Saindo de casa
Sempre tive a sensação de que Deus nos empresta nossos filhos até
terem, aproximadamente, dezoito anos. Se você não tiver feito
pontos com eles até então, já é tarde demais.
BETTY FORD
— Eu não vou chorar — disse a Chuck, meu marido, ao deixarmos a sessão de orientação para pais, organizada diversos meses antes de nossa filha partir para a faculdade.
Talvez as outras mães chorassem ao deixarem os seus filhos no alojamento, mas eu não choraria. Olhei à minha volta, no auditório, para todas as outras mães e me perguntei quais delas seriam as choronas. Pensei assim: “Eu é que não vou me agarrar a uma caixa de lenços de papel quando chegar a hora de me despedir de Sarah. Sou mais forte do que isso. Para que me lamuriar e soluçar só porque a minha garotinha está crescendo?”
Passamos a tarde inteira ouvindo os pais dos veteranos falarem do quanto as nossas vidas mudariam quando nossos filhos partissem para a faculdade. Uma mãe mais experiente avisou que choraríamos até chegar em casa.
Cutuquei Chuck:
— Isto é ridículo — comentei. — Por que será que estão dando tanta trela para isso tudo? — Ser mãe era importante para mim, mas, pelo amor de Deus, não era a única coisa! Tenho emprego, tenho amigos, eu tenho uma vida!
Sarah e eu passamos o verão inteiro nos alfinetando. Eu detestava sua mania de dizer que não agüentava esperar até partir para a faculdade — como se sua vida em casa, conosco, fosse uma espécie de cativeiro. Ela odiava o fato de eu viver pedindo que limpasse o quarto e colocasse a louça suja dentro da pia; a maneira de eu resmungar quando precisava usar o telefone e ela estava ocupando a linha; a maneira de lhe perguntar por onde andara quando saía com os amigos. Afinal de contas, tinha dezoito anos. Não precisava ficar dando satisfações à mãe a cada cinco minutos.
Em agosto, encontrei minha amiga Pat na biblioteca. Pat recordou as semanas anteriores à partida da filha para a faculdade.
— Passamos o verão inteiro às turras — contou. — Acho que foi a nossa forma de nos acostumarmos a viver longe uma da outra. Quando a gente passa o tempo todo discutindo, com raiva, não se sente tão mal quando ela está partindo.
— Além disso — reagi, pensativa —, ela não se sente tão mal por estar partindo quando passa o tempo todo fula da vida com a mãe.
No dia da mudança, nós a ajudamos a desfazer as malas e a guardar seus pertences no quarto do alojamento. Cobri o colchão de Sarah com lençóis extralongos enquanto Chuck montava uma prateleira dentro de seu guarda-roupa. Depois do almoço, nos despedimos, nos abraçamos no meio-fio e, então, Chuck e eu partimos.
A mulher da orientação estava enganada, pensei. Isto não é tão ruim assim.
Dois dias depois, entrei em seu quarto. A porta estava aberta, a cama estava feita e toda a desordem da infância e da adolescência haviam sumido. E de repente eu me dei conta. Ela se fora.
Mais tarde, enquanto passava aspirador na sala, pensei ter ouvido alguém dizer: “Mãe.” Desliguei o aspirador para ouvir os passos atravessarem a porta, para responder ao chamado de uma criança. Foi então que compreendi que estava sozinha. Sarah havia partido e nada, nunca mais, seria igual.
Tive vontade de ouvir sua voz. Queria saber como ela estava. Queria que ela se sentasse na beiradinha de minha cama à noite, como fazia antigamente, para me contar sobre o seu dia, sobre as aulas, sobre os professores, sobre os amigos, sobre os garotos dos quais gostava, sobre os garotos que gostavam dela...
— Aconteceu alguma coisa? — perguntou Chuck ao chegar em casa. Eu cortava legumes para refogar. Ele olhou para o meu rosto. — Você está chorando?
— São as cebolas — funguei, enquanto uma lágrima serpenteava pela minha face.
Depois do jantar, eu disse:
— Vamos ligar para ela. Talvez esteja esperando que liguemos.
— Mas só fazem dois dias — disse Chuck. — Vamos lhe dar pelo menos uma semana para se assentar.
Ele tinha razão, é claro. Eu não queria me transformar numa espécie de mãe psicótica. Me lembrei de como era ter dezoito anos e estar longe de casa pela primeira vez. Ela estava fazendo novos amigos, aprendendo novas idéias, formando novos elos. Eu precisava lhe dar espaço, a distância da qual precisava.
Então, o telefone tocou.
— Oi, mãe — disse Sarah. — Dava para você mandar umas fotos para eu colocar no quadro de cortiça? E alguns bichinhos de pelúcia?
Ela queria o ursinho. Queria uma foto minha com o pai — e uma do irmão mais novo. Adorava estar na faculdade, mas também sentia saudades nossas. E então começou a me contar sobre o seu dia, sobre as aulas, sobre os professores, sobre os meninos dos quais gostava, sobre os meninos que gostavam dela...
BETH COPELAND VARGO







