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quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Aprendendo a escutar

Um ano, viajei para uma conferência de escritores. Ao chegar em casa, em Atlanta, minha família me aguardava. Depois de nos abraçarmos, comecei a lhes contar sobre a viagem. Ou, pelo menos, tentei. Todos queriam me contar alguma novidade diferente — especialmente Jeremy, de oito anos. Pulava para cima e para baixo para ser ouvido e falava mais alto do que as outras crianças, mais alto até do que meu marido, Jerry.
Todo mundo precisa de alguma coisa de mim, pensei. Não querem nem saber sobre a minha viagem. O que é mesmo que Jeremy não pára de repetir?
— Cartolina, mamãe! Eu preciso de cartolina. Vamos ter um concurso lá na escola.
Acalmei-o, com evasivas, prometendo que conversaríamos mais tarde. De volta ao lar, me reacostumei ao telefone, à campainha, a separar a roupa suja, a participar do revezamento de mães que levam as crianças na escola, a responder perguntas e a secar líquidos entornados. Eu lutava contra a arrepiante certeza de que, por mais que tentasse, não conseguia acompanhar as necessidades de minha família. Enquanto andava de um lado para o outro, apressada, tentando decidir o que fazer a seguir, Jeremy me lembrava:
— Manhê, preciso de cartolina.
Pouco a pouco, entretanto, passou a falar mais baixo, quase como se falasse com ele mesmo. Assim, coloquei o pedido de Jeremy no final da minha longa lista de afazeres. Talvez ele simplesmente desista de falar nessa cartolina, pensei, esperançosa.
Em meu terceiro dia em casa, consegui roubar quinze minutinhos para tentar digitar um artigo. Sentada diante da máquina de escrever, ouvi a secadora parar. Hora de colocar outro cesto de roupa para secar. Dois telefonemas importantes precisavam ser retornados. Uma de minhas filhas havia implorado comigo, diversas vezes, para ouvi-la recitar parte de “Os Cantos de Cantuária”. Uma das gatas passou mais de uma hora miando na minha cara, tentando fazer com que a alimentasse. Alguém havia derramado suco de laranja no chão da cozinha e lambuzado tudo com uma toalha seca. Já passava da hora de começar a preparar o jantar e eu ainda nem havia almoçado. Não obstante, escrevi alegremente durante alguns parcos minutos.
Uma pequena sombra caiu sobre a minha folha de papel. Eu sabia quem era antes mesmo de erguer a vista. Levantei os olhos, mesmo assim. Jeremy ficou ali, de pé, me observando calado. Oh, Senhor, permita que ele não toque no assunto outra vez. Eu sei que precisa de cartolina. Mas eu preciso escrever. Sorri muito sutilmente para Jeremy e continuei a digitar. Ele me olhou por mais alguns minutos e virou-se para ir embora. Por pouco não o ouço comentar:
— Tudo bem, o concurso termina amanhã mesmo.
Eu queria tanto escrever que, com um esforço mínimo, poderia ter deixado de ouvir aquela observação. Mas não dava para ignorar a voz silenciosa que falou, com urgência, direto ao meu coração. Vá comprar a cartolina dele — agora! Desliguei a máquina de escrever elétrica.
— Vamos comprar cartolina, Jeremy.
Ele parou, virou e me olhou sem sorrir e sem nada dizer — quase como se não tivesse me ouvido.
— Vamos — eu o apressei, agarrando a bolsa e as chaves do carro.
Mesmo assim, ele não se mexeu.
— Precisa comprar mais alguma coisa, mamãe?
— Não, só a sua cartolina.
Caminhei em direção à porta. Ele molengou um pouco e perguntou:
— Está indo à papelaria só por minha causa?
Parei e baixei a cabeça para olhá-lo. Realmente olhá-lo. Marcas do que quer que tivesse comido na escola manchavam sua camisa. Os sapatos largos desamarrados e os restos de suco de laranja que viravam para cima os cantos daquela boquinha sem sorriso conferiam a Jeremy a aparência de um palhacinho.
Subitamente, uma expressão de puro deleite invadiu o seu rosto, apagando qualquer traço de incredulidade. Não creio que jamais esquecerei aquele momento. Dali em diante, passou a movimentar-se com incrível rapidez e, correndo para a base da escada, atirou a cabeça para trás e gritou:
— Ei, Julie, Jen, Jon, a mamãe vai me levar à papelaria! Alguém precisa de alguma coisa?
Ninguém respondeu, mas ele não pareceu notar. Correu para o carro com expressão de manhã de Natal. Na loja, em vez de correr à minha frente, segurou firme a minha mão e começou a falar muito rápido, contando sobre o concurso.
— O assunto é prevenção contra incêndios. A professora anunciou há muito tempo e, quando falei com você, você disse que a gente falava disso mais tarde. Aí, você viajou. O concurso termina amanhã. Vou ter de dar um duro danado. E se eu ganhar?
E ele foi em frente com infindável entusiasmo, como se tivesse pedido que eu comprasse a cartolina uma única vez.
Jeremy não queria um pedido de desculpas. Isso teria estragado a sua alegria. Então, me limitei a escutá-lo. Prestei mais atenção no que dizia do que jamais havia prestado, para quem quer que fosse. Depois que comprou a cartolina, eu perguntei:
— Vai precisar de mais alguma coisa?
— Você tem bastante dinheiro? — sussurrou.
Sorri para ele, sentindo-me muito rica de repente.
— Tenho, por acaso hoje eu estou cheia de dinheiro. Do que mais precisa?
— Você pode comprar uma cola só para mim e cartolina colorida?
Peguei os artigos restantes e, ao chegarmos ao caixa, Jeremy, que normalmente não faz confidencias a estranhos, disse:
— Vou fazer um pôster. Minha mãe me trouxe até aqui para comprar o material. — Ele tentava soar natural, mas o rosto o entregava.
Passou a tarde toda trabalhando no pôster, silenciosamente e com enorme determinação.
O vencedor do concurso foi anunciado pelo alto-falante da escola dois dias depois. Jeremy ganhou. Seu pôster foi então inscrito no concurso do condado. Venceu este também. O diretor da escola escreveu-lhe uma carta e anexou um cheque de cinco dólares. Jeremy escreveu uma história sobre o concurso. Deixou-a sobre a cômoda e eu a li. Uma frase saltou aos meus olhos: “Então a mamãe parou de bater à máquina, escutou o que eu estava dizendo e me levou, eu sozinho, na papelaria.”
Algumas semanas mais tarde, um imenso envelope pardo chegou pelo correio endereçado a Jeremy. Ele o abriu com um rasgão e leu em voz alta — lentamente e quase sem acreditar — o Certificado de Honra: “Este documento atesta que Jeremy West tem a honra de chegar às finais estaduais do Concurso de Pôsteres da Geórgia com o tema Prevenção contra Incêndios.” Fora assinado pelo tesoureiro-geral do estado.
Jeremy se atirou no chão e deu cambalhotas, rindo bem alto. Emolduramos o certificado e, com freqüência, quando o olho, lembro-me de que, por muito pouco, quase dera as costas para o seu pedido: de que comprasse uma cartolina para ele.

MARION BOND WEST