minha vida inteira havia pulsado com amor e, enquanto acariciava a minúscula cabeça de meu bebê e o sentia virar o rosto para afocinhar o meu dedo, jurei para ela:
— Você só conhecerá o amor, pequenininha. Eu me lembrei da citação outra vez duas semanas mais tarde, às três da manhã, enquanto andava em círculos com minha recém-nascida aos berros, cheia de cólicas. Naquele momento, entretanto, aquelas palavras não me serviam de consolo. Afinal de contas, que bebê ia querer se lembrar de mim como eu estava então — privada de uma boa noite de sono, ansiosa e com a paciência mais gasta do que uma lâmina de sabão.
E apesar da promessa que havia feito, eu certamente não estava sentindo amor algum. Na verdade, não estava sentindo grande coisa. Estava entorpecida, fraca de tanta fadiga, tentando fazer tudo sozinha embora meu marido e minha mãe estivessem dormindo próximos dali, ao final do corredor. Tentava fazer Kaley se calar e a segurava mais perto de mim, mas ela apenas esperneava, sacudia o corpo todo e gritava ainda mais alto. E subitamente não pude conter as lágrimas. Fui afundando o corpo até o chão da sala escura, coloquei-a sobre o colo e solucei com o rosto enterrado nas mãos.
Não sei quanto tempo fiquei assim, mas, muito embora parecessem horas, não podem ter sido mais do que alguns minutos. Através de uma névoa de lágrimas, vi uma luz acender no corredor, desenhando a silhueta de minha mãe enquanto vestia o robe. Logo senti a sua mão em meu ombro.
— Dê-me o bebê — disse.
Não discuti. Derrotada, me limitei a lhe passar aquela trouxinha barulhenta e me arrastei até o sofá, onde deitei com o corpo encolhido numa bolinha bem apertada.
Minha mãe murmurou ao pé do ouvido de Kaley e, com imensa facilidade — fruto de décadas de prática —, passou-a para o ombro. E, por fim, o pranto se transformou em fungadas, as fungadas em soluços e, dali a meia hora, eu só ouvia ronquinhos abafados de bebê.
Senti alívio, mas não senti paz. Que espécie de mãe era eu que não conseguia acalmar a própria filha? Que espécie de mãe era eu que nem ao menos quis tentar? Observei mamãe sentar-se na cadeira de balanço, olhei-a dar início ao ritmo que, eu sei, havia embalado o meu sono em incontáveis noites. Tudo o que consegui sentir foi uma desesperada e exausta sensação de fracasso.
— Sou uma mãe terrível — murmurei.
— Não, não é.
— Você não compreende. — Novas lágrimas começaram a brotar no canto de meus olhos. — Neste exato instante, eu nem ao menos gosto dela. Meu próprio bebê.
Minha mãe riu baixinho.
— Bem, ela não está muito gostável hoje, está? Mas você ficou com ela o tempo todo. Quicou com ela no colo, a embalou, caminhou com ela. E, quando nada disso funcionou, você apenas a segurou nos braços e a manteve próxima.
Eu me sentei e abracei os joelhos.
— Mas a única coisa que consigo sentir é frustração, raiva e impaciência. Que tipo de mãe é essa?
Minha mãe não respondeu imediatamente. Apenas olhou para o bebê, adormecido em seus braços. Mas ficou com um ar pensativo e, quando falou, sua voz transmitia algo de longínquo e melancólico:
— Eu me lembro de todas elas — disse, suavemente. — Especialmente da última. Depois que você nasceu, eu costumava rezar, pedindo paciência. Eu chorava e implorava para que me dessem paciência. — Ela me olhou, um meio sorriso em seu rosto. — Acho que não fui ouvida, até hoje.
Eu não podia crer no que estava ouvindo.
— Mas mamãe, eis aí o que melhor me lembro a seu respeito. Não importava o que acontecesse, você nunca perdia a serenidade. De alguma maneira, você conseguia fazer tudo acontecer ao mesmo tempo.
E era verdade. Não importava quantos brownies precisassem ser assados de última hora, quantos pôsteres para o projeto de ciências precisassem ser coloridos — minha mãe sempre dava um jeito. Sempre calma. Sempre serena. Como enfermeira, seus horários eram irregulares, mas a cada peça de teatro, a cada recital do qual participei, mesmo que não conseguisse chegar a tempo para ver as cortinas se abrirem, eu sempre podia contar em ver um vulto conhecido, vestido de branco, entrar discretamente no auditório escuro.
Essa era a mãe da qual eu me lembrava, a mãe que fazia cada momento contar. A mãe que nunca se portou como eu acabava de me portar.
— Eu sempre pude contar com você — afirmei. — Sempre.
Mas, para minha imensa surpresa, ela revirou os olhos.
— Pode ser que você recorde os fatos assim, mas eu só lembro de me sentir sendo puxada em sete direções diferentes ao mesmo tempo. Você e seu irmão, seu pai, o pessoal do trabalho. Todos precisavam de mim, mas eu nunca tinha tempo o bastante para estar disponível para todo mundo.
— Mas você estava sempre disponível!
Ela balançou a cabeça.
— Não como eu gostaria de ter estado, com a freqüência ou pelo período que gostaria de ter estado. Então rezava e pedia paciência, para que eu pudesse aproveitar ao máximo o tempo que, de fato, tínhamos juntas. Mas você sabe o que dizem. Deus não nos dá paciência. Ele apenas nos envia momentos que nos façam treinar a paciência, e o faz repetidamente.
Ela olhou para Kaley.
— Momentos como este.
Olhei as duas e então, subitamente, compreendi: as lembranças não são guardadas em nossas mentes — perfeitamente aptas a registrar detalhes de forma incorreta — e sim em nossos corações. Minha mãe e eu não recordávamos a minha infância da mesma forma, mas compartilhávamos aquilo que de fato importava.
Ambas nos lembrávamos do amor.
Levantei do sofá e fui me sentar ao pé da cadeira de balanço. Ficamos assim por um bom tempo: minha mãe, minha filha e eu. E muito embora a choradeira tenha começado outra vez com o nascer do sol, naquele momento dourado e tranqüilo — eu sentada aos pés de minha mãe, com a mão nos cabelinhos sedosos de minha filha — murmurei um silencioso “muito obrigada”.
Se Kaley, de alguma maneira, se lembrar daquela noite, espero que recorde o amor instintivo que me fez permanecer ao seu lado apesar de tudo.

TINA WHITTLE

sábado, 7 de novembro de 2009

Saindo de casa

Sempre tive a sensação de que Deus nos empresta nossos filhos até
terem, aproximadamente, dezoito anos. Se você não tiver feito
pontos com eles até então, já é tarde demais.

BETTY FORD



— Eu não vou chorar — disse a Chuck, meu marido, ao deixarmos a sessão de orientação para pais, organizada diversos meses antes de nossa filha partir para a faculdade.
Talvez as outras mães chorassem ao deixarem os seus filhos no alojamento, mas eu não choraria. Olhei à minha volta, no auditório, para todas as outras mães e me perguntei quais delas seriam as choronas. Pensei assim: “Eu é que não vou me agarrar a uma caixa de lenços de papel quando chegar a hora de me despedir de Sarah. Sou mais forte do que isso. Para que me lamuriar e soluçar só porque a minha garotinha está crescendo?”
Passamos a tarde inteira ouvindo os pais dos veteranos falarem do quanto as nossas vidas mudariam quando nossos filhos partissem para a faculdade. Uma mãe mais experiente avisou que choraríamos até chegar em casa.
Cutuquei Chuck:
— Isto é ridículo — comentei. — Por que será que estão dando tanta trela para isso tudo? — Ser mãe era importante para mim, mas, pelo amor de Deus, não era a única coisa! Tenho emprego, tenho amigos, eu tenho uma vida!
Sarah e eu passamos o verão inteiro nos alfinetando. Eu detestava sua mania de dizer que não agüentava esperar até partir para a faculdade — como se sua vida em casa, conosco, fosse uma espécie de cativeiro. Ela odiava o fato de eu viver pedindo que limpasse o quarto e colocasse a louça suja dentro da pia; a maneira de eu resmungar quando precisava usar o telefone e ela estava ocupando a linha; a maneira de lhe perguntar por onde andara quando saía com os amigos. Afinal de contas, tinha dezoito anos. Não precisava ficar dando satisfações à mãe a cada cinco minutos.
Em agosto, encontrei minha amiga Pat na biblioteca. Pat recordou as semanas anteriores à partida da filha para a faculdade.
— Passamos o verão inteiro às turras — contou. — Acho que foi a nossa forma de nos acostumarmos a viver longe uma da outra. Quando a gente passa o tempo todo discutindo, com raiva, não se sente tão mal quando ela está partindo.
— Além disso — reagi, pensativa —, ela não se sente tão mal por estar partindo quando passa o tempo todo fula da vida com a mãe.
No dia da mudança, nós a ajudamos a desfazer as malas e a guardar seus pertences no quarto do alojamento. Cobri o colchão de Sarah com lençóis extralongos enquanto Chuck montava uma prateleira dentro de seu guarda-roupa. Depois do almoço, nos despedimos, nos abraçamos no meio-fio e, então, Chuck e eu partimos.
A mulher da orientação estava enganada, pensei. Isto não é tão ruim assim.
Dois dias depois, entrei em seu quarto. A porta estava aberta, a cama estava feita e toda a desordem da infância e da adolescência haviam sumido. E de repente eu me dei conta. Ela se fora.
Mais tarde, enquanto passava aspirador na sala, pensei ter ouvido alguém dizer: “Mãe.” Desliguei o aspirador para ouvir os passos atravessarem a porta, para responder ao chamado de uma criança. Foi então que compreendi que estava sozinha. Sarah havia partido e nada, nunca mais, seria igual.
Tive vontade de ouvir sua voz. Queria saber como ela estava. Queria que ela se sentasse na beiradinha de minha cama à noite, como fazia antigamente, para me contar sobre o seu dia, sobre as aulas, sobre os professores, sobre os amigos, sobre os garotos dos quais gostava, sobre os garotos que gostavam dela...
— Aconteceu alguma coisa? — perguntou Chuck ao chegar em casa. Eu cortava legumes para refogar. Ele olhou para o meu rosto. — Você está chorando?
— São as cebolas — funguei, enquanto uma lágrima serpenteava pela minha face.
Depois do jantar, eu disse:
— Vamos ligar para ela. Talvez esteja esperando que liguemos.
— Mas só fazem dois dias — disse Chuck. — Vamos lhe dar pelo menos uma semana para se assentar.
Ele tinha razão, é claro. Eu não queria me transformar numa espécie de mãe psicótica. Me lembrei de como era ter dezoito anos e estar longe de casa pela primeira vez. Ela estava fazendo novos amigos, aprendendo novas idéias, formando novos elos. Eu precisava lhe dar espaço, a distância da qual precisava.
Então, o telefone tocou.
— Oi, mãe — disse Sarah. — Dava para você mandar umas fotos para eu colocar no quadro de cortiça? E alguns bichinhos de pelúcia?
Ela queria o ursinho. Queria uma foto minha com o pai — e uma do irmão mais novo. Adorava estar na faculdade, mas também sentia saudades nossas. E então começou a me contar sobre o seu dia, sobre as aulas, sobre os professores, sobre os meninos dos quais gostava, sobre os meninos que gostavam dela...

BETH COPELAND VARGO

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Amor de mãe

Estou convencido de que o maior legado que podemos deixar
para os nossos filhos são lembranças felizes.

OG MANDINO



Quando penso na família de Clara Harden, o que me vem à mente é a felicidade. O som de risos sempre me acolheu em minhas visitas.
O modo de vida deles era muito, mas muito diferente do meu. A mãe de Clara acreditava que alimentar a mente era mais importante do que realizar tarefas triviais. Para ela, cuidar da casa não era uma grande prioridade. Com cinco filhos de idades variadas — indo de Clara, a mais velha, com doze anos, a um bebê de dois anos —, essa falta de ordem às vezes me incomodava, mas nunca por muito tempo. Aquela casa vivia imersa em algum estado de caos, com pelo menos uma pessoa em crise — real ou imaginária. Mas eu adorava fazer parte daquele bando turbulento, com sua atitude despreocupada e positiva perante a vida. A mãe de Clara nunca estava ocupada demais para nós. Parava de passar roupa para nos ajudar com algum projeto da equipe de chefes de torcida ou então desligava o aspirador de pó para convocar a trupe inteira para um passeio no bosque para colher espécimes para o projeto de ciências de algum filho.
Nunca dava para saber o que você ia acabar fazendo quando visitava aquela família. Suas vidas eram repletas de divertimento e de amor — de muito amor.
Assim, o dia em que as crianças da família Harden saltaram do ônibus escolar com olhos vermelhos e inchados, eu soube que algo de muito errado havia acontecido. Corri até Clara e puxei-a para um canto implorando para ouvir o que havia acontecido, mas sem estar preparada para a resposta. Na noite anterior, a mãe de Clara lhes contara que tinha um tumor terminal no cérebro e que lhe restava apenas alguns meses de vida. Eu me lembro tão bem daquela manhã. Clara e eu fomos para trás do prédio da escola onde soluçamos, abraçadas, sem saber como dar fim àquela dor incrível. Ficamos ali, compartilhando o nosso pesar até tocar o sinal para a primeira aula.
Vários dias se passaram até eu ir à casa dos Harden outra vez. Apreensiva com a angústia e o sofrimento e habitada por uma imensa culpa por minha vida ter continuado igual, fui protelando até minha mãe me convencer de que não podia negligenciar minha amiga e sua família num momento de tristeza.
Então fui fazer-lhes uma visita. Quando entrei na casa, para minha surpresa e deleite, ouvi música alegre e uma barulheira de vozes numa animada discussão entrecortada por risadas e gemidos queixosos. A Sra. Harden estava sentada no sofá jogando Banco Imobiliário com todos os filhos à sua volta. Todos me receberam com sorrisos enquanto eu lutava para conter o meu assombro. Não era isto que eu esperava.
Finalmente, Clara desvencilhou-se do jogo e fomos para o seu quarto, onde ela me explicou o que estava acontecendo. A mãe lhes dissera que o maior presente que poderiam lhe dar era tocar a vida como se nada estivesse errado. Queria que suas últimas recordações fossem felizes e todos haviam concordado em se esforçar.
Um dia, a mãe de Clara me convidou para um evento especial. Corri para lá e a encontrei com um imenso turbante dourado na cabeça. Ela me explicou que havia resolvido usar aquilo em vez de uma peruca, já que os cabelos começavam a cair. Colocou miçangas, cola, hidrográficas coloridas, tesouras e pano sobre a mesa e nos instruiu a enfeitá-lo, enquanto permanecia sentada como o mais nobre marajá. Transformamos um turbante sem graça num objeto de chamativa beleza, cada um de nós dando o seu toque especial. Mesmo enquanto discutíamos onde colocar a bugiganga seguinte, eu me dei conta do quanto a Sra. Harden estava pálida e frágil. Mais tarde, tiramos uma foto com a mãe de Clara, cada qual apontando orgulhosamente para a sua contribuição para o turbante. Uma recordação divertida de se guardar — muito embora o temor silencioso de que ela nos deixasse não estivesse muito longe.
Finalmente chegou o triste dia em que a mãe de Clara morreu. Nas semanas que se seguiram, a angústia e a dor dos Harden foi algo impossível de descrever.
Então, um dia, cheguei na escola e encontrei uma Clara muito animada, rindo e gesticulando alvoroçada diante dos colegas de turma. Ouvi o nome de sua mãe ser repetido com freqüência. A velha Clara estava de volta. Quando cheguei ao seu lado, ela me explicou o motivo de sua alegria. Naquela manhã, ao vestir a irmãzinha mais nova para a escola, havia encontrado um bilhete engraçado que a mãe escondera dentro da meia da menina. Era como ter a mãe de volta.
Naquela tarde, a família Harden virou a casa de cabeça para baixo à caça de mais recados. Cada nova mensagem encontrada era compartilhada, embora algumas tenham passado despercebidas. No Natal, ao tirarem os enfeites do sótão, encontraram uma maravilhosa mensagem de Natal.
Nos anos que se seguiram, as mensagens continuaram a surgir, esporadicamente. Uma emergiu até mesmo na formatura de Clara, e outra, no dia de seu casamento. A mãe havia confiado cartas a amigos, que as entregavam em cada ocasião especial. Até mesmo no dia em que nasceu o primeiro filho de Clara, chegou um cartão com uma comovente mensagem. Cada filho recebeu esses bilhetes curtos e engraçados ou então cartas repletas de amor, até o último se tornar adulto.
O Sr. Harden se casou outra vez e no dia de seu casamento um amigo lhe entregou uma carta escrita pela esposa — a ser lida para os filhos — na qual ela lhe desejava felicidades e instruía os filhos a cercarem a madrasta de amor, pois tinha imensa fé de que o pai jamais escolheria uma mulher que não fosse generosa e carinhosa com seus preciosos rebentos.
Muitas vezes pensei na dor que a mãe de Clara deve ter sentido ao escrever aquelas cartas para os filhos. Também imaginei a alegria traquinas que a invadia enquanto escondia aqueles bilhetinhos. Mas em nenhum momento deixei de me impressionar com as recordações maravilhosas que ela proporcionou para aquelas crianças apesar da dor que sofreu, em silêncio, e da angústia que deve ter sentido em deixar a sua adorada família. Esses atos de desprendimento exemplificam o maior amor materno que jamais conheci.

PAT LAYE

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Aprendendo a escutar

Um ano, viajei para uma conferência de escritores. Ao chegar em casa, em Atlanta, minha família me aguardava. Depois de nos abraçarmos, comecei a lhes contar sobre a viagem. Ou, pelo menos, tentei. Todos queriam me contar alguma novidade diferente — especialmente Jeremy, de oito anos. Pulava para cima e para baixo para ser ouvido e falava mais alto do que as outras crianças, mais alto até do que meu marido, Jerry.
Todo mundo precisa de alguma coisa de mim, pensei. Não querem nem saber sobre a minha viagem. O que é mesmo que Jeremy não pára de repetir?
— Cartolina, mamãe! Eu preciso de cartolina. Vamos ter um concurso lá na escola.
Acalmei-o, com evasivas, prometendo que conversaríamos mais tarde. De volta ao lar, me reacostumei ao telefone, à campainha, a separar a roupa suja, a participar do revezamento de mães que levam as crianças na escola, a responder perguntas e a secar líquidos entornados. Eu lutava contra a arrepiante certeza de que, por mais que tentasse, não conseguia acompanhar as necessidades de minha família. Enquanto andava de um lado para o outro, apressada, tentando decidir o que fazer a seguir, Jeremy me lembrava:
— Manhê, preciso de cartolina.
Pouco a pouco, entretanto, passou a falar mais baixo, quase como se falasse com ele mesmo. Assim, coloquei o pedido de Jeremy no final da minha longa lista de afazeres. Talvez ele simplesmente desista de falar nessa cartolina, pensei, esperançosa.
Em meu terceiro dia em casa, consegui roubar quinze minutinhos para tentar digitar um artigo. Sentada diante da máquina de escrever, ouvi a secadora parar. Hora de colocar outro cesto de roupa para secar. Dois telefonemas importantes precisavam ser retornados. Uma de minhas filhas havia implorado comigo, diversas vezes, para ouvi-la recitar parte de “Os Cantos de Cantuária”. Uma das gatas passou mais de uma hora miando na minha cara, tentando fazer com que a alimentasse. Alguém havia derramado suco de laranja no chão da cozinha e lambuzado tudo com uma toalha seca. Já passava da hora de começar a preparar o jantar e eu ainda nem havia almoçado. Não obstante, escrevi alegremente durante alguns parcos minutos.
Uma pequena sombra caiu sobre a minha folha de papel. Eu sabia quem era antes mesmo de erguer a vista. Levantei os olhos, mesmo assim. Jeremy ficou ali, de pé, me observando calado. Oh, Senhor, permita que ele não toque no assunto outra vez. Eu sei que precisa de cartolina. Mas eu preciso escrever. Sorri muito sutilmente para Jeremy e continuei a digitar. Ele me olhou por mais alguns minutos e virou-se para ir embora. Por pouco não o ouço comentar:
— Tudo bem, o concurso termina amanhã mesmo.
Eu queria tanto escrever que, com um esforço mínimo, poderia ter deixado de ouvir aquela observação. Mas não dava para ignorar a voz silenciosa que falou, com urgência, direto ao meu coração. Vá comprar a cartolina dele — agora! Desliguei a máquina de escrever elétrica.
— Vamos comprar cartolina, Jeremy.
Ele parou, virou e me olhou sem sorrir e sem nada dizer — quase como se não tivesse me ouvido.
— Vamos — eu o apressei, agarrando a bolsa e as chaves do carro.
Mesmo assim, ele não se mexeu.
— Precisa comprar mais alguma coisa, mamãe?
— Não, só a sua cartolina.
Caminhei em direção à porta. Ele molengou um pouco e perguntou:
— Está indo à papelaria só por minha causa?
Parei e baixei a cabeça para olhá-lo. Realmente olhá-lo. Marcas do que quer que tivesse comido na escola manchavam sua camisa. Os sapatos largos desamarrados e os restos de suco de laranja que viravam para cima os cantos daquela boquinha sem sorriso conferiam a Jeremy a aparência de um palhacinho.
Subitamente, uma expressão de puro deleite invadiu o seu rosto, apagando qualquer traço de incredulidade. Não creio que jamais esquecerei aquele momento. Dali em diante, passou a movimentar-se com incrível rapidez e, correndo para a base da escada, atirou a cabeça para trás e gritou:
— Ei, Julie, Jen, Jon, a mamãe vai me levar à papelaria! Alguém precisa de alguma coisa?
Ninguém respondeu, mas ele não pareceu notar. Correu para o carro com expressão de manhã de Natal. Na loja, em vez de correr à minha frente, segurou firme a minha mão e começou a falar muito rápido, contando sobre o concurso.
— O assunto é prevenção contra incêndios. A professora anunciou há muito tempo e, quando falei com você, você disse que a gente falava disso mais tarde. Aí, você viajou. O concurso termina amanhã. Vou ter de dar um duro danado. E se eu ganhar?
E ele foi em frente com infindável entusiasmo, como se tivesse pedido que eu comprasse a cartolina uma única vez.
Jeremy não queria um pedido de desculpas. Isso teria estragado a sua alegria. Então, me limitei a escutá-lo. Prestei mais atenção no que dizia do que jamais havia prestado, para quem quer que fosse. Depois que comprou a cartolina, eu perguntei:
— Vai precisar de mais alguma coisa?
— Você tem bastante dinheiro? — sussurrou.
Sorri para ele, sentindo-me muito rica de repente.
— Tenho, por acaso hoje eu estou cheia de dinheiro. Do que mais precisa?
— Você pode comprar uma cola só para mim e cartolina colorida?
Peguei os artigos restantes e, ao chegarmos ao caixa, Jeremy, que normalmente não faz confidencias a estranhos, disse:
— Vou fazer um pôster. Minha mãe me trouxe até aqui para comprar o material. — Ele tentava soar natural, mas o rosto o entregava.
Passou a tarde toda trabalhando no pôster, silenciosamente e com enorme determinação.
O vencedor do concurso foi anunciado pelo alto-falante da escola dois dias depois. Jeremy ganhou. Seu pôster foi então inscrito no concurso do condado. Venceu este também. O diretor da escola escreveu-lhe uma carta e anexou um cheque de cinco dólares. Jeremy escreveu uma história sobre o concurso. Deixou-a sobre a cômoda e eu a li. Uma frase saltou aos meus olhos: “Então a mamãe parou de bater à máquina, escutou o que eu estava dizendo e me levou, eu sozinho, na papelaria.”
Algumas semanas mais tarde, um imenso envelope pardo chegou pelo correio endereçado a Jeremy. Ele o abriu com um rasgão e leu em voz alta — lentamente e quase sem acreditar — o Certificado de Honra: “Este documento atesta que Jeremy West tem a honra de chegar às finais estaduais do Concurso de Pôsteres da Geórgia com o tema Prevenção contra Incêndios.” Fora assinado pelo tesoureiro-geral do estado.
Jeremy se atirou no chão e deu cambalhotas, rindo bem alto. Emolduramos o certificado e, com freqüência, quando o olho, lembro-me de que, por muito pouco, quase dera as costas para o seu pedido: de que comprasse uma cartolina para ele.

MARION BOND WEST

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

A fé se aprende pelo amor

Quando lembro a figura de minha mãe me vem à memória o livro escrito sobre ela por todos os filhos e netos (Mãe Helena, a Oma – Curitiba, 1995). Minha mãe, extremamente dedicada a meu pai, sabia também cultivar no coração dos filhos o amor a todas as pessoas e o respeito para com os idosos e as crianças.
A recordação mais antiga que guardo de mamãe é da época em que eu tinha uns três anos de idade: ela me revelou que eu tivera uma irmãzinha chamada Irma que morrera com um ano e meio. Era véspera de Finados. No dia seguinte iríamos todos rezar pelos falecidos. Passei a tarde e a noite pensando como teria sido minha irmãzinha falecida. “Irma não pode mais voltar pra ficar conosco?”, perguntei a mamãe. Ela explicou que os mortos estão vivos, mas com Deus, numa grande família em que tudo é só alegria, e que eles nos ajudam. E prometeu: “Amanhã, na capela da colônia”, eu iria sentir isso.
Sonho e excitação se misturaram. “Amanhã” seria o dia! Iria ver como Irma, bem viva junto a Deus, nos apareceria. Eu iria vê-la! Sabia que a capela, a maior e mais bela construção da colônia, era a Casa de Deus. Não me lembro se a expectativa me deixou dormir aquela noite.
Calça de brim, camisa estampada, procurei meus tamancos. Só cheguei a conhecer sapatos aos oito anos. Arrumado, andava à frente de todos, a caminho da capela.
Ocupamos o terceiro banco. O altar, de madeira esculpida, devia estar encobrindo o reino da alegria onde Deus se encontrava com sua família, minha irmãzinha à nossa espera.
Tudo começou com o canto. Era o povo e o coral, tão presente nas colônias alemãs, que se revezavam com as orações “puxadas” pelo tio Jacó. De vez em quando me levantava do banco para ver se não acontecia o que fora prometido por mamãe. Irma iria aparecer. Talvez em meio aos anjos, perto de Deus Pai. Iria reconhecê-la de imediato e buscá-la para trazer comigo, saltitando morro abaixo, percorrendo os duzentos metros que separavam nossa casa da capela.
Em certo momento houve uma pausa. “É agora”, pensei. Olhei para o lado. Todos de cabeça abaixada refletiam. Mas eu queria ver, e iria ver. Disso estava seguro.
A hora e meia de cantos, preces e intenções sempre me parecera comprida demais. Naquele dia, não, porque esperava o principal: ver a família de Deus e os amigos dele, entre os quais Irma, que eu amava sem nunca a ter visto. Devia estar vestida de branco, ou de vestido de chita colorido. Cabelos castanhos ou louros. Alegre, muito alegre, como todos em casa.
Tive um choque quando papai se levantou e me tomou pela mão. Ele, o chefe da colônia, certamente teria o direito de encontrar-se primeiro com Deus, que era chefe maior ainda e pai de família numerosa. Papai foi saindo do banco, fez uma reverência na direção do altar e se dirigiu à porta da saída da capela.
Talvez o encontro fosse à frente da capela, o lugar mais festivo da colônia, onde se faziam as festas, os leilões e as quermesses. Lá é que se cortavam as melancias arrematadas, os bolos comprados e as garrafas de gasosa, o refrigerante mais apreciado no lugar.
Todavia, à frente da capela só restavam o vazio e o verde das pastagens. Papai me segurou mais firme pela mão enquanto eu buscava descobrir onde estava mamãe para perguntar-lhe quando Irma iria aparecer.
Fomos ao cemitério, a cinqüenta passos dali. Paramos à frente de um túmulo cercado de tijolos, enfeitado com muitas flores. Aí chegou mamãe: rosto sereno, quase alegre. Ela era sempre assim quando acabava de rezar. Reclamei:
— Mãe, não vi a Irma. Você prometeu que ela voltava hoje.
Nem sei como cheguei a falar tanto. O auge da emoção já se misturava com a decepção. Minha mãe acolheu, carinhosa, minha decepção:
— Filho, vamos rezar mais um pouco.
Foi o tempo do pai-nosso e ave-maria, as únicas orações que eu sabia rezar junto. Quando acabou a prece, ela encostou a cabeça na minha, pôs a mão em meu ombro e disse: — A gente vê Deus quando reza direito e sente que ele está perto de nós para nos ajudar em tudo. Sua irmã Irma vai ser sua companheira durante toda a vida para ajudá-lo. Só que você não pode vê-la como vê a casa, o cachorrinho e a gente. Nós vemos Deus e os amigos dele quando gostamos deles. É o coração que vê.
Não entendi tudo. Mas, na vida, muitas vezes me soou a frase: “É o coração que vê Deus e seus amigos.”
A fé se aprende pelo amor.

D. PAULO EVARISTO ARNS
Extraído do livro Da Esperança à Utopia

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Mães e filhas

— Você não vai esquecer de trazer o espremedor de batatas, vai? — perguntei à minha mãe logo depois de lhe contar que teria de fazer uma mastectomia. Mesmo aos oitenta e dois anos de idade e a quatro mil e oitocentos quilômetros de distância, ela sabia o que eu queria dizer com aquilo: purê de batatas bem ralinho.
Era isso que preparava para mim a cada doença ou percalço de minha infância — servido numa tigela de sopa com uma reluzente colher redonda. Mas eu havia tido sorte quando criança e raramente adoecia. Era mais freqüente que aquela batata medicinal resolvesse algum desapontamento ou resfriado. Desta vez, no entanto, a doença era séria.
Chegando no vôo da meia-noite, vindo da Virgínia, minha mãe me pareceu fresca como uma margarida quando passou pela porta de minha casa, na Califórnia, no dia em que voltei do hospital. Eu mal conseguia manter os olhos abertos, mas a última coisa que vi antes de adormecer foi mamãe abrindo o zíper da mala cuidadosamente arrumada para pegar o espremedor de batatas de sessenta anos de idade. Aquele que ganhou no chá de panelas, com um cabo de madeira já gasto e anos de recordações.
Ela estava na cozinha espremendo batatas para fazer purê no dia em que lhe contei, chorosa, que teria de me submeter a uma quimioterapia. Ela baixou o espremedor e me olhou diretamente nos olhos.
— Fico com você o tempo que for necessário — disse-me ela. — Não tenho nada mais importante a fazer nesta vida do que ajudá-la a ficar bem. — Eu sempre achara que era a teimosa da família, mas nos cinco meses que se seguiram percebi que herdara essa característica muito honestamente.
Minha mãe decidiu que eu não ia morrer antes dela. Simplesmente não aceitaria aquilo. Me levava para fazer caminhadas diárias até mesmo quando eu não agüentava passar da entrada da garagem. Amassava as pílulas que eu tinha de tomar e as enfiava em geléias porque, até mesmo na meia-idade e com uma filha crescida, eu não conseguia engolir comprimidos muito melhor do que quando era criança.
Quando meus cabelos começaram a cair, ela comprou os chapéus mais engraçadinhos para mim. Me dava refrigerante de gengibre sem gelo numa taça de cristal para acalmar a minha barriga e ficava acordada comigo nas noites de insônia. Servia-me chá em xícaras de porcelana.
Quando eu estava para baixo, ela estava para cima. Quando ela estava para baixo, eu devia estar dormindo. Nunca deixou que eu a visse assim. E, no final, eu fiquei boa. E voltei a escrever.
Descobri que o Dia das Mães não acontece em algum domingo de maio e sim em todos os dias em que se tem a sorte de ter por perto uma mãe que nos ama.

PATRÍCIA BUNIN