Uma criança sem mãe
A morte de minha mãe foi rápida e brutal — teve um vírus no estômago na sexta-feira à noite e estava morta na segunda-feira de manhã. Não houve tempo de me despedir. Não estava preparada para perdê-la. Mas como explicar a morte para uma criança de dois anos? Perguntei a meu pai como eu reagira.
“Você era muito pequena, foi fácil distraí-la.” Sua resposta apressada me fez entender que, na época, ele não conversara comigo sobre o assunto e mesmo agora só fala de mamãe se o pressiono.
Quase todas os personagens da minha infância eram como eu — sem mãe: Cinderela, Dumbo, Bambi e Branca de Neve. Os autores usam a técnica de criar personagens sem mães para dar-lhes um status de heroínas e fazê-las despertar mais carinho. E eu, criança, gostava das heroínas — não porque as visse como abandonadas e vulneráveis, mas porque tínhamos alguma coisa em comum.
Imagino que vocês esperam que eu fale da tristeza que senti por ser órfã de mãe, ou das habilidades que tive de desenvolver para compensar a perda. Mas a verdade é que não posso dizer que senti falta de mãe, pois houve várias mulheres que, cada uma a seu modo, desempenharam função de mãe para mim. Fui cercada de tias, irmãs, avó afetuosíssimas que capricharam nas minhas refeições, trançaram meu cabelo, me contaram histórias na hora de dormir e ouviram minhas histórias com interesse. Fui levada e buscada na escola com cuidado, prepararam-me para viver com naturalidade a primeira menstruação, deram-me o primeiro sutiã. Meu pai foi uma presença protetora e não me lembro de jamais ter sido carente de amor ou sentir falta de abraços quando era pequena.
Na época da escola, intuí que o fato de não ter mãe me tornava especial, mais importante de alguma forma. Usei isso com as freiras para que me dessem um tratamento diferente. Usei também com meu pai, reclamando dele quando se atrasava para me apanhar: “Se mamãe estivesse viva, aposto que ela chegaria na hora.” Na fase de competição entre adolescentes, quando minhas amigas se queixavam de suas mães, eu dizia: “Vocês, pelo menos, têm mãe.”
Foi só quando tive meu filho que comecei a sentir falta de minha mãe. Não porque ela poderia me ajudar a cuidar dele, mas porque, com Jacob, veio o entendimento do que uma mãe dá a seu filho, do que uma mãe é. Senti por meu filho um amor absoluto que eu não imaginava que um ser humano pudesse ter pelo outro. Percebi o que eu perdera e do que eu sentira falta, mas que nunca me ocorrera.
Fiquei especialmente atenta quando ele fez dois anos e cinco dias, exatamente a idade que eu tinha quando minha mãe morreu. Procurava entender como sua morte me afetara. Tentava imaginar como seria uma criança que mal começou a andar e tem o centro de sua vida roubado. Mas não conseguia me lembrar da experiência.
Eu não podia voltar àquela época. Em vez disso, fixei-me na minha relação com Jacob — de mãe para filho e não de filho para mãe.
Colocava seus dedinhos roliços na palma da minha mão e imaginava que minha mãe também segurara meus dedos assim. Brincava com ele de “aperto de mão secreto” — três apertos de mão enquanto eu murmurava “amo você”. Quem fazia assim comigo era minha avó materna. Talvez ela também tenha brincado dessa forma com minha mãe. Quando consolava Jacob em sua tristeza ou fazia cosquinhas na sua barriga para que ele risse, achava que certamente mamãe fizera o mesmo comigo.
Pela primeira vez eu pensava em minha mãe como uma mulher que amara sua filha e se alegrara com ela com a mesma paixão que eu sentia por Jacob. Então chorei muitas vezes, de forma profunda, como uma purificação.
Chorei pela mulher que foi tirada de sua filha. Chorei por aquela menininha que eu queria abraçar e a quem eu queria dizer o quanto lamentava a perda que ela sofrerá. Dizer que eu a protegeria e a ajudaria a se sentir segura. Queria que ela soubesse que fora muito e profundamente amada por sua mãe. Fazer isso me deu liberdade de experimentar todas as sensações que eu passara a vida negando.
Agora, quando leio para Jacob dormir e vejo filmes com ele, ainda tenho empatia por personagens solitários: o ET, separado da nave-mãe, o bebê dinossauro que perdeu a mãe tão cedo, a Pequena Sereia, que só tinha o pai, e a Bela, que enfrentou a Fera sem ter a mãe para lhe dar conselhos. E agora, apesar de ser imensamente grata por todas as figuras femininas que desempenharam para mim função materna, também entendo como corta o coração a idéia de uma criança sem mãe. O que a vida não me ensinou, eu aprendi com meu filho.
JANE KIRBY







