quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Maioridade - RACHEL NAOMI REMEN

Lembro-me de ter lido uma vez, num livro sobre psicologia do desenvolvimento, que somente um pai ou uma mãe podem outorgar a maioridade a um filho. Na época, não entendi realmente o sentido dessas palavras. Hoje, acho que compreendo. Existe uma confirmação que só pode vir daqueles que nos deram a vida, que nos conhecem completamente desde que nascemos. Mesmo velhos, o poder dos pais em conceder essa confirmação não diminui. É um poder que beira o místico.
Minha mãe era uma mulher extremamente original. Profissionalmente, era uma contestadora. Seu maior interesse eram os cuidados com bebês e ela foi uma das pioneiras a reconhecer e respeitar a sabedoria inata das mães. Naquele tempo, essa era uma idéia vista com desconfiança pelos pediatras, uma profissão tão orgulhosa de sua nova ciência e tecnologia que, no meio do século, quase setenta e cinco por cento dos bebês norte-americanos eram alimentados por mamadeira. A maneira direta e sem rodeios pela qual minha mãe se expressava fazia com que ela também fosse vista com desconfiança.
Acredito que sei o exato momento em que me senti verdadeiramente adulta. Aconteceu num lugar público, na presença de um grande número de pessoas. Todavia, foi um momento inteiramente pessoal que ninguém testemunhou.
Eu era uma das duas mulheres e vários homens convidados para falar numa conferência cujo tema era “O Poder da Imaginação”, um encontro pioneiro, com um dia de duração, sobre a relação entre a saúde da mente e do corpo. Foi em 1984, quando tais idéias eram bastante novas e pouco aceitas na comunidade médica. Entre as mil pessoas da platéia, poucos eram médicos.
Nessa ocasião, minha mãe já era velha e estava bastante doente. Dois dias antes da conferência, uma amiga me perguntou se eu planejava convidá-la. Surpresa, respondi que não havia pensado nisso, pois mamãe não se interessava pelo assunto. Minha amiga, que é japonesa e tem uma percepção mais refinada do que a minha, respondeu:
— É claro que não, Rachel. Mas ela se interessa por você.
Refleti um pouco e me dei conta de que minha mãe nunca me havia visto falar em público. Pensei nas dificuldades para levá-la até o auditório e no que aconteceria se ela tivesse um de seus freqüentes problemas cardíacos enquanto eu estivesse falando. Era um pensamento assustador e eu me senti tentada a esquecer a sugestão de minha amiga. Mas, por uma questão de justiça, perguntei a minha mãe se ela queria ir. Ela aceitou com entusiasmo.
Chegamos ao saguão com duas horas de antecedência. O problema cardíaco não a deixava andar longas distâncias sem descansar. Levei um bom tempo para conseguir acomodá-la no auditório vazio. Escolhemos uma cadeira no meio da décima fila. Quando o auditório começou a ficar cheio e eu me sentei no palco com os outros participantes, vi que ela abriu a bolsa e pegou alguns comprimidos. Senti um aperto no coração.
Quando chegou a minha vez de falar, expliquei qual era a diferença entre remediar e curar e falei sobre a nova técnica de imagens guiadas que ampliava a capacidade do ser humano de curar a si mesmo. Disse que a medicina que não reconhecia esse poder inato nas pessoas cometia um erro crucial. Essas eram idéias controvertidas na época. Para comprová-las, contei várias histórias colhidas na minha prática médica. Quase no final, arrisquei um olhar para minha mãe. Ela ouvia com muita atenção. Parecia estar bem. Fiquei aliviada.
Quando terminei de falar houve um completo silêncio. Eu já esperava por isso, pois na semana anterior muitos médicos de um hospital de São Francisco, ofendidos por essas mesmas idéias, retiraram-se antes do final das sessões clínicas das quais participei. Mas aquela não era uma platéia de médicos. De repente, ouvi aplausos e muitas pessoas chegaram a se levantar, entusiasmadas. Fiquei aturdida.
Somente uma mulher na décima fila permanecia sentada. Seus braços estavam cruzados e havia um leve sorriso em seus lábios. Continuamos a olhar uma para a outra até que seus olhos se fecharam e ela fez um sinal com a cabeça duas vezes, lentamente. Jamais recebi qualquer reconhecimento igual a esse. Até hoje extraio dele uma grande força. Cinco meses depois desse dia, minha mãe estava morta.

RACHEL NAOMI REMEN
extraída do livro As Bênçãos do Meu Avô