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segunda-feira, 31 de agosto de 2009

O toque de Romana - de Betty Aboussie Ellis

Fui ao consultório do Dr. Belt para um check-up apenas algumas semanas depois de minha cirurgia. Isso foi logo depois do primeiro tratamento de quimioterapia.

A cicatriz ainda estava muito sensível. A parte de baixo do meu braço estava dormente. Um conjunto de sensações estranhas e novas parecia compartilhar o espaço anteriormente conhecido como meus seios - agora amorosamente apelidado de "o seio e o tórax".

Como sempre, fui levada a uma sala de exames para que mais uma vez tirassem meu sangue - um processo aterrorizante para mim, que tenho tanto medo de agulhas.

Deitei-me na mesa de exames. Vestia uma camisa larga de flanela xadrez e um corpete por baixo. Era uma roupa estudada cuidadosamente que eu esperava fosse vista pelos outros como uma roupa esporte qualquer. O xadrez da camisa camuflava meu seio, o corpete o protegia e os botões facilitavam o acesso médico.

Ramona entrou na sala. Seu sorriso caloroso e brilhante era familiar e contrastava com meus medos. Eu a tinha visto pela primeira vez no consultório há algumas semanas.

Não foi a enfermeira que me atendeu naquele dia, mas lembrei-me dela porque estava rindo. A risada tinha um timbre profundo, rico, aveludado. Lembro-me de ter pensado no que poderia ser tão engraçado, atrás da porta do consultório. O que poderia encontrar naquela situação para rir daquele jeito? Deduzi que ela não levava a coisa toda suficientemente a sério e que eu tentaria achar uma enfermeira que levasse. Mas eu estava errada.

Naquele dia foi diferente. Ramona já havia tirado meu sangue antes. Ela conhecia meu medo de agulhas e gentilmente escondeu toda a parafernália embaixo de uma revista com a alegre fotografia da reforma de uma cozinha. Quando abrimos a camisa e tiramos o corpete, o catéter no meu peito ficou exposto e, com ele, a recente cicatriz.

Ela disse:

- Como anda sua cicatrização? Respondi:
- Acho que bastante bem. Lavo em volta com cuidado todos os dias.

A lembrança da água do chuveiro atingindo a carne dormente passou pela minha mente.

Ela se debruçou e passou gentilmente a mão na cicatriz, examinando a textura da pele nova e procurando irregularidades. Comecei a chorar baixinho. Olhou para mim com olhos amigos e disse:

- Você ainda não a tocou, não é? E eu respondi:

- Não.

Então esta mulher maravilhosa e carinhosa colocou a palma de sua mão marrom-dourada em meu peito pálido e permaneceu com ela ali por muito tempo. Continuei a chorar baixinho. Com tom suave, ela disse:

- Isto faz parte do seu corpo. Isto é você. Você pode tocá-la. Mas eu não podia. Ela a tocou para mim. A cicatriz. O ferimento que estava se curando. E, por baixo,
tocou meu coração. Em seguida, Ramona disse:

- Eu seguro a sua mão enquanto você a toca.

Colocou a mão ao lado da minha e ficamos as duas caladas. Este foi o presente que Ramona me deu.

Naquela noite, quando fui me deitar para dormir, botei delicadamente a mão no peito e a deixei ali até pegar no sono. Eu sabia que não estava sozinha. Estávamos
todos juntos na cama, metaforicamente, meu seio, meu tórax, o presente de Ramona e eu.

(Betty Aboussie Ellis)

domingo, 30 de agosto de 2009

Com pressa - de Gina Barrett Schlesinger

“O trabalho irá esperar enquanto você mostra as crianças o arco-íris mas o arco-íris não espera enquanto você está trabalhando.” (Patricia Clifford)

Eu estava com pressa.

Passei correndo pela sala de jantar usando meu melhor vestido, concentrada em me preparar para um encontro de negócios noturno. Gillian, minha filha de quatro anos, estava dançando ao som de sua música favorita, Cool, do filme Amor, Sublime Amor.

Eu estava com pressa, à beira de chegar atrasada. No entanto, uma vozinha dentro de mim disse: "Pare."

Então parei. Olhei para ela. Aproximei-me, peguei sua mão e a rodopiei. Minha filha de sete anos, Caitlin, entrou em nossa órbita e eu também a peguei. Nós três dançamos alucinadamente pela sala de jantar até chegarmos à sala de estar. Ríamos. Rodopiávamos. Será que os vizinhos podiam ver a loucura pelas janelas?

Não tinha importância. A música chegou ao fim com um floreio dramático e nossa dança terminou com ela. Dei um tapinha em seus traseiros e mandei que fossem tomar banho.

Elas subiram as escadas, sem fôlego, seus risinhos ricocheteando pelas paredes. Voltei aos meus afazeres. Estava dobrada para a frente, enfiando papéis em uma pasta, quando ouvi a mais nova falar para a irmã:

- Caitlin, você não acha que a mamãe é a mais melhor de todas?

Congelei. Eu quase correra pela vida, perdendo aquele momento. Meu pensamento foi para os prêmios e os diplomas que cobriam as paredes do meu escritório. Nenhum prêmio, nenhuma realização que eu jamais alcançara, poderia se comparar a isso: "Você não acha que a mamãe é a mais melhor?"

Minha filha disse isso quando tinha quatro anos. Não espero que ela o diga com quatorze. Mas, aos quarenta, se ela se inclinar por cima daquela caixa de pinho para dizer adeus para o recipiente descartado da minha alma, quero que o diga.

"Mamãe não é a mais melhor?"

Não combina com meu currículo. Mas quero isso gravado na minha lápide.

(Gina Barrett Schlesinger)

sábado, 29 de agosto de 2009

O despertar - de Melva Haggar Dye

Uma alegria destrói cem tristezas.

- Você quer fazer o quê? - perguntei-lhe incredulamente, minha voz elevando-se ao tom agudo que alcança quando fico exasperada. - Diga isso de novo, por favor, acho que não o ouvi!

- Ah, você me ouviu, com certeza – Frank respondeu bruscamente, balançando os braços de maneira expressiva. - Quero fazer o meu velório agora, antes de morrer! Por que todo mundo, menos eu, deveria aproveitar?

Ele rastejou até a cozinha e eu podia ouvi-lo resmungando para si mesmo enquanto vasculhava a geladeira. Voltou logo depois para o deque onde eu havia ficado para assistir ao pôr-do-sol de setembro cobrir as Montanhas Blue Ridge. Terminou de mastigar um pêssego maduro e então a voz que nunca conseguia permanecer áspera por muito tempo quebrou o silêncio:

- Querida, eu quero fazer isto.

Segurei um nó na garganta e tentei não chorar. Estava com quarenta e quatro anos e a idéia de ficar viúva - de novo - era devastadora. Tão devastadora, na verdade, que a negação facilmente se tornara o manto que eu vestia todos os dias.

- Mas você está mais forte agora. Você disse isso! E as injeções, elas ajudam...
- Melva - ele tocou meu ombro como se estivesse implorando. - Vamos dar uma festa e vamos fazer direito. Podíamos disfarçá-la como uma festa de aniversário de casamento. É claro que todos os que me conhecem muito bem saberão.

Olhei dentro daqueles olhos castanhos brilhantes, sua faísca agora turvada pela dor, pelos remédios, pelo medo. Eu sabia o que os últimos anos haviam tirado dele.

Havíamos deixado de ser o casal dourado na pista de dança todos os fins de semana. Sim, nós ainda íamos, pois ele insistia, mas agora passávamos a maior parte da noite sentados conversando com amigos.

Seu jogo de golfe, antes marcado por aqueles impulsos poderosos e exatos e pelas tacadas precisas - ele costumava marcar quatro buracos com uma tacada - haviam decaído.

As horas agradáveis que ele costumava passar jardinando e cortando lenha haviam diminuído para alguns poucos e preciosos minutos que o deixavam abatido e exausto.

Entretanto, a disposição de espírito nunca o abandonou. Enquanto eu parecia lamentar constantemente as mudanças em nossa vida - em minha vida -, ele nunca reclamava.

Subitamente, percebi que meus medos e incertezas empalideciam em comparação ao que ele devia estar passando. As mudanças pelas quais havíamos passado pareciam minúsculas em relação ao câncer que grassava dentro de seu corpo, competindo com a diabetes pela chance de determinar seu destino. Engolindo minha vergonha, peguei a sua mão.

- Tudo bem. Se você quer uma festa, teremos uma festa! Na manhã seguinte encomendei os 150 convites para nossa "festa de aniversário de casamento".

Dezenove de outubro de 1991 caiu num sábado à noite e alugamos o Frank's Shrine Club para o evento.

Quase todos os que convidamos vieram para partilhar a noite conosco. No meio da festa, Frank subiu ao palco com o microfone na mão para fazer uma gloriosa interpretação da balada It's Hard to Be Humble (É Difícil Ser Humilde).

Meu marido adorou ser o centro das atenções e terminou sob os aplausos e as lágrimas de todos aqueles que o amavam. Então fez um pequeno discurso, agradecendo a todos por terem vindo e proclamou-se o homem mais sortudo do mundo! Com estas palavras, ele disse adeus.

E então valsamos. Frank começara a perder o equilíbrio e não mais se sentia à vontade dançando com outras mulheres. Mas naquela noite ele dançou com todas.

Mais tarde conversei com um de seus médicos enquanto dançávamos uma música lenta.

- Quanto tempo ele tem? - perguntei baixinho.

- É impossível prever isso, Melva, ele parece estar mais forte. - Quanto tempo? - perguntei novamente e não obtive resposta. Terminamos nossa dança e ele me levou de volta à mesa.

- Seis meses, talvez mais - ele finalmente me respondeu. - Obrigada - sussurrei.

O resto da noite passou como um sonho, com Frank mudando de um grupo para outro, conversando com todo mundo e deleitando-se com as várias histórias contadas às suas custas. Politicagem, como ele o chamou certa vez. Quando a noite se aproximou do fim, ele ficou na porta para dar boa-noite a todos os convidados - de pé no começo, depois precisando sentar-se, mas sempre sorrindo.

Três meses e três dias depois, eu estava sentada tremendo no frio enquanto seus irmãos da maçonaria realizavam rituais maçônicos. Eu segurava fortemente a bandeira dobrada com capricho, enquanto os braços fortes de um amigo me levavam até a limosine que aguardava.

Cerca de um ano depois, fui almoçar com uma nova amiga. Ela falou do velório ao qual fora na noite anterior:

- Que linda forma de dizer adeus! - observou, obviamente desacostumada a tal evento.

Ouvi-a relatar a frivolidade e pensei em como era triste que o amado falecido tivesse perdido uma noite tão prazerosa. A culpa do "eu devia ter feito mais" e "por que eu não fui mais forte para ele", que eram minha mortalha, começaram a desaparecer. Minha mente voltou-se para a alegria de Frank em sua última festa.

- Então, você fez um velório para o Frank? - perguntou minha amiga.
- Ah, sim - respondi. - Foi uma festa maravilhosa e ele se divertiu como nunca!

(Melva Haggar Dye)

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Vencendo em terceiro lugar - de Bettie B. Youngs

Com a cabeça baixa, um exausto mas determinado rapaz repetia de novo e de novo para si mesmo:

- Você pode fazer isso. Você pode fazê-lo, você pode, você pode.

Essas palavras, ditas tanto como encorajamento quanto como confirmação, encontraram um coração atento. Sem falhar, elas levaram um pé na frente de outro, para o alto no ar e então para baixo - de novo e de novo e de novo. O rapaz observava intensamente enquanto, um a um, seus tênis novos batiam no asfalto que passava lentamente debaixo dele. Era um tropel muito cansado. Olhando para cima, o jovem esfregou a testa e procurou por um vislumbre da linha de chegada.

"É em algum lugar lá na frente" - disse para si mesmo. Estava muito longe. Mesmo assim, Chris Burke estava decidido a alcançá-la.

Com grande esforço, ele também cruzou a linha de chegada. Quando chegou, fotógrafos e repórteres já haviam se reunido em volta do jovem que chegara em primeiro lugar.

As câmeras davam closes e espocavam flashes microfones se esticavam para a frente para captarem as palavras do vencedor. Com um sorriso que se abria de orelha a orelha, Chris triunfantemente saltou e ficou orgulhosamente ao lado do vencedor. Passou os braços em volta do rapaz de sua própria idade - alguém que ele nunca havia encontrado antes desse dia. Radiante, Chris esperou pacientemente que o repórter completasse sua entrevista com o vitorioso - tão pacientemente quanto podia em um momento que lhe era tão emocionante.

Quando por fim o repórter virou-se para a câmera para suas observações finais, Chris instantaneamente deu um passo à frente e esticou a mão para receber um aperto de mão de congratulações.

- Nossa! - gritou Chris, incapaz de reprimir sua óbvia felicidade. - Só quero dizer como isso foi emocionante e como estou feliz de ter chegado em terceiro!

O repórter não teve saída a não ser responder ao carismático e entusiasmado atleta, querendo seu momento de reconhecimento.

- Sim, conte-nos a respeito - gaguejou de boa vontade o surpreso repórter.

- Uau! - disse Chris. - Obrigado por me entrevistar. Isso é ótimo! Simplesmente ótimo. Sem, eu apenas estou muito feliz por estar aqui. É uma honra. Claro que terminei em terceiro lugar. Terceiro lugar, que ótimo!

Ele não precisava de uma resposta para esta pergunta e não esperou por uma. Ao invés disso, virou seu rosto animado para que o mundo todo visse - isso foi em cadeia nacional - e, com mais alegria do que me lembro ter visto em alguém, disse:

- Obrigado a todos por compartilharem desse momento muito especial comigo. É hora de comemorar!

Dito isto, Chris se virou e correu para a fila para receber os abraços e os apertos de mão junto com o vencedor.

Chris tinha quatorze anos na época. Isso foi nas Olimpíadas Especiais.

Só havia três corredores na corrida.

(Bettie B. Youngs Extraído de Gifts of the Heart)

Nota do editor: Para entender o significado moral da história de Chris, deve-se saber que ele tem síndrome de Down, uma condição causada por um defeito genético. Crianças com síndrome de Down possuem um cromossomo a mais, resultando em uma semelhança incomum na aparência, impedimentos no desenvolvimento e um limite de potencial. Como o QI chega no máximo a 75, as capacidades e as habilidades são severamente limitadas - ou assim se pensava. Quando Chris nasceu, em 1965, os médicos recomendavam que os pais de filhos com síndrome de Down colocassem seus filhos em sanatórios, a maioria dos quais fazia pouco mais do que oferecer cuidados físicos. Grande parte do mundo hoje em dia conhece Chris Burke não apenas através de sua inesquecível entrevista anos atrás, mas também como o carismático e talentoso ator da série de televisão A Vida Continua.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Um punhado de esmeraldas - de Rebecca Christian

“A vida não é uma questão de marcos, mas de momentos.” (Rose Kennedy)

Quando Jeff e eu nos casamos, há dezesseis anos, em um sábado tempestuoso, nunca passou por nossas cabeças que chegaria o dia em que iria parecer ter sido há muito tempo. Desde aquela época, nós moramos em oito cidades e tivemos três filhos. Estamos em nossa terceira garrafa de Tabasco e acabei de rasgar o último dos lençóis que ganhamos como presente de casamento para usar como trapo de limpeza. Infelizmente, a maior parte dos terríveis móveis cor de terra que compramos para nosso primeiro apartamento ainda sobrevive. Meu vestido de casamento está pendurado no fundo do armário. Ainda consigo fechá-lo (desde que eu não esteja dentro). Tivemos quatro carros (ai de mim! - nenhum novo) e muitos altos e baixos para podermos contar.

Um dia se destaca na minha memória. Estávamos morando no Leste e meus pais vieram nos visitar. Como éramos pais exaustos e falidos, papai e mamãe gentilmente pagaram o aluguel de uma semana de uma casa na praia na costa de Jersey. O arranjo abalou o ego de Jeff, eu própria estava de péssimo humor e tivemos uma briga extremamente estúpida a respeito de um jogo de Monopólio. Ele rastejou para fora de casa e atravessou a rua para a praia. Algumas horas depois, enquanto eu o esperava na praia, ele emergiu do Atlântico excessivamente queimado de sol, carregando um colchão de ar.

- Onde está sua aliança? - perguntei.

Ele olhou para sua mão esquerda, petrificado. Seu dedo havia se contraído por causa da água fria enquanto ele boiava no colchão. O anel escorregara e estava no mar, junto com as anêmonas. Comecei a chorar.

- Tire a sua aliança e jogue-a no mar também - ele implorou. - Por que eu jogaria ouro fora quando não temos dinheiro suficiente para botar gasolina e ir para casa? - gemi.

- Porque os dois anéis estariam juntos no oceano.

A praticidade ganhou dos corações e das flores e uso minha aliança até hoje.

Aquela lembrança, no entanto, me fez ir em frente durante muitas épocas menos românticas.

Quando nosso aniversário de casamento se aproxima, penso naquele dia na praia.

E penso no que o saudoso Charlie McArthur disse a Helen Hayes quando a encontrou em uma festa. Deu-lhe um punhado de amendoins e disse:

- Gostaria que fossem esmeraldas.

Depois de anos de um casamento feliz, quando McArthur estava próximo do fim de sua vida, ele deu a ela um punhado de esmeraldas e disse:

- Gostaria que fossem amendoins.

Eu também.

(Rebecca Christian)

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

O pirata - de Marjorie Wally

“Nós não vemos as coisas como elas são, nós as vemos como nós somos.” (Anaïs Nin)

Um dia a Sra. Smith estava sentada na ante-sala do consultório médico quando um garotinho e sua mãe entraram. O menino chamou a atenção da Sra. Smith porque usava um tapa-olho. Ela ficou maravilhada pelo fato de ele não parecer ter sido afetado pela perda de um olho e o observou enquanto acompanhava a mãe até uma cadeira próxima.

O consultório estava muito cheio naquele dia, de modo que a Sra. Smith pôde conversar com a mãe do menino enquanto ele brincava com seus soldadinhos. No começo, ficou sentado calmamente, brincando com os soldadinhos no braço da cadeira. Depois, sentou-se tranqüilamente no chão, olhando para cima, para sua mãe.

Finalmente, a Sra. Smith teve a oportunidade de perguntar ao menino o que havia acontecido com seu olho. Ele analisou a pergunta durante um longo instante e, em seguida, respondeu, levantando o tapa-olho:

- Não há nada errado com meu olho. Sou um pirata! E voltou para sua brincadeira.

A Sra. Smith estava ali porque havia perdido a perna, do joelho para baixo, em um acidente de carro. Sua consulta naquele dia era para determinar se o joelho já cicatrizara o suficiente para ser encaixado numa prótese. A perda fora devastadora para ela. Mesmo tentando ao máximo ser corajosa, sentia-se uma inválida.

Intelectualmente sabia que a perda não deveria interferir com sua vida, mas, emocionalmente, não conseguia superar esse obstáculo. O médico sugerira visualização e ela experimentara, mas não fora capaz de visualizar uma imagem emocionalmente aceitável e duradoura. Em sua cabeça via-se como uma inválida.

A palavra "pirata" mudou sua vida. Foi instantaneamente transportada. Viu-se vestida como Long John Silver, de pé no convés de um navio pirata. Estava parada, com as pernas abertas, sendo que uma perna era de pau. As mãos seguravam os quadris, a cabeça estava levantada, os ombros para trás e ela sorria no meio da tempestade.

Ventos com a força de um furacão chicoteavam o casaco e o cabelo. A espuma gelada era soprada por cima da balaustrada do convés e grandes ondas se quebravam contra o navio. O barco balançava e gemia sob a força da tempestade. Ainda assim ela se mantinha firme, orgulhosa, impávida.

Naquele momento, a imagem de inválida foi substituída e sua coragem voltou.

Olhou para o garotinho, ocupado com seus soldados.

Alguns minutos depois, a enfermeira a chamou. E, quando se balançou nas muletas, o garotinho percebeu sua amputação.

- Ei, moça - chamou-a. - O que há de errado com a sua perna?

A mãe do menino ficou petrificada.

A Sra. Smith olhou durante um instante para a perna diminuída. E respondeu com um sorriso:

- Nada. Também sou pirata.

(Marjorie Wally)

terça-feira, 25 de agosto de 2009

O vento debaixo das minhas asas - de Carol Kline

Muito longe, no brilho do sol estão minhas maiores aspirações. Posso não alcançá-las, mas posso olhar para cima e ver sua beleza, acreditar nelas e tentar segui-las. (Louise May Alcott)

Em 1959, quando Jean Harper estava na terceira série, sua professora passou uma redação sobre o que eles queriam ser quando crescessem. O pai de Jean era piloto de um avião que pulverizava plantações na pequena comunidade rural no norte da Califórnia, onde ela foi criada, e Jean ficou totalmente fascinada por voar e por aviões. Ela colocou seu coração na redação e incluiu todos os seus sonhos: queria pulverizar inseticida nas lavouras, pular de pára-quedas, ver as nuvens (algo que havia visto em um programa de TV) e ser piloto de avião. Sua redação voltou com uma nota zero. A professora lhe disse que aquilo era "um conto de fadas" e que nenhuma das ocupações que ela listara eram profissões para mulheres. Jean ficou arrasada e humilhada.

Mostrou a redação a seu pai e ele disse que é claro que ela podia se tornar piloto.

- Veja Amelia Earhart - ele disse. - Essa professora não sabe do que está falando.

Porém, conforme os anos se passavam, Jean foi massacrada pelo desencorajamento e negatividade que encontrava sempre que falava a respeito de sua carreira: "Garotas não podem se tornar pilotos de avião; nunca puderam, nunca irão poder. Vocês não são inteligentes o bastante, são malucas. Impossível."

Até que finalmente Jean desistiu.

Quando estava no último ano do segundo grau, sua professora de inglês era a Sra. Dorothy Slaton. A Sra. Slaton era uma professora inflexível e exigente que possuía altos padrões e pouca tolerância para desculpas. Recusava-se a tratar seus alunos como crianças, esperando, ao invés, que se comportassem como adultos responsáveis para serem bem-sucedidos no mundo real após a formatura. No princípio, Jean teve medo dela, mas, com o tempo, passou a respeitar sua firmeza e senso de justiça.

Um dia, a Sra. Slaton passou um dever para a turma: "O que vocês acham que estarão fazendo daqui há dez anos?" Jean pensou a respeito. "Piloto? Nem pensar. Aeromoça? Não sou bonita o bastante - eles nunca me aceitariam. Esposa? Que rapaz poderia me querer? Garçonete? Posso fazer isso." Por segurança, foi isso o que ela escreveu.

A Sra. Slaton recolheu as redações e nada mais foi dito. Duas semanas depois, a professora devolveu o dever, de cabeça para baixo em cima de cada carteira e fez esta pergunta: "Se você possuísse uma quantidade ilimitada de dinheiro, acesso ilimitado às melhores escolas, talento e habilidades ilimitados, o que faria?" Jean sentiu uma onda do antigo entusiasmo e, animada, escreveu todos os seus antigos sonhos. Quando os alunos pararam de escrever, a professora perguntou:

- Quantos alunos escreveram a mesma coisa dos dois lados do papel?

Nenhuma mão se levantou.

A próxima coisa que a Sra. Slaton disse mudou o rumo da vida de Jean. A professora se inclinou por cima de sua carteira e disse:

- Tenho um segredo para vocês todos. Vocês têm talento e habilidades ilimitados. Vocês têm acesso a boas escolas e podem conseguir uma quantidade ilimitada de dinheiro se desejarem algo com fervor. Quando terminarem a escola, se não correrem atrás de seus sonhos, ninguém irá fazê-lo por vocês. Vocês podem ter o que quiserem, se desejarem o bastante.

A mágoa e o medo de anos de desencorajamento desmoronaram frente à verdade do que a Sra. Slaton havia dito. Jean sentiu-se animada e um pouco amedrontada.

Ficou depois da aula e dirigiu-se à mesa da professora. Jean agradeceu à Sra. Slaton e lhe contou sobre seu sonho de se tornar piloto. A Sra. Slaton levantou-se ligeiramente e bateu com as mão no tampo da mesa: - Então faça isso! - disse.

E Jean fez. Não aconteceu do dia para a noite. Levou dez anos de trabalho duro, encarando oposições que iam do ceticismo silencioso à hostilidade declarada. Não era da natureza de Jean manter sua posição quando alguém a rejeitava ou humilhava. Ao contrário, tentava tranqüilamente encontrar outra solução.

Tornou-se piloto particular e então conseguiu graduação suficiente para transportar carga e até mesmo aviões de passageiros. Seus patrões hesitavam claramente em promovê-la porque era mulher. Até mesmo seu pai a aconselhou a tentar outra coisa.

- Impossível - ele disse. - Pare de bater com a cabeça na parede!

Mas Jean respondeu:

- Eu discordo, papai. Acredito que as coisas irão mudar e quero estar entre as primeiras quando isso acontecer.

Jean foi em frente e fez tudo o que a sua professora da terceira série considerava "um conto de fadas" - pulverizou plantações, pulou de pára-quedas algumas centenas de vezes e até mesmo semeou nuvens, como modificação climática, durante um verão. Em 1978 tornou-se uma das primeiras três mulheres a serem aceitas como piloto pela United Airlines e uma entre apenas cinqüenta pilotos comerciais mulheres no país naquela época. Hoje, Jean Harper é piloto de Boeing 737 na United.

Foi o poder de uma palavra positiva bem colocada, uma fagulha de encorajamento vindo de uma mulher que Jean respeitava, que deu à insegura garota a força e a fé para perseguir seu sonho. Hoje, Jean diz:

- Eu escolhi acreditar nela.

(Carol Kline com Jean Harper)

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

A garotinha que ousou desejar - de Alan D. Schultz

Quando Amy Hagadorn dobrou a esquina no final do corredor de sua sala de aula, colidiu com um garoto alto da quinta série correndo na direção oposta.

- Olhe por onde anda, coisinha - gritou o garoto enquanto se desviava da menina da terceira série. Então, com um sorriso afetado, o garoto segurou sua perna direita e imitou a maneira que Amy mancava quando estava andando. Amy fechou os olhos por um instante. "Ignore-o", disse para si mesma enquanto se dirigia para a sala de aula. Mas, no final do dia, Amy ainda estava pensando sobre a zombaria do garoto. E ele não era o único. Desde que Amy entrara para o terceiro ano, alguém zombava dela todo santo dia, a respeito de sua forma de falar ou de seu andar manco. Às vezes, mesmo em uma sala cheia de outros alunos, as zombarias a faziam sentir-se sozinha.

À mesa de jantar naquela noite, Amy ficou calada. Sabendo que as coisas não iam bem na escola, Patty Hagadorn ficou feliz por ter boas notícias para partilhar com sua filha.

- Há um concurso de desejos de Natal na estação de rádio local - anunciou. - Escreva uma carta para Papai Noel e você pode ganhar um prêmio. Acho que alguém de cabelos louros e cacheados nesta mesa deveria entrar.

Amy riu e um papel e uma caneta surgiram. - Querido Papai Noel - ela começou.

Enquanto Amy caprichava na caligrafia, o resto da família tentava descobrir o que ela poderia pedir para Papai Noel.

Tanto a irmã de Amy, Jamie, quanto sua mãe pensaram que uma Barbie de um metro de altura estaria no topo da lista de desejos de Amy. O pai de Amy pensou em um livro com ilustrações. Mas Amy não revelou seu desejo secreto de Natal.

Na estação de rádio WJLT em Fort Wayne, Indiana, as cartas para o Concurso de Desejo de Natal jorravam. Os funcionários se divertiam com todos os diferentes presentes que os meninos e meninas de toda a cidade queriam para o Natal.

Quando a carta de Amy chegou à estação de rádio, o diretor Lee Tobin a leu com atenção.

"Querido Papai Noel.
Meu nome é Amy. Tenho nove anos de idade. Tenho um problema na escola. Será que você pode me ajudar, Papai Noel? Os garotos riem de mim por causa da maneira que eu ando, corro e falo. Tenho paralisia cerebral. Só queria um dia em que ninguém risse ou zombasse de mim.
Com amor, Amy."

O coração de Lee ficou apertado quando ele leu a carta. Ele sabia que paralisia cerebral era uma desordem muscular que podia deixar os colegas de Amy confusos.

Ele pensou que seria bom para as pessoas de Fort Wayne ouvirem a respeito dessa menininha especial e seu pedido incomum. O Sr. Tobin ligou para o jornal local.

No dia seguinte, uma foto de Amy e sua carta para Papai Noel estavam na primeira página do The News Sentinel. A história se espalhou rapidamente. Por todo o país, jornais, rádio e televisão relatavam a história da garotinha em Fort Wayne, Indiana, que pedira um presente de Natal tão simples e, ainda assim, notável – apenas um dia sem zombarias.

De repente, o carteiro passou a freqüentar a casa dos Hagadorn. Envelopes de todos os tamanhos endereçados a Amy chegavam diariamente, enviados por crianças e adultos do país inteiro, recheados de desejos de boas festas e palavras de encorajamento. Durante a época atribulada do Natal, mais de duas mil pessoas do mundo todo enviaram a Amy cartas de amizade e apoio. Alguns dos remetentes tinham deficiências, mas cada um enviava uma mensagem especial para Amy.

Através dos cartões e cartas vindas de estranhos, Amy teve um vislumbre de um mundo cheio de pessoas que realmente se importavam umas com as outras. Ela percebeu que nenhuma forma ou quantidade de zombarias poderia fazê-la se sentir solitária novamente.

Muitas pessoas agradeceram a Amy por ser corajosa o suficiente para se abrir. Outras a encorajavam a ignorar as provocações e a andar de cabeça erguida. Lynn, uma menina da sexta série, do Texas, enviou esta mensagem:

"Gostaria de ser sua amiga e, se você quiser me visitar, poderíamos nos divertir. Ninguém irá zombar de nós porque, se o fizerem, não iremos nem ouvi-los."

Amy conseguiu seu desejo de um dia especial sem zombarias na Escola Primária South Wayne. Ademais, todos na escola receberam um bônus extra. Professores e alunos discutiram sobre como as zombarias podem fazer os outros se sentirem.

Naquele ano, o prefeito de Fort Wayne proclamou oficialmente o dia 21 de dezembro como o Dia de Amy Jo Hagadorn em toda a cidade. O prefeito explicou que, ao ousar fazer um pedido tão simples como aquele, Amy ensinou uma lição universal.

- Todos - disse o prefeito - querem e merecem ser tratados com respeito, dignidade e carinho.

(Alan d. Schultz)

domingo, 23 de agosto de 2009

Estamos aqui para aprender - de Charles Slack

“O futuro pertence àqueles que acreditam na beleza de seus sonhos.” (Eleanor Roosevelt)

- Dezesseis - eu disse.

Esqueci a pergunta de Matemática que minha professora da segunda série, Joyce Cooper, me fez naquele dia, mas nunca me esquecerei da resposta. Assim que o número saiu da minha boca, a turma inteira começou a rir. Eu me senti como a pessoa mais burra do mundo.

A Sra. Cooper censurou meus colegas com um olhar severo. E disse:

- Estamos todos aqui para aprender.

Num outro dia, a Sra. Cooper nos pediu para escrever uma redação a respeito do que esperávamos fazer de nossas vidas. Escrevi: "Quero ser professora como a Sra. Cooper."

Ela escreveu na minha redação: "Você daria uma professora excepcional, pois é determinada e tenta com afinco." Eu iria carregar estas palavras em meu coração durante os vinte e sete anos seguintes.

Depois de me formar no segundo grau em 1976, casei-me com um homem maravilhoso, Ben, um mecânico. Logo, Latonya nasceu.

Precisávamos de cada centavo apenas para sobreviver. Faculdade e magistério estavam fora de questão. Consegui, no entanto, arrumar um emprego em uma escola – como ajudante de servente. Limpava dezessete salas de aula na Escola Primária Larrymore todos os dias, incluindo a da Sra. Cooper. Ela havia sido transferida para Larrymore depois que Smallwood fora fechada.

Eu dizia à Sra. Cooper que queria ensinar e ela me repetia as palavras que escrevera na minha redação anos antes. Mas as contas sempre pareciam estar no meio do caminho.

Até que um dia, em 1986, pensei em meu sonho, em como eu queria ajudar as crianças. Mas, para fazer isso, precisava chegar de manhã como professora - não de tarde, para limpar. Conversei a respeito disso com Ben e Latonya e ficou decidido: eu me inscreveria na Universidade Old Dominion. Durante sete anos assisti às aulas de manhã, antes do trabalho. Quando chegava em casa do trabalho, eu estudava. Nos dias em que não tinha aula, trabalhava como professora-assistente para a Sra. Cooper.

Às vezes ficava pensando se teria forças para conseguir. Quando recebi minha primeira nota baixa, falei em desistir. Minha irmã mais nova, Helen, recusou-se a ouvir.

- Você quer ser professora - ela disse. - Se parar, nunca alcançará o seu sonho.

Helen sabia bem o que significava não desistir, pois ela lutava contra a diabetes.

Quando uma das duas desanimava, ela dizia:

- Você vai conseguir. Nós vamos conseguir.

Em 1987, Helen, com apenas vinte e quatro anos, morreu de falência renal relacionada à diabetes. Estava nas minhas mãos conseguir por nós duas.

No dia 8 de maio de 1993 meu sonho se realizou: a formatura. Receber meu diploma universitário e a licença estadual para ensinar me qualificavam oficialmente para ser professora.

Fiz entrevistas em três escolas. Na Escola Primária Coleman Place, a diretora Jeanne Tomlinson disse:

- Seu rosto me parece familiar.

Ela trabalhara em Larrymore mais de dez anos antes. Eu limpava sua sala e ela se lembrou de mim.

Ainda assim eu não tinha propostas concretas. O telefonema veio quando eu acabara de assinar meu décimo oitavo contrato como ajudante de servente. Havia uma vaga para dar aulas para a quinta série em Coleman Place.

Pouco tempo depois que comecei aconteceu algo que trouxe o passado de volta. Eu escrevi uma sentença cheia de erros gramaticais no quadro-negro e pedi aos alunos que viessem até o quadro e a corrigissem.

Uma garota corrigiu até a metade, ficou confusa e parou. Enquanto as outras crianças riam, as lágrimas escorriam nas bochechas dela. Dei-lhe um abraço e disse-lhe para ir tomar um pouco d'água.

Então, lembrando-me da Sra. Cooper, censurei o resto da turma com um olhar firme.

- Estamos todos aqui para aprender - eu disse.

(Charles Slack, como contado para Bessie Pender)

sábado, 22 de agosto de 2009

Ligação profunda - de Susan B. Wilson

Minha mãe e eu temos uma ligação profunda devido à nossa misteriosa habilidade para nos comunicarmos silenciosamente uma com a outra.

Quatorze anos atrás, eu estava morando em Evansville, Indiana, a 1.300 quilômetros de distância da minha mãe, minha confidente e minha melhor amiga.

Uma manhã, enquanto estava num estado silencioso de contemplação, senti subitamente a necessidade urgente de telefonar para mamãe e perguntar se estava tudo bem. A princípio, hesitei.

Já que minha mãe dava aulas para a quarta série primária, telefonar-lhe às 7h 15 min da manhã poderia interromper sua rotina e fazer com que se atrasasse para o trabalho.

Mas algo me compeliu a ir em frente e telefonar. Conversamos durante três minutos e ela me assegurou que estava sã e salva.

Mais tarde, naquele dia, o telefone tocou. Era mamãe, dizendo que meu telefonema matutino provavelmente lhe salvara a vida. Se ela tivesse saído de casa três minutos mais cedo, provavelmente se veria envolvida num acidente interestadual que matara várias pessoas e ferira outras tantas.

Oito anos atrás, descobri que estava grávida de meu primeiro filho. A data prevista para o nascimento era 15 de março. Eu disse ao médico que era cedo demais. A data teria que cair entre 29 de março e 3 de abril, pois era quando minha mãe tinha férias de Páscoa na escola. E é claro que eu a queria comigo. O médico ainda insistiu que a data prevista era em meados de março. Eu apenas sorri. Reid chegou no dia 30 de março. Mamãe chegou no dia 31.

Seis anos atrás, eu estava grávida novamente. O médico falou que a data prevista era para final de março. Eu disse que teria que ser mais cedo desta vez porque - você adivinhou - as férias de mamãe eram no começo de março. Tanto o médico quanto eu sorrimos. Breanne chegou no dia 8 de março.

Dois anos e meio atrás, mamãe estava lutando contra o câncer. Com o tempo, ela perdeu a energia, o apetite, a habilidade de falar. Após um fim de semana com ela na Carolina do Norte, eu tinha que me preparar para voar de volta para o Meio-Oeste. Ajoelhei-me ao lado da cama de mamãe e peguei a mão dela.

- Mamãe, se eu puder, você quer que eu volte?

Seus olhos se arregalaram enquanto ela tentava concordar com a cabeça.

Dois dias depois, recebi um telefonema de meu padastro.

Minha mãe estava morrendo. Membros da família estavam reunidos para os ritos finais. Eles me colocaram no viva-voz para ouvir o serviço religioso.

Naquela noite, tentei ao máximo mandar meu adeus para mamãe através dos quilômetros que nos separavam. Na manhã seguinte, porém, o telefone tocou: mamãe ainda estava viva, mas em coma e esperava-se que morresse a qualquer minuto. Mas ela não morreu. Nem naquele dia, nem no dia seguinte. Nem no outro.

Todas as manhãs eu recebia o mesmo telefonema: ela podia morrer a qualquer minuto. Mas não morria. E todos os dias minha dor e minha tristeza eram expostas.

Depois de quatro semanas, finalmente entendi: mamãe estava me esperando. Ela me comunicara que gostaria que eu voltasse, se pudesse. Eu não tinha podido antes, mas agora podia. Fiz as reservas imediatamente.

Por volta das 17 horas daquela tarde, eu estava deitada na cama com os braços em volta dela. Ela ainda estava em coma, mas eu sussurrei:

- Estou aqui, mamãe. Você já pode ir. Obrigada por esperar. Você já pode ir.

Ela morreu apenas algumas horas depois.

Acho que quando uma ligação é tão profunda e poderosa, vive para sempre em algum lugar muito além das palavras e é de uma beleza indescritível. Com toda a agonia de minha perda, eu não trocaria a beleza e o poder dessa ligação por nada.

(Susan b. Wilson)

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

O vôo dos gansos - de Fred Lloyd Cochran

Ontem observei uma enorme revoada de gansos batendo asas em direção ao sul com um pôr-do-sol panorâmico que coloria todo o céu durante alguns momentos.

Vi-os enquanto me apoiava contra a estátua do leão em frente ao Instituto de Artes de Chicago, onde eu estava observando as pessoas que faziam compras de Natal andando apressadas pela Avenida Michigan. Quando baixei o olhar, percebi que uma mendiga, parada a alguns metros de distância, também estivera observando os gansos. Nossos olhos se encontraram e nós sorrimos - reconhecendo silenciosamente o fato de que havíamos partilhado uma visão magnífica, um símbolo do misterioso esforço de sobrevivência.

Ouvi a senhora falar para si mesma enquanto se afastava desajeitadamente. Suas palavras, "Deus me estraga com mimos", eram espantosas.

Será que a senhora, essa pária das ruas, estaria brincando? Não. Acredito que a visão dos gansos tenha quebrado, mesmo que por um breve momento, a dura realidade de sua própria luta. Percebi mais tarde que momentos como aquele a mantinham viva: era a forma através da qual ela sobrevivia à indignidade das ruas. Seu sorriso era real.

A visão dos gansos era seu presente de Natal. Era a prova de que Deus existia. Era tudo o que ela precisava.

Eu a invejo.

(Fred Lloyd Cochran)

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

O presente de aniversário - de Mavis Burton Ferguson

“Eu tive um sonho de que meus quatro filhos um dia irão viver em uma nação onde não serão julgados pela cor de sua pele, mas sim pelo conteúdo de seu caráter...” (Martin Luther King Jr.)

Uma semana depois de meu filho entrar para a primeira série, ele voltou para casa com a notícia de que Roger, o único menino negro na sala, era seu companheiro de playground. Engoli em seco e disse:

- Que bom. Quanto tempo até que alguém mais também vire seu amigo?
- Ah, eu não vou deixar de ser amigo dele - respondeu Bill. Na outra semana, recebi a notícia de que Bill perguntara se Roger podia ser seu companheiro de carteira.

A não ser que você fosse nascido e criado no interior do sul dos Estados Unidos, como eu fora, não vai entender o que isso significa. Marquei uma reunião com a professora.

Ela foi me encontrar com olhos cínicos e cansados.

- Bem, suponho que a senhora também queira um novo companheiro de carteira para o seu filho - disse. - Será que poderia esperar alguns minutos? Há outra mãe chegando agora.

Virei-me e vi uma mulher da minha idade. Meu coração disparou quando percebi que deveria ser a mãe de Roger. Possuía uma discreta dignidade e muita atitude, mas nenhuma das duas qualidades podia encobrir a ansiedade que ouvi em suas perguntas:

- Como Roger está se saindo? Espero que esteja acompanhando as outras crianças. Se não estiver, me avise.

Ela hesitou enquanto forçava-se a perguntar:

- Ele está criando qualquer tipo de problema? Quero dizer, por que ele tem que trocar tanto de carteira?

Percebi a terrível tensão que estava sentindo, pois ela sabia a resposta. Mas fiquei orgulhosa da resposta gentil daquela professora primária:

- Não, Roger não está causando problemas. Tento mudar todas as crianças de lugar durante as primeiras semanas até que encontrem o parceiro certo.

Eu me apresentei e disse que meu filho deveria ser o novo companheiro de Roger e que eu esperava que gostassem um do outro. Mesmo então eu sabia que era apenas um desejo superficial, não um desejo profundo. Mas isso a ajudou, eu pude ver. Duas vezes Roger convidou Bill para ir até sua casa, mas eu encontrei desculpas. Então veio o arrependimento que sentirei para sempre.

No dia do meu aniversário, Bill voltou da escola com um pedaço encardido de papel dobrado em um quadradinho minúsculo. Desdobrando-o, encontrei três flores e "Feliz Aniversário" desenhados com lápis-cera no papel - e um centavo.

- Foi o Roger que mandou - disse Bill. - É o dinheiro do leite. Quando eu disse que hoje era o seu aniversário, ele me fez trazer isso para você. Disse que você é amiga dele, porque foi a única mãe que não o obrigou a mudar de companheiro de carteira.

(Mavis Burton Ferguson)

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Eu me pergunto por que as coisas são como são - de Christer Carter Koski

Durante meu primeiro ano no segundo grau, o Sr. Reynolds, meu professor de Inglês, entregou a cada aluno uma lista de pensamentos e declarações escrita por outros alunos e, em seguida, nos passou um dever de redação baseado num daqueles pensamentos. Com dezessete anos, eu estava começando a pensar a respeito de muitas coisas, por isso escolhi a declaração: "Eu me pergunto por que as coisas são como são."
Naquela noite, escrevi, em formato de narrativa, todas as perguntas que me deixavam confusa acerca da vida. Percebi que muitas delas eram difíceis de responder e que talvez outras não pudessem ser respondidas de forma alguma. Quando entreguei o trabalho, estava com medo de me sair mal porque não tinha dado uma resposta à questão "Eu me pergunto por que as coisas são como são". Eu não tinha resposta. Só tinha escrito perguntas.
No dia seguinte, o Sr. Reynolds me chamou junto ao quadro-negro e pediu que eu lesse minha declaração para os outros alunos. Entregou-me o trabalho e sentou-se no fundo da sala. A turma ficou em silêncio quando comecei a ler:
"Mamãe, papai... por quê?
Mamãe, por que as rosas são vermelhas? Mamãe, por que a grama é verde e o céu é azul. Por que a aranha tem uma teia e não uma casa? Papai, por que eu não posso brincar com sua caixa de ferramentas? Professor, por que eu tenho que ler?
Mamãe, por que não posso usar batom para ir ao baile? Papai, por que não posso ficar na rua até meia-noite? Os outros garotos ficam. Mamãe, por que você me odeia?
Papai, por que as outras crianças não gostam de mim? Por que tenho que ser tão magra? Por que tenho que usar óculos e aparelho nos dentes? Por que tenho que ter dezesseis anos?
Mamãe, por que tenho que me formar? Papai, por que tenho que crescer? Mamãe, papai, por que tenho que ir embora? Mamãe, por que você não escreve com mais freqüência?
Papai, por que tenho saudades dos meus velhos amigos? Papai, por que você me ama tanto? Papai, por que você me mima? Sua garotinha está crescendo. Mamãe, por que você não me visita? Mamãe, por que é tão difícil fazer novos amigos? Papai, por que tenho saudades de casa?
Papai, por que meu coração dispara quando ele olha nos meus olhos? Mamãe, por que minhas pernas tremem quando eu ouço a voz dele? Mamãe, por que estar apaixonada é a melhor sensação do mundo"?
Papai, por que você não gosta de ser chamado de "vovô"? Mamãe, por que os dedinhos do meu bebê se agarram com tanta força aos meus?
Mamãe, por que eles têm que crescer? Papai, por que eles têm que ir embora? Por que eu tenho que ser chamada de "vovó"? Mamãe, papai, por que vocês tiveram que me deixar? Eu preciso de vocês.
Por que a minha juventude passou por mim? Por que meu rasto mostra todos os sorrisos que eu já dei a um amigo ou a um estranho? Por que meu cabelo brilha com um tom prateado? Por que minhas mãos tremem guando me abaixo para pegar uma flor? Por que, Deus, as rosas são vermelhas?"
Quando terminei minha história, meus olhos se encontraram com os olhos do Sr. Reynolds e eu vi uma lágrima correndo lentamente no seu rosto. Foi então que percebi que a vida nem sempre é baseada nas respostas que recebemos, mas também nas perguntas que fazemos.

(Christer Carter Koski)

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Andando de trenó - de Robin L. Silverman

Um dia, no começo de dezembro, acordamos para descobrir uma neve perfeita, recém caída.

- Por favor, mamãe, podemos andar de trenó antes do café da manhã? - implorou minha filha Erica, de onze anos de idade.

Quem poderia resistir? Então vestimos os casacos e nos dirigimos para a represa no campo de golfe de Lincoln Park, o único morro em nossa cidade.

Quando chegamos, o morro estava formigando de gente. Achamos um espaço perto de um homem alto e magro e de seu filho de três anos. O garoto já estava deitado de barriga para baixo, esperando para ser empurrado.

- Vamos lá, papai! Vamos lá!
- Por favor - eu disse. - Parece que seu filho já está pronto para ir.

Dito isto, ele deu um forte empurrão e lá se foi o menino! Mas não foi apenas o garoto que voou - o pai saiu correndo atrás dele a toda velocidade.

- Ele deve estar com medo que seu filho se choque contra alguém - eu disse para Erica. - É melhor nós também tomarmos cuidado.

Assim, lançamos nosso próprio trenó e descemos o morro zunindo, em grande velocidade, a neve solta voando em nossos rostos. Tivemos que nos arremessar para não batermos em uma grande pedra perto do rio e acabamos deitadas de costas, rindo.

- Ótima corrida! - eu disse.
- Mas temos que andar muito para voltar! - observou Erica. Com certeza, era uma longa caminhada. Enquanto lutávamos para chegar ao topo, percebi que o homem magro estava empurrando seu filho, que ainda se encontrava no trenó, de volta ao topo.

- Isso é que é serviço! - disse Erica. - Será que você faria o mesmo por mim?

Eu já estava sem ar.

- Nem pensar, garota! Continue andando!

Quando finalmente chegamos ao topo, o garotinho estava pronto para brincar novamente. - Vai, vai, vai, papai! - ele gritou.

Mais uma vez o pai reuniu todas as suas energias para dar um grande empurrão no trenó, correu atrás dele morro abaixo e então puxou o trenó e o menino de volta para cima.

Isso se repetiu por mais de uma hora. Mesmo com Erica andando sozinha, eu estava exausta. A essa altura, a multidão no morro havia diminuído, pois as pessoas voltavam para casa para almoçar. Finalmente, restavam apenas o homem e seu filho, Erica e eu e um punhado de outras pessoas.

"Ele não pode continuar achando que o menino vai colidir com alguém. E, com certeza, apesar de ser um menino pequeno, ele poderia puxar seu próprio trenó morro acima de vez em quando" - pensei. Mas o homem nunca se cansava e seu comportamento era alegre e jovial.

Finalmente, não agüentei mais. Olhei de cima do morro para ele e gritei:

- Você tem uma tremenda energia! O homem olhou para mim e sorriu.
- Ele tem paralisia cerebral - ele disse de forma natural. Não pode andar.

Fiquei atônita. Então percebi que não havia visto o menino descer do trenó durante todo o tempo que estivéramos no morro. Tudo parecia tão alegre, tão normal, que não me ocorrera que o menino poderia ser deficiente.

Ainda que eu não soubesse o nome do homem, contei a história em minha coluna no jornal na semana seguinte. Ele, ou alguém que o conhecia, deve ter reconhecido a história, pois, pouco tempo depois, recebi esta carta:

"Cara Sra. Silverman,
A energia que gastei no morro naquele dia não é nada comparada ao que o meu filho faz todos os dias. Para mim, ele é um verdadeiro herói e algum dia espero ser metade do homem que ele já se tornou. "

(Robin l. Silverman)

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Palavras do coração - de Bobbie Lippman

“As lágrimas mais amargas derramadas sobre os túmulos são por palavras não ditas e atos não realizados.” (Harriet Beecher Stowe)

A maioria das pessoas precisa ouvir alguém dizer "eu te amo". E há vezes em que ouve bem a tempo.

Conheci Connie no dia em que foi admitida na ala do sanatório onde eu trabalhava como voluntária. Seu marido, Bill, ficou por perto, nervoso, enquanto ela era transferida da maca para o leito de hospital. Ainda que Connie estivesse no estágio final de sua luta contra o câncer, estava alerta e animada. Nós a acomodamos. Terminei de marcar seu nome em todos os suprimentos de hospital que ela usaria e perguntei se precisava de alguma coisa.

- Oh, sim - disse -, será que você poderia me mostrar como usar a televisão? Gosto tanto de novelas, que não quero perder o que está acontecendo.

Connie era uma romântica. Adorava novelas de TV histórias românticas e filmes com uma boa história de amor.
Conforme fomos nos conhecendo, ela me confidenciou o quanto era frustrante ser casada há trinta e dois anos com um homem que freqüentemente a chamava de "boba".

- Ah, eu sei que o Bill me ama - disse -, mas ele nunca foi capaz de me dizer que me ama, ou de mandar cartões.

Suspirou e olhou através da janela para as árvores no jardim.

- Faria qualquer coisa para ele falar "Eu te amo", mas simplesmente não é do seu
feitio.

Bill visitava Connie todos os dias. No começo, sentava-se ao lado da cama enquanto ela assistia às novelas. Depois, quando ela começou a dormir mais, ele andava de um lado para o outro no corredor do lado de fora do quarto. Logo, quando ela não via mais televisão e passava períodos menores acordada, comecei a passar a maior parte do meu tempo como voluntária com Bill.

Ele falava de quando trabalhava como carpinteiro e de como gostava de pescar. Ele e Connie não tinham filhos, mas aproveitavam a aposentadoria viajando, até que Connie ficou doente. Bill não conseguia expressar o que sentia sobre o fato de sua esposa estar morrendo.

Um dia, depois de tomar café na lanchonete, puxei uma conversa com ele a respeito de mulheres e de como precisamos de romance em nossas vidas, como adoramos receber cartões sentimentais e cartas de amor.

- Você diz a Connie que a ama? - perguntei (sabendo a resposta), e ele me olhou como se eu fosse louca.
- Não preciso - disse. - Ela sabe que a amo!
- Tenho certeza de que ela sabe - falei inclinando-me e tocando suas mãos ásperas de carpinteiro que seguravam a xícara como se fosse a única coisa à qual ele pudesse se agarrar. Mas ela precisa ouvir, Bill. Ela precisa ouvir o que significou para você durante todos esses anos. Por favor, pense nisso.

Voltamos para o quarto de Connie. Bill desapareceu lá dentro e eu fui visitar outro paciente. Mais tarde, vi Bill sentado ao lado da cama. Ele segurava a mão de Connie enquanto ela dormia. Era o dia 12 de fevereiro.

Dois dias depois eu estava andando pela ala do sanatório ao meio-dia. Lá estava Bill, apoiado contra a parede do corredor, olhando para o chão. Eu já soubera, através da enfermeira-chefe, que Connie morrera às 11 horas.

Quando Bill me viu, permitiu que eu o abraçasse por um longo tempo. Seu rosto estava molhado de lágrimas e ele estava tremendo. Finalmente encostou-se de novo na parede e respirou fundo.

- Tenho que dizer algo - falou. - Tenho que dizer como me sinto bem por ter dito a ela. - Ele parou para assoar o nariz. Pensei muito a respeito do que você me disse e, essa manhã, falei para ela o quanto a amava e como era maravilhoso estar casado com ela.

Você deveria ter visto seu sorriso!

Entrei no quarto para me despedir pessoalmente de Connie. Lá, na mesa-de-cabeceira, estava um grande cartão de Dia dos Namorados que Bill lhe dera. Você sabe, do tipo sentimental, que diz:

"Para minha esposa maravilhosa...
Eu te amo."

(Bobbie Lippman)

domingo, 16 de agosto de 2009

A Gardênia Branca - de Marsha Arons

Todos os anos, no dia do meu aniversário, desde que completei doze anos, uma gardênia branca me era entregue anonimamente em casa. Não havia nunca um cartão ou um bilhete e os telefonemas para o florista eram em vão, pois a compra era sempre feita em dinheiro vivo. Depois de algum tempo, parei de tentar descobrir a identidade do remetente. Apenas me deleitava com a beleza e o perfume estonteante daquela única flor, mágica e perfeita, aninhada em camadas de papel de seda cor-de-rosa.

Porém nunca parei de imaginar quem poderia ser o remetente. Alguns de meus momentos mais felizes eram passados sonhando acordada com alguém maravilhoso e excitante, mas tímido ou excêntrico demais para revelar sua identidade. Durante a adolescência foi divertido especular que o remetente seria um garoto por quem eu estivesse apaixonada, ou mesmo alguém que eu não conhecia e que havia me notado.

Minha mãe freqüentemente alimentava as minhas especulações. Ela me perguntava se havia alguém a quem eu tivesse feito uma gentileza especial e que poderia estar demonstrando anonimamente seu apreço. Fez com que eu lembrasse das vezes em que estava andando de bicicleta e nossa vizinha chegara com o carro cheio de compras e crianças. Eu sempre a ajudava a descarregar o carro e cuidava que as crianças não corressem para a rua. Ou talvez o misterioso remetente fosse o senhor que morava do outro lado da rua. No inverno, muitas vezes eu lhe levava sua correspondência para que ele não tivesse que se aventurar nos degraus escorregadios.

Minha mãe fez o que pôde para estimular minha imaginação a respeito da gardênia.

Ela queria que seus filhos fossem criativos.

Também queria que nos sentíssemos amados e queridos, não apenas por ela, mas pelo mundo como um todo.

Quando estava com dezessete anos, um rapaz partiu meu coração. Na noite em que me ligou pela última vez, chorei até pegar no sono. Quando acordei de manhã havia uma mensagem escrita com batom vermelho no meu espelho: "Alegre-se, quando semideuses se vão, os deuses vêm." Pensei a respeito daquela citação de Emerson durante muito tempo e a deixei onde minha mãe a havia escrito até meu coração sarar. Quando finalmente fui buscar o limpa-vidros, minha mãe soube que estava tudo bem novamente.

Mas houve certas feridas que minha mãe não pôde curar.

Um mês antes de minha formatura no segundo grau, meu pai morreu subitamente de enfarte. Meus sentimentos variavam de dor a abandono, medo, desconfiança e raiva avassaladora por meu pai estar perdendo alguns dos acontecimentos mais importantes da minha vida. Perdi totalmente o interesse em minha formatura que se aproximava, na peça de teatro da turma dos formandos e no baile de formatura – eventos para os quais eu havia trabalhado e que esperava com ansiedade. Pensei até mesmo em entrar em uma faculdade local, ao invés de ir para outro estado como havia planejado, pois me sentiria mais segura.

Minha mãe, em meio à sua própria dor, não queria de forma alguma que eu faltasse a nenhuma dessas coisas. Um dia antes de meu pai morrer, eu e ela tínhamos ido comprar um vestido para o baile e havíamos encontrado um, espetacular - metros e metros de musselina estampada em vermelho, branco e azul. Ao experimentá-lo, me senti como Scarlett O'Hara em O Vento Levou... Mas não era do tamanho certo e, quando meu pai morreu no dia seguinte, esqueci totalmente do vestido.

Minha mãe, não. Na véspera do baile, encontrei o vestido esperando por mim - no tamanho certo. Estava estendido majestosamente sobre o sofá da sala, apresentado para mim de maneira artística e amorosa. Eu podia não me importar em ter um vestido novo, mas minha mãe se importava.

Ela estava atenta à imagem que seus filhos tinham de si mesmos.

Imbuiu-nos com uma sensação de mágica do mundo e nos deu a habilidade de ver a beleza mesmo em meio à adversidade.
Na verdade, minha mãe queria que seus filhos se vissem como a gardênia - graciosos, fortes, perfeitos, com uma aura de mágica e talvez um pouco de mistério.

Minha mãe morreu quando eu estava com vinte e dois anos, apenas dez dias depois de meu casamento. Este foi o ano em que parei de receber gardênias.

(Martha Arons)

sábado, 15 de agosto de 2009

Presentes do coração - de Sheryl Nicholson

“O amor que damos é o único amor que guardamos.” (Elbert Hubbard)

Neste mundo agitado em que vivemos é tão mais fácil pagar alguma coisa com
cartão de crédito do que dar um presente vindo do coração.
E presentes do coração são especialmente necessários na época de Natal.
Há alguns anos, comecei a preparar meus filhos para o fato de que o Natal daquele ano seria modesto. A resposta deles foi: "Tá, mãe, já ouvimos isso antes!" Eu havia perdido a credibilidade porque dissera a mesma coisa a eles no ano anterior, quando estava passando pelo divórcio. Mas daquela vez eu saíra e usara o limite de todos os cartões de crédito. Havia encontrado até mesmo algumas formas de financiamento criativas para pagar os presentes de Natal. Este ano, com certeza, seria diferente, mas eles não estavam acreditando.
Uma semana antes do Natal, perguntei a mim mesma: "O que eu tenho que pode tornar este Natal especial?" Em todas as casas em que havíamos morado antes do divórcio eu tinha arrumado tempo para ser decoradora. Tinha aprendido a colocar papel de parede, azulejos e placas de madeira, fazer cortinas a partir de lençóis e muito mais. Mas nesta casa alugada eu tinha pouco tempo para decorar e muito menos dinheiro. Além do mais, estava zangada com esse lugar feio, com seus carpetes vermelhos e abóbora e paredes verdes e azul-turquesa. Recusava-me a gastar dinheiro com ele. Dentro de mim a voz do orgulho ferido gritava: "Nós não vamos ficar aqui tanto tempo assim!"
Ninguém mais parecia se incomodar com a casa a não ser minha filha Lisa, que sempre havia tentado transformar seu quarto em seu lugar especial.
Era hora de mostrar meus talentos. Liguei para meu ex-marido e pedi que comprasse uma colcha específica para a cama de Lisa. Em seguida, comprei os lençóis combinando. Na véspera de Natal, gastei quinze dólares com um galão de tinta. Também comprei papel de carta, o mais bonito que jamais tinha visto. Meu objetivo era simples: iria pintar e costurar e me manter ocupada até a manhã de Natal, para não ter tempo de sentir pena de mim mesma em um feriado familiar tão especial.
Naquela noite, dei a cada uma das crianças três folhas de papel de carta com envelopes. No alto de cada página estavam as palavras: "O que eu amo a respeito de minha irmã Mia", "O que eu amo a respeito de meu irmão Kris", "O que eu amo a respeito de minha irmã Lisa", "O que eu amo a respeito de meu irmão Erik". As crianças estavam com idades entre oito e dezesseis anos e tive que convencê-las de que bastava encontrar uma coisa só de que gostassem a respeito uns dos outros. Enquanto escreviam cada uma no seu canto, fui para o meu quarto e embrulhei os poucos presentes que havia comprado.
Quando voltei para a cozinha, meus filhos haviam terminado suas cartas uns para os outros. Cada nome estava escrito do lado de fora do envelope. Trocamos abraços e beijos de boa-noite e eles foram para a cama. Lisa recebeu permissão especial para dormir na minha cama, prometendo não espiar até a manhã de Natal.
Então comecei. Nas primeiras horas da manhã de Natal terminei as cortinas, pintei as paredes e dei um passo atrás para admirar minha obra-prima. "Espere, por que não colocar um arco-íris e nuvens nas paredes para combinar com os lençóis?" Aí entraram em ação minhas esponjas e pincéis de maquiagem e, às 5 horas da manhã, eu havia terminado. Exausta demais para pensar que o meu era "um lar desfeito", como diziam as estatísticas, fui para o quarto e encontrei Lisa esparramada na minha cama. Decidi que não podia dormir com braços e pernas em cima de mim, então levantei-a delicadamente e levei-a, pé ante pé, até seu quarto. Enquanto colocava sua cabeça no travesseiro, ela disse:
- Mamãe, já é de manhã?
- Não, querida, fique de olhos fechados até o Papai Noel chegar.
Acordei naquela manhã com um alegre sussurro no meu ouvido.
- Uau, mamãe, é lindo!
Mais tarde, todos nós levantamos e sentamos em volta da árvore e abrimos os poucos presentes que eu havia comprado. Depois, as crianças receberam seus três envelopes.
Lemos as palavras com os olhos marejados e os narizes vermelhos. Até chegarmos aos bilhetes para o "bebê da família". Erik, com oito anos, não esperava ouvir nada de bom. Seu irmão havia escrito: O que eu gosto do meu irmão Erik é que ele não tem medo de nada." Mia havia escrito: "O que eu gosto do meu irmão Erik é que ele consegue falar com qualquer pessoa!" Lisa havia escrito: "O que eu gosto do meu irmão Erik é que ele pode subir em árvores mais alto do que qualquer um!"
Senti um leve puxão na manga da camisa, uma mãozinha fez uma concha em volta da minha orelha e Erik sussurrou:
- Puxa, mamãe, eu nem sabia que eles gostavam de mim! Nos piores momentos, a criatividade e o engenho nos deram o melhor momento. Hoje estou recuperada financeiramente e já tivemos vários Natais "grandes", com muitos presentes embaixo da árvore. Mas quando nos perguntam qual é o nosso Natal favorito, todos nos lembramos daquele.
(Sheryl Nicholson)

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

O balão de Benny – de Michael Cody

Benny tinha setenta anos quando morreu subitamente de câncer, em Wilmette, Illinois. Como sua neta de dez anos, Rachel, nunca teve a oportunidade de dizer adeus, ela chorou durante vários dias. Mas depois de receber um grande balão vermelho em uma festa de aniversário, voltou para casa com uma idéia - uma carta para o vovô Benny, enviada para o céu em seu balão.
A mãe de Rachel não teve coragem de dizer não e observou com lágrimas nos olhos o frágil balão subir por entre as árvores que cercavam o jardim e desaparecer.
Dois meses depois, Rachel recebeu esta carta com carimbo do correio de uma cidade a 900 quilômetros de distância, na Pensilvânia:
"Querida Rachel,
Vovô Benny recebeu a sua carta. Ele realmente a adorou. Por favor, entenda que coisas materiais não podem ficar no céu, por isso tiveram que mandar o balão de volta para a Terra - eles só guardam os pensamentos, as lembranças, o amor e coisas desse tipo no céu.
Rachel, sempre que você pensar no vovô Benny, ele saberá e estará muito perto, com um amor enorme por você.
Sinceramente, Bob Anderson (também um vovô)."
(Michael Cody)

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

O quanto progredimos - de Pat Bonney Sheperd

“As mulheres são como saquinhos de chá: não se sabe sua força até serem jogadas em água quente.” (Eleanor Roosevelt)
Em 1996, a maioria de nós, mulheres, está solidamente engajada em formar grupos de apoio e ajudar umas às outras da mesma forma que os homens têm feito há décadas - uma situação muito mais amigável para as mulheres do que era há cinqüenta anos. Sempre que fico complacente a esse respeito, penso em minha mãe - e imagino se eu teria sobrevivido ao que ela passou na época.
Por volta de 1946, quando minha mãe, Mary Silver, já estava casada com Walter Johnson por quase sete anos, ela era mãe de quatro crianças ativas e barulhentas.
Sei pouca coisa a respeito da vida dos meus pais nesta época, mas, tendo eu mesma criado duas crianças em alguns lugares remotos do país, posso imaginar como foi, especialmente para minha mãe. Com quatro crianças pequenas, um marido cujo senso de obrigação ia até trazer dinheiro para casa e cortar o gramado, sem vizinhos e praticamente nenhuma oportunidade de fazer amigos próprios, ela literalmente não tinha onde dar vazão às grandes pressões que deveriam se acumular dentro dela. Por algum motivo, meu pai decidiu que ela estava "se perdendo". É um mistério para mim imaginar como ela poderia ter conseguido tempo e alguém para encontrar, quanto mais para "se perder", já que nós quatro estávamos constantemente no meio do caminho. Mas meu pai já decidira, e ponto final.
Numa manhã de um dia de primavera em 1946, minha mãe saiu de casa para comprar leite para o bebê. Quando voltou, meu pai estava na janela do andar de cima com um revólver. Ele disse:
- Mary, se você tentar entrar nesta casa, vou atirar nos seus filhos.
Foi assim que ele lhe disse que estava entrando com um pedido de divórcio.
Foi a última vez que minha mãe viu aquela casa. Foi forçada a ir embora apenas com a roupa do corpo e o dinheiro que tinha na bolsa - e uma garrafa de leite. Hoje em dia, ela provavelmente teria opções: um abrigo local, um 0800 para o qual pudesse telefonar, um grupo de amigas que teria feito através de um emprego de meio expediente ou de tempo integral. Teria um talão de cheques e cartões de crédito no bolso. E poderia voltar sem constrangimento para sua família. Porém, em 1946, ela não tinha nada disso. As pessoas casadas simplesmente não se divorciavam.
Portanto, lá estava ela - completamente sozinha. Meu pai conseguiu até virar o pai dela contra ela. Agora meu avô proibira minha avó de falar com sua filha quando ela mais precisava.
Em algum momento antes de entrar com o processo no tribunal, meu pai a contatou e disse:
- Olhe, Mary, eu não quero realmente um divórcio. Só fiz isso para lhe ensinar uma lição.
Mas minha mãe podia ver que, por pior que fosse sua situação, era preferível a voltar para meu pai e deixar que ele nos criasse. Então respondeu:
- Nem pensar. Cheguei até aqui, não vou voltar atrás.
Para onde ela poderia ir? Não podia ir para casa. Não podia permanecer ali em Amherst: em primeiro lugar, porque sabia que ninguém a hospedaria; em segundo, porque, com o retorno dos recrutas, não haveria esperança de trabalho para ela; e, finalmente e mais importante, porque meu pai estava lá. Então embarcou em um ônibus para o único lugar que reservava uma chance para ela - a cidade de Nova York.
Minha mãe tinha uma vantagem: era letrada e tinha um diploma de Matemática, da Universidade Mt. Hollyoke. Porém, fizera o caminho habitual das mulheres nos anos 30 e 40: fora diretamente do segundo grau para a faculdade e daí para o casamento. Ela não fazia idéia de como arrumar um emprego e sustentar a si mesma.
A cidade de Nova York tinha várias coisas a seu favor: ficava a apenas 320 quilômetros; portanto, podia pagar a passagem de ônibus. E era uma cidade grande; portanto, tinha que haver um emprego escondido em algum lugar. Ela positivamente tinha que encontrar uma maneira de sustentar a nós quatro. Assim que chegou a Nova York, localizou uma Associação Cristã de Moços, onde podia ficar por apenas um dólar e meio por noite. Havia uma loja perto, onde, por cerca de um dólar por dia, comia sanduíches de salada de ovo e café. Em seguida, começou a correr as ruas.
Durante vários dias, que se tornaram várias semanas, não encontrou nada: não havia empregos para diplomados em Matemática, homens ou mulheres, nenhum trabalho para mulheres. Todas as noites ela voltava para a Associação, lavava a roupa de baixo e a blusa branca, colocava-as para secar e de manhã usava o ferro e a tábua de passar da Associação para tirar as marcas da blusa. Esses itens, junto com uma saia de flanela cinza, constituíam todo o seu guarda-roupa. Cuidar deles ocupava uma parte das longas noites que enfrentava sozinha na Associação. Sem livros, nem uma moedinha a mais para comprar jornal, sem telefone (e ninguém para quem ligar, se tivesse um) e sem rádio, a não ser no andar de baixo (onde a lista dos convidados da Associação era de certa forma assustadora), as noites devem ter sido realmente horríveis.
Previsivelmente, seu dinheiro minguou, assim como a lista de agências de emprego. Finalmente, em uma quinta-feira, chegou a vez da última agência de empregos da cidade, com menos no bolso do que precisava para pagar o abrigo naquela noite. Ela fez muito esforço para não pensar em passar a noite nas ruas.
Subiu penosamente vários lances de escada para chegar à agência, preencheu os formulários obrigatórios e, quando chegou sua vez de ser entrevistada, preparou-se para as más notícias. "Sentimos muito, mas não temos nada para a senhora. Quase não temos empregos suficientes para os homens que temos que colocar." Pois é claro que os homens tinham prioridade em relação a qualquer emprego disponível.
Minha mãe não sentiu nada quando se levantou da cadeira e se dirigiu para a porta. Entorpecida como estava, havia quase atravessado a porta quando percebeu que a mulher resmungara alguma outra coisa.
- Desculpe, não ouvi. O que a senhora disse? - perguntou. - Bem, sempre há George B. Buck, mas ninguém quer esse emprego. Ninguém fica muito tempo - a mulher repetiu, apontando com a cabeça para uma caixa de fichas em cima de um arquivo próximo.
- O que é? Conte-me a respeito - disse minha mãe ansiosamente, sentando-se com as costas apoiadas no encosto da cadeira de madeira. - Faço qualquer coisa.
Quando começo? Bem, é um emprego de contador, para o qual a senhora está qualificada, mas o salário não é bom e tenho certeza de que não gostaria - disse a agente, retirando a ficha relevante do fichário. Vamos ver, diz aqui que a senhora pode começar quando quiser. Suponho que isto signifique que poderá ir lá agora. Ainda é cedo.
Minha mãe contou que literalmente arrancou o cartão das mãos da agente e correu escada abaixo. Nem mesmo parou para tomar fôlego enquanto corria os vários quarteirões até o endereço escrito no cartão. Quando se apresentou para o surpreso gerente de pessoal, ele decidiu que, sem dúvida, ela podia começar a trabalhar naquela manhã mesmo se quisesse, pois havia muito trabalho a ser feito. E era quinta-feira, dia de pagamento. Naquele tempo, a maioria das empresas pagava seus empregados em dinheiro vivo pelo tempo trabalhado, incluindo o próprio dia de pagamento - portanto, miraculosamente, quando eram cinco horas, ela recebeu dinheiro vivo pelas cinco horas que trabalhara naquele dia. Não era muito, mas deu para que ela chegasse até a quinta-feira seguinte, depois à outra e assim por diante.
Mary Silver Johnson permaneceu em George B. Buck & Companhia por 38 anos, subindo para um cargo de grande respeito dentro da firma. Lembro-me de que ela tinha um escritório de esquina - o que não é pouca coisa no centro de Manhattan.
Depois de trabalhar lá por dez anos, ela foi capaz de nos comprar uma casa no subúrbio de Nova Jersey, a meia quadra de distância do ônibus para a cidade.
Hoje em dia, uma em cada duas casas parece ser comandada por uma mãe solteira e é fácil esquecer que já houve um tempo em que este tipo de vida era impensável.
Sinto-me tão humilde ao refletir sobre as realizações de minha mãe quanto orgulhosa o suficiente para estourar os botões da camisa! Se cheguei até aqui, meu bem, foi porque fui carregada em grande parte pelos esforços de muitas, muitas outras mulheres antes de mim - com esta mulher admirável, minha mãe, liderando o caminho.
(Pat Bonney Sheperd)

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

O poder do perdão - de Chris Carrier

“Se você for paciente em um momento de raiva, irá escapar de cem anos de arrependimento.” (Provérbio chinês)
Em 1974, voltando da escola para casa no último dia antes das férias de Natal, eu pensava animadamente sobre o feriado vindouro, como só os meninos de dez anos conseguem sonhar. A algumas portas de distância de minha casa. em Coral Gables, Flórida, um homem se aproximou de mim e perguntou se eu poderia ajudá-lo com a decoração de uma festa que ele estava dando para meu pai. Achando que era amigo de meu pai, concordei em ir com ele.
O que eu não sabia era que este homem tinha ressentimentos contra a minha família. Trabalhara como enfermeiro para um parente idoso, mas fora despedido por causa da bebida.
Após eu ter concordado em acompanhá-lo, ele dirigiu seu trailer até uma área isolada ao norte de Miami, onde parou no acostamento da estrada e me golpeou várias vezes no peito com um furador de gelo. Então dirigiu para oeste, até Florida Everglades, levou-me até o meio dos arbustos, deu um tiro em minha cabeça e me deixou lá para morrer.
Felizmente a bala havia passado por trás de meus olhos e saído pela minha têmpora esquerda sem causar nenhum dano cerebral. Quando recobrei a consciência, seis dias depois, não tinha noção de que havia sido atingido por um tiro. Fiquei sentado no acostamento e fui encontrado por um homem que parou para me ajudar.
Duas semanas depois descrevi a pessoa que me atacara para o desenhista da polícia e meu tio reconheceu o retrato resultante como o homem que me atacara.
Meu agressor foi preso, junto com outros suspeitos. Entretanto, o trauma e o estresse haviam cobrado seu preço e não pude identificá-lo. Infelizmente a polícia não conseguiu recolher nenhuma prova física que o ligasse ao crime. Portanto, ele nunca foi acusado.
O ataque me deixou cego do olho esquerdo, mas não causou nenhum outro dano e, com o amor e o apoio de minha família e amigos, voltei para a escola e dei continuidade à minha vida.
Durante os três anos seguintes, vivi com uma extrema ansiedade. A maioria das noites eu acordava assustado, imaginando que havia escutado alguém entrando pela porta dos fundos e acabava dormindo no pé da cama de meus pais.
Então, quando eu estava com treze anos, tudo isso mudou. Uma noite, durante um estudo da Bíblia com o grupo jovem da igreja, percebi que a providência e o amor de Deus, tendo miraculosamente me mantido vivo, eram a base para a segurança de minha vida. Em Suas mãos eu podia viver sem medo ou rancor. E então eu o fiz. Terminei os estudos, recebendo o diploma de mestrado em Divindade.
Casei-me com minha maravilhosa esposa, Leslie. Temos duas filhinhas maravilhosas, Amanda e Melodee. Em setembro de 1996, o major Charles Scherer, do Departamento de Polícia de Coral Gables, que trabalhara na investigação original de meu caso, telefonou-me para me contar que o agressor, hoje com setenta e sete anos de idade, finalmente confessara. Cego por causa do glaucoma, com a saúde abalada, sem família ou amigos, ele estava em um asilo no norte de Miami Beach.
Fui visitá-lo. A primeira vez em que fui visitá-lo ele se desculpou pelo que havia feito a mim e eu lhe disse que o havia perdoado. Visitei-o muitas vezes depois disso, apresentando-o à minha esposa e filhas, oferecendo-lhe esperança e uma certa sensação de família nos dias anteriores à sua morte. Ele sempre ficava feliz quando eu aparecia. Acredito que nossa amizade tenha diminuído sua solidão e era um grande alívio para ele, após vinte e dois anos de arrependimento.
Sei que o mundo pode me ver como a vítima de uma horrível tragédia, mas eu me considero a "vítima" de muitos milagres. O fato de eu estar vivo e não ter nenhuma deficiência mental desafia as probabilidades.
Tenho uma esposa amorosa e uma família linda. Recebi tantas dádivas quanto qualquer outra pessoa - e amplas oportunidades. Fui abençoado de várias maneiras.
E enquanto muitas pessoas não conseguem entender como pude perdoá-lo, do meu ponto de vista eu não poderia deixar de fazê-lo. Se eu tivesse escolhido odiá-lo todos esses anos, ou passar a vida procurando vingança, então eu não seria o homem que sou hoje - o homem que minha mulher e filhas amam.
(Chris Carrier, entregue por Katy McNamara)

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Uma história sobre a formação de nuvens - de Joyce A. Harvey

Tinha sido outra longa semana coordenando sessões de treinamento através do país. Geralmente gosto de relaxar no vôo para casa, ler alguma coisa fácil, talvez até mesmo fechar os olhos por alguns minutos. Entretanto, tento ficar aberta para o que quer que aconteça. Normalmente faço uma pequena prece: "Quem quer que se sente a meu lado, deixe que aconteça e ajude-me a estar aberta para isto."
Neste dia em particular, embarquei no avião e notei um garoto pequeno, com cerca de oito anos de idade, sentado na cadeira da janela ao meu lado. Adoro crianças.
No entanto, estava cansada. Meu primeiro instinto foi: "Ah, meu Deus, não tenho certeza se isso vai ser bom." Tentando ser o mais amigável possível, eu disse "Oi" e me apresentei. Ele me falou que seu nome era Bradley. Começamos a conversar e, em alguns minutos, ele me confidenciou:
- É a primeira vez que ando de avião. Estou um pouco nervoso.

Contou-me que ele e sua família visitaram seus primos e que acabou ficando mais algum tempo depois que sua família voltara para casa. Agora estava voando para casa sozinho.
- Voar é muito fácil - tentei lhe assegurar - É uma das coisas mais fáceis que você irá fazer na vida. - Fiz uma pausa, pensando por um momento, e então lhe perguntei:
- Você já andou de montanha-russa?
- Adoro montanhas-russas!
- Você anda sem se segurar com as mãos?
- Claro, eu adoro - ele riu. Agi como se estivesse horrorizada. - Alguma vez você já andou na frente? - perguntei, fazendo cara de medo.
- Sim, tento pegar o assento da frente todas as vezes! - E você não tem medo disso?
Ele fez que não com a cabeça, sentindo claramente que tinha uma vantagem sobre mim.
- Bem, este vôo não vai ser nada comparado com isso. Eu nem ando em montanha-russa e não tenho o menor medo de voar. Um sorriso abriu caminho em seu rosto.
- Verdade?
Eu podia ver que ele estava começando a achar que talvez fosse corajoso afinal de contas.
O avião começou a taxiar pela pista. Quando decolamos, ele olhou pela janela e começou a descrever com muita animação tudo o que estava acontecendo.
Comentou sobre a
formação das nuvens e sobre as figuras que pareciam pintar no céu.
- Essa nuvem parece uma borboleta e aquela, um cavalo! De repente, vi aquele vôo através dos olhos de um menino de oito anos. Era como se fosse a primeira vez que voava. Mais tarde, Bradley me perguntou o que eu fazia. Contei-lhe sobre os treinamentos que coordenava e mencionei que também faço comerciais para televisão e rádio.
Seus olhos se iluminaram.
- Minha irmã e eu fizemos um comercial de televisão uma vez.
- Você fez? E como foi?
Ele falou que tinha sido muito divertido para eles. Então me disse que precisava ir ao banheiro.
Levantei-me para que ele pudesse passar para o corredor. Foi então que percebi o aparelho em suas pernas. Bradley foi e voltou do banheiro lentamente. Quando se sentou novamente, explicou:
- Tenho distrofia muscular. Minha irmã também tem - ela está de cadeira de rodas agora. Foi por isso que fizemos o comercial. Somos crianças-propaganda para distrofia muscular.
Quando começamos a aterrissar, ele me olhou, sorriu e falou sussurrando, quase como se estivesse envergonhado:
- Sabe, eu estava realmente preocupado com quem ia sentar a meu lado no avião. Fiquei com medo que fosse alguém rabugento que não quisesse conversar comigo. Estou muito feliz de ter sentado ao seu lado.
Pensando a respeito de toda a experiência mais tarde, naquela noite, lembrei-me do valor de ficar aberta para o momento. Uma semana que começara sendo a treinadora terminara como a aluna.

Agora, quando as coisas ficam difíceis - e ficam, inevitavelmente -, olho pela janela e tento ver que imagens as nuvens estão formando no céu. E me lembro de Bradley, a linda criança que me ensinou esta lição.
(Joyce a. Harvey)

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Não há amor maior - de John W. Mansur

Qualquer que fosse seu alvo inicial, os tiros de morteiros caíram em um orfanato dirigido por um grupo missionário na pequena aldeia vietnamita. Os missionários e uma ou duas crianças morreram imediatamente e várias outras crianças ficaram feridas, incluindo uma menininha de uns oito anos de idade.
As pessoas da aldeia pediram ajuda médica de uma cidade vizinha que possuía contato por rádio com as forças americanas. Finalmente, um médico e uma enfermeira da Marinha americana chegaram em um jipe apenas com sua maleta médica. Determinaram que a menina era a que estava mais gravemente ferida. Sem uma ação rápida, ela morreria por causa do choque e da perda de sangue.
Uma transfusão era imprescindível e era necessário um doador com o mesmo tipo sangüíneo. Um teste rápido revelou
que nenhum dos americanos possuía o tipo correto, mas vários dos órfãos que não haviam sido atingidos tinham.
O médico falava um pouco de vietnamita simplificado e a enfermeira possuía uma leve noção de francês aprendido no colégio. Usando essa combinação, juntos e com muita linguagem de sinais improvisada, eles tentaram explicar para a jovem e assustada platéia que, a não ser que pudessem repor uma parte do sangue perdido da menina, ela com certeza morreria. Então perguntaram se alguém estaria disposto a doar um pouco de sangue para ajudar.
Seu pedido encontrou um silêncio estupefato. Após longos momentos, uma mãozinha lenta e hesitantemente levantou-se, abaixou-se e levantou-se novamente.
- Oh, obrigada - disse a enfermeira em francês. - Qual é o seu nome?
- Heng - veio a resposta.
Heng foi rapidamente colocado em um catre, os braços limpos com álcool e uma agulha inserida em sua veia. Durante toda a penosa experiência, Heng permaneceu tenso e em silêncio.
Depois de algum tempo, ele soltou um soluço trêmulo, cobrindo rapidamente seu rosto com a mão livre.
- Está doendo, Heng? - perguntou o médico.
Heng balançou a cabeça, mas, após alguns instantes, outro soluço escapou e mais uma vez ele tentou esconder o choro. Novamente o médico perguntou se a agulha o estava machucando e novamente Heng balançou a cabeça.
Porém agora seus soluços ocasionais haviam dado lugar a um choro constante e silencioso, seus olhos apertados, o punho na boca para abafar seus soluços.
A equipe médica estava preocupada. Algo obviamente estava muito errado. Nesse momento, uma enfermeira vietnamita chegou para ajudar. Vendo o sofrimento do pequeno, ela falou rapidamente com ele em vietnamita, escutou sua resposta e respondeu-lhe com a voz reconfortante. Após um instante, o paciente parou de chorar e olhou interrogativamente para a enfermeira vietnamita. Quando ela assentiu, um ar de grande alívio se espalhou pelo rosto do menino.
Olhando para cima, a enfermeira contou calmamente para os americanos:
- Ele achou que estava morrendo. Entendeu errado. Achou que vocês haviam pedido que ele desse todo o seu sangue para que a menina pudesse viver.
- Mas por que ele estaria disposto a fazer isso? - perguntou a enfermeira da Marinha.
A enfermeira vietnamita repetiu a pergunta para o menino, que respondeu simplesmente:
- Ela é minha amiga.

(col. John W. Mansur, extraído de Thé Missileer)

sábado, 1 de agosto de 2009

[OFF]

Pessoal por motivos particulares não poderei postar aqui esta semana, mas na próxima segunda feira (10/08) eu volto a postar, ok?

1000 desculpas, mas sei que irão me entender, né?

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Boas maneiras

A cansada ex-professora se aproximou do balcão do supermercado. Sua perna esquerda doía e ela esperava ter tomado todos os comprimidos do dia: para pressão alta, tonteira e um grande número de outras enfermidades.
"Graças a Deus eu me aposentei há vários anos" - ela pensou. "Não tenho energia para ensinar hoje em dia." Imediatamente antes de se formar a fila para o balcão, ela viu um rapaz com quatro crianças e uma esposa, ou namorada, grávida. A professora não pôde deixar de notar a tatuagem em seu pescoço.
"Ele esteve preso" - pensou.
Continuou a observá-lo. Sua camiseta branca, cabelo raspado e calças largas levaram-na a conjecturar:

"Ele é membro de uma gangue."
A professora tentou deixar o homem passar na sua frente. - Você pode ir primeiro - ofereceu.
- Não, a senhora primeiro - ele insistiu.
- Não, você está com mais gente - disse a professora.
- Devemos respeitar os mais velhos - defendeu-se o homem.
E, com isto, fez um gesto largo indicando o caminho para a mulher.

Um breve sorriso adejou em seus lábios enquanto ela mancou na frente dele. A professora que existia dentro dela não pôde desperdiçar o momento e, virando-se para ele, perguntou:
- Quem lhe ensinou boas maneiras?
- A senhora, Sra. Simpson, na terceira série.
(Paul Karrer)

* Livro Histórias para aquecer o coração