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quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Quando mamãe veio para o chá

Eu não tinha idéia de que ela estaria ali. Já tinha até ensaiado as desculpas para sua ausência.
Quando minha professora de economia doméstica anunciou que haveria um chá formal para mães e filhas na escola, eu tinha certeza de que minha mãe não estaria presente.
Assim, não vou me esquecer da minha surpresa quando entrei no ginásio lindamente decorado e ela se encontrava lá! Olhei para minha mãe, sentada calmamente e sorrindo, e imaginei todas as manobras que aquela mulher extraordinária teve de fazer para participar comigo daquele chá.
Quem estaria tomando conta da vovó? Depois do derrame, ela dependia totalmente de mamãe.
Minhas três irmãs pequenas chegariam da escola antes de ela voltar. Quem as receberia e as ajudaria com os deveres?
Como conseguira chegar? Não tínhamos carro e ela não podia pagar um táxi. Teve de caminhar um bom pedaço até o ponto do ônibus, mais cinco quadras até a escola.
E ainda havia o lindo vestido vermelho com florezinhas brancas, bastante adequado para a ocasião. Ele destacava o prateado que começava a aparecer no seu cabelo escuro. Não havia dinheiro para roupas novas e eu sabia que ela fizera uma dívida na loja da nossa cooperativa para comprá-lo.
Fiquei tão orgulhosa! Servi-lhe o chá com o coração feliz e agradecido e a apresentei sem timidez ao grupo. Sentei-me a mesa com minha mãe naquele dia, exatamente como as outras meninas, e isso teve um imenso significado para mim. Seu olhar cheio de amor me dizia que ela entendera aquele sentimento.
Nunca me esqueci daquele chá. Uma das promessas que fiz para mim mesma foi de me empenhar ao máximo para estar sempre perto dos meus filhos. É uma promessa difícil de manter no mundo agitado de hoje, mas a lembrança do que se passou comigo e minha mãe, e da importância que isso teve em minha vida, serve de estímulo para qualquer esforço. Basta que eu pense no dia em que mamãe veio para o chá.

MARGIE M. COBURN

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Uma doce lição

O coração da mãe é a sala de aula de uma criança.
HENRY WARD BEECHER

Meu pai adorava abelhas. Quando uma abelha selvagem chegava zumbindo, ele parava o que estivesse fazendo para esperar a abelha fartar-se de néctar. Assim que estava satisfeita, ela levantava vôo, precisa como uma flecha, em direção a sua colméia, no bosque. Papai então partia em seu encalço. Mesmo que a perdesse de vista sabia, mais ou menos, onde ela terminaria, já que as abelhas traçam uma reta quando se encaminham para casa.
Quando papai encontrava uma árvore oca com um enxame de abelhas dentro, visitava o proprietário das terras e pedia-lhe permissão para cortar a árvore. Sempre dava ao proprietário todo o mel em troca das abelhas. Foi assim que construiu um imenso apiário que, por fim, passou a ser a maior fonte de renda de nossa família.
Uma colméia podia morrer de fome durante o inverno se a sua provisão de mel não durasse até as plantas florescerem. É rotina o apicultor ajudar suas abelhas nos meses de frio, alimentando-as com um xarope feito de água e açúcar.
Durante a Primeira Guerra Mundial, nosso país passou por uma seriíssima escassez de açúcar. O governo passou a racioná-lo, além de diversos outros produtos. Isso criou uma imensa procura por mel como substituto. Devido à necessidade de fornecer mel para a população, os apicultores recebiam uma ração sobressalente de açúcar para manter suas abelhas vivas durante o inverno.
Guardávamos a porção que nos cabia num barril na cozinha externa, que usávamos no verão. Nós, as crianças, sabíamos que era estritamente para a alimentação das abelhas.
Devido ao racionamento sofrido pelo país durante a Primeira Guerra Mundial, era muitas vezes difícil para as mães prepararem refeições apetitosas para suas famílias. Era especialmente difícil quando havia algum convidado.
Fomos avisados de que nossos parentes favoritos, que viviam a muitos quilômetros de distância, viriam nos visitar no dia seguinte. Ficamos muito animados! Mamãe começou a planejar o jantar que faria por ocasião da visita. Melancólica, declarou:
— Como eu gostaria de fazer um bolo! — Ela sentia imenso orgulho dos bolos que preparava. No entanto, como a pequena ração de açúcar destinada a nossa família já fora consumida, ficava impossível fazer o tal bolo.
É claro que nós, as crianças, queríamos o bolo tanto quanto ela! Imploramos para que pegasse o açúcar da ração das abelhas para prepará-lo. Nosso argumento era que o governo jamais saberia. Finalmente, ela cedeu. Foi lá fora, até o barril de açúcar da cozinha externa, e usou-o para fazer sua deliciosa receita de bolo amarelo. Foi preciso grande habilidade para assar o bolo perfeito num forno a lenha, mas mamãe conseguiu. Quando terminou de decorá-lo com uma cobertura especial de merengue, ficamos extremamente orgulhosos de servi-lo para as visitas.
Pouco depois chegou o dia de nossa família receber a ração mensal de açúcar. Papai foi até a mercearia comprá-lo. O vendedor colocou-o num minúsculo saquinho marrom e amarrou-o com cuidado. Quando chegou em casa, papai o colocou sobre a mesa.
Mamãe olhou brevemente para o pacotinho. Então, pegou o mesmo medidor que usara para o açúcar do bolo. Enquanto nós, crianças, a olhávamos estupefatos, ela mediu exatamente a quantidade que usara. Então, solenes, a seguimos até o barril de açúcar das abelhas, onde ela o despejou.
O que restou de açúcar no fundo do pequeno saco era pouco para uma família de sete, mas teria de ser suficiente para durar um mês. A idéia foi um banho de sobriedade para uma criança tão pequena e apaixonada por doces. Minha mãe não fez o menor discurso sobre o acontecido, a menor fanfarra. Não pregou sobre a honestidade. Para ela, aquele fora um ato natural, de acordo com a integridade com a qual meu pai e ela viveram as suas vidas.
Hoje, tenho noventa e dois anos. Há muito não sou mais aquela criancinha que olhava por cima da mesa da cozinha da mãe, na pontinha dos pés. Muitas coisas mudaram durante a minha vida. Ainda faço bolos quando tenho visitas, mas hoje uso misturas prontas porque não agüento mais ficar em pé tanto tempo. Também não preciso mais usar o fogão à lenha. E, certamente, não há a menor escassez de açúcar em nosso país.
Mas algumas coisas não mudam. E, assim, já contei a história sobre a honestidade incondicional de minha mãe inúmeras vezes para meus filhos, meus netos e até mesmo para os meus bisnetos. Mamãe era como uma daquelas abelhas que meu pai adorava seguir. Era fácil contar que sempre tomaria o caminho mais honesto nesta vida, uma linha reta, precisa como uma flecha. E foi por isso que moldou, sem alardes, a consciência de quatro gerações de uma mesma família.

MILDRED BONZO

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Para ler quando estiver sozinho

Eu tinha treze anos e minha família se mudara do norte da Flórida para o sul da Califórnia um ano antes. Eu era, como a maioria dos adolescentes, raivoso e rebelde, não dando importância ao que meus pais diziam, principalmente se tivesse alguma coisa a ver com meu comportamento.
Lutava para contestar qualquer coisa que não correspondesse a minha idéia do mundo. De uma extrema auto-suficiência, eu rejeitava qualquer manifestação pública de amor. Na verdade, ficava irritado com a simples menção da palavra amor.
Na noite de um dia particularmente difícil, entrei no quarto como um furacão, tranquei a porta e me joguei na cama. Ali deitado, escorreguei as mãos por baixo do travesseiro e achei um envelope. Nele se lia: “Para ler quando estiver sozinho.”
Como estava sozinho, ninguém saberia se eu lera ou não. Assim, abri e li:

Mike, sei que a vida está dura agora, sei que você se sente frustrado e que, apesar da nossa boa intenção, nem tudo que fazemos é certo. Mas sei principalmente que amo você demais e nada do que você faça ou diga vai mudar isso. Nunca. Estou aqui para conversar, se você precisar e, se não precisar, tudo bem. Saiba que não importa aonde você vá ou o que você faça na vida, sempre vou amá-lo e sentir orgulho de tê-lo como filho. Estou aqui por você e o amo. Isso não vai mudar nunca.
Com amor. Mamãe.

Esta foi a primeira de muitas cartas “para ler quando estiver sozinho”. Jamais falamos sobre elas, até eu ser adulto.
Hoje eu corro mundo ajudando pessoas. Estava dando um seminário na Flórida e, no final da palestra, uma senhora veio falar comigo sobre os problemas que estava tendo com o filho. Fomos até a praia e falei para ela do enorme amor de minha mãe e das cartas “para ler quando estiver sozinho”. Semanas depois, recebi um cartão onde a senhora dizia ter escrito sua primeira carta para o rapaz.
Naquela noite, passei a mão sob meu travesseiro e me lembrei do alívio que sentia sempre que encontrava uma carta. Nos anos atribulados de minha adolescência, as cartas eram a garantia silenciosa de que eu era amado, apesar de tudo, incondicionalmente.
Essa gratuidade do amor de minha mãe me ajudou a superar as crises e revoltas da adolescência e fez vir à tona o que eu tinha de melhor. Agradeci a Deus por minha mãe saber do que eu — um adolescente raivoso — precisava. Por ela ter persistido apesar do meu silêncio, da minha aparente indiferença.
Hoje, quando os mares da vida se tornam revoltos, sei bem que sob meu travesseiro está a segurança de que o amor — consistente, durável, incondicional — é capaz de mudar vidas.

MIKE STRAVER

domingo, 27 de setembro de 2009

Você já viu Deus?

Minha mãe era analfabeta, nunca quis aprender a ler. Certa vez eu lhe trouxe um caderno e um lápis bentos pelo Papa Paulo VI para ver se ela se animava a aprender. Minha mãe jogou longe, dizendo: “Para que eu quero aprender a ler e escrever se tenho onze filhos que fizeram universidade, quase todos doutores. Para quê? Eles sabem por mim. Não preciso eu estudar e saber.”
Mas era uma mulher de grande sabedoria existencial e profunda piedade.
Eu costumava gravar coisas que escrevia para ela escutar. Minha mãe escutava e dizia: “Onde você aprendeu tudo isso? Eu nunca te ensinei tais coisas!”
Ao ouvir uma das gravações em que eu falava da experiência de Deus, ela me olhou fundo e fez a pergunta: “Você já viu Deus?”
Eu respondi de pronto: “Minha mãe, a gente não vê Deus. Deus é espírito, é invisível.”
Ela deu como que um suspiro, colocando a mão no peito, me olhou com infinita tristeza e disse: “Você é padre há tantos anos e nunca viu Deus?”
Eu insisti: “Mãe, a gente não vê Deus.”
Ela retrucou: “Você não vê Deus, mas eu O vejo todos os dias. Quando o sol se põe lá no horizonte. Deus passa com um manto fantástico, lindo. Ele vem sempre sério, e teu pai que já faleceu vem atrás, olha para mim, me dá um sorriso e segue junto com Deus. Eu vejo Ele todos os dias.”
Eu fiquei parado, me perguntando: “Quem é o teólogo aqui, ela ou eu? A analfabeta ou o doutor em teologia?”
Temos que aprender com as pessoas que vivem tais experiências. Porque a fé é uma experiência tão global que entra pelos olhos, entra no coração, entra na fantasia, entra nas projeções. Deus é substância da sua própria substância.
Essas pessoas não crêem em Deus. Elas sabem de Deus porque O viram, porque O experimentaram.

LEONARDO BOFF

sábado, 26 de setembro de 2009

Mãe por um só dia

Sendo mãe de três lindas crianças, tenho muitas lembranças especiais para contar. Mas foi com uma criança que não era minha que vivi um momento especial pelo qual tenho muito carinho.
Recomendado pela residência para meninos onde morava, Michael veio, no último verão, para a nossa colônia de férias que reunia crianças com baixa auto-estima. Aos doze anos, já passara por maus momentos. Órfão de mãe, o pai o trouxera de um país destruído pela guerra para os Estados Unidos, para que pudesse ter “uma vida melhor”. Infelizmente, fora entregue a uma tia, que o maltratara física e emocionalmente. Tornou-se um menino insubordinado e hostil, com pouca responsabilidade e acreditando que não era amado.
Na colônia, ele andava com outros garotos problemáticos e desordeiros, uma verdadeira gangue, um desafio para os supervisores. Mas nós procurávamos aceitá-los e amá-los como eram. Entendíamos que seu comportamento era um reflexo do quanto foram maltratados. Colocávamos limites com firmeza, mas afetuosamente.
Pela quinta noite da nossa experiência de uma semana, combinamos com as crianças um acampamento sob as estrelas. Michael disse que ia ser uma chatice e que não iria. Aceitei sua recusa, para não criar problema e mantivemos o programa com os outros.
Chegando a noite, a lua no céu, as crianças começaram a arrumar os sacos de dormir sobre um enorme deque perto do lago. Vi Michael se aproximando, sozinho, a cabeça baixa. Ele veio rapidamente em minha direção e, antes que falasse alguma coisa, eu disse: “Michael, vamos pegar seu saco de dormir e achar um bom lugar para você perto de seus amigos.”
“Não tenho saco de dormir”, ele falou baixinho.
“Isso não é problema! Vamos abrir umas sacolas e pegar uns cobertores!”, retruquei.
Imaginei ter resolvido o dilema e fui andando. Michael segurou minha blusa e me afastou do grupo.
“Anne, preciso lhe contar uma coisa.” Vi a hostilidade no rosto daquele menino endurecido se desmanchar e, baixinho, ele continuou: “Anne, tenho um problema... Eu... eu faço xixi na cama, molho o lençol todas as noites.”
Extremamente emocionada, coloquei o braço em torno de seu ombro e agradeci por ele ter tido confiança em mim. Disse que compreendia seu problema e perguntei como poderia ajudá-lo. Juntos, combinamos que ele poderia dormir sozinho em sua cabana, sem que os outros meninos percebessem.
Voltei com ele para a cabana e, no caminho, perguntei se não estava com medo de dormir sozinho. Michael me afirmou que isto não era nada perto das situações que já enfrentara nos seus doze anos de vida. Virei o colchão, protegi-o com um plástico e, enquanto colocávamos na cama seu último jogo limpo de lençóis, conversamos sobre as dificuldades por que passara e sobre seu desejo de que o futuro fosse diferente. Segurando sua mão, afirmei que ele tinha a força necessária para fazer de sua vida o melhor possível. O menino hostil e endurecido transformou-se numa criança doce e afetuosa.
Michael se deitou e eu o cobri, puxando o cobertor até o queixo. Acariciei seus cabelos e beijei sua testa. “Boa noite, Michael, fique sabendo que você é um garoto maravilhoso!”
Ele se remexeu e suspirou fundo: “Boa noite. Sabe que, desde que minha mãe morreu, ninguém tinha feito isso comigo? Obrigado por tudo.”
“De nada, querido”, respondi, abraçando-o. Eu chorava quando me virei para sair, levando três conjuntos de lençóis, sujos. Não tornei a ver Michael depois da colônia, mas rezo por ele todos os dias, desejando que aquele momento de afeto e acolhida tenha podido contribuir para sua felicidade.

ANNE JORDAN

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Bem-vinda à Holanda

Muitas vezes me pedem para contar como criamos uma criança especial, para tentar ajudar as pessoas que não têm essa experiência única a entendê-la. A comparação que sempre me ocorre é a seguinte:
Esperar um bebê é como planejar a fantástica viagem de férias com que você sempre sonhou — para a Itália. Você compra um monte de guias e faz planos maravilhosos. O Coliseu. O David de Michelangelo. As gôndolas, em Veneza. Você pode aprender frases úteis em italiano. Tudo é uma festa.
Depois de meses de expectativa, finalmente chega o dia da viagem. Malas prontas, você entra no avião e, algumas horas depois, a aeromoça vem e diz: “Bem-vinda à Holanda.”
“Holanda?! Como assim, Holanda?”, você se espanta. “Meu vôo era para a Itália. Sonhei a vida inteira em ir para a Itália.”
Mas houve uma mudança no plano de vôo. Aterrissaram na Holanda e este é seu destino agora.
O importante é que não te levaram a um lugar horrível, desagradável e sujo, cheio de epidemias, fome e doença. É só um lugar diferente.
Então você tem de sair e comprar novos guias. E aprender uma língua nova. E conhecer pessoas que nunca teria conhecido. É só um lugar diferente. O ritmo é mais lento que o da Itália; a luz, menos brilhante. Mas, depois de estar lá por algum tempo, você toma fôlego, olha em volta... e começa a notar que a Holanda tem moinhos... e a Holanda tem tulipas. A Holanda tem até Rembrandts.
Mas todo mundo que você conhece foi e voltou da Itália, contando maravilhas do tempo passado lá. Pelo resto da vida você dirá: “É, era para lá que eu deveria ter ido. Era isso que eu tinha planejado.”
E a dor do seu coração nunca, nunca mesmo, irá embora completamente... porque, afinal, a perda desse sonho é muito significativa.
Mas, se você passar a vida lamentando o fato de não ter ido para a Itália, talvez não possa descobrir e aproveitar o que existe de tão especial e todas as coisas adoráveis que há na Holanda.

EMILY PERL KINGSLEY

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Quando Deus criou as mães

Quando o bom Senhor estava criando as mães e entrava no sexto dia de hora extra, surgiu o anjo e disse:
— Estás caprichando neste daí, hein?
E o Senhor respondeu:
— Já leste as especificações técnicas deste pedido? Ela precisa ser 100% lavável, sem ser de plástico; precisa ter 180 peças flexíveis... todas elas substituíveis; precisa ser movida a café preto e sobras de comida; tem de ter um beijo que cure qualquer mal, de uma perna quebrada a uma desilusão amorosa; além de seis pares de mãos.
O anjo balançou a cabeça lentamente e opinou:
— Seis pares de mãos? Assim não dá!
— Não são as mãos que estão me causando problemas — disse o Senhor. — São os três pares de olhos que as mães precisam ter.
— O modelo básico é assim? — indagou o anjo.
O Senhor fez que sim com a cabeça:
— Um par para ver através da porta quando ela pergunta “O que é que estão aprontando aí dentro, crianças?” quando já sabe a resposta. Outro par aqui, atrás da cabeça, para ver o que não deve mas o que precisa saber e, é claro, os dois daqui da frente, para poder olhar para o filho quando este errar e dizer “Eu compreendo e o amo” sem pronunciar uma única palavra.
— Senhor — disse o anjo, tocando a manga de sua roupa, suavemente —, precisas dormir. Amanhã...
— Não posso — reagiu o Senhor. — Estou muito próximo de criar algo muito parecido comigo. Já criei um ser que se cura quando está doente... que consegue alimentar uma família de seis com meio quilo de carne moída... e que consegue enfiar uma criança de nove anos debaixo do chuveiro.
O anjo caminhou em torno do modelo da mãe, lentamente.
— Mas é suave demais!
— Na mesma medida em que é valente — disse o Senhor, animadíssimo. — Você nem imagina o que esta mãe pode fazer ou suportar.
— Ela sabe pensar?
— Não apenas sabe pensar como, também, raciocinar e encontrar soluções conciliatórias — respondeu o Criador.
Finalmente, o anjo se curvou e passou o dedo pela face do modelo.
— Há um vazamento aqui — pronunciou. — Eu avisei que estavas tentando colocar coisas demais neste modelo.
— Mas não é um vazamento — corrigiu o Senhor. — É uma lágrima.
— E para que serve?
— Serve para a alegria, para a tristeza, o desapontamento, a dor, a solidão e o orgulho.
— O Senhor é mesmo um gênio — elogiou o anjo.
Então o Senhor mostrou-se solene:
— Mas não fui eu que a coloquei aí.

ERMA BOMBECK

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Pintas de cores diferentes - de Grazina Smith

- Querido, alguém deixou um casaco no armário da sua mãe gritei para meu marido.

A jaqueta de falso leopardo estava enfiada no fundo do armário, contra a parede, destacando-se dos casacos e suéteres escuros. Fiquei imaginando quem esconderia roupas no armário de minha sogra. Estávamos ali para pegar um casaco pesado para ela porque estava voltando para casa do hospital, uma semana depois de ser levada às pressas para a sala de emergência.

- Casaco? Que casaco? - meu marido desviou o olhar da correspondência que estava separando. Segurei a jaqueta, colocando-a na luz para que ele a pudesse ver.

- Ah, essa jaqueta... Mamãe a comprou anos atrás, quando eu era criança... Você sabe, quando elas estavam na moda. Papai e ela chegaram a brigar por causa disso.

Pensei na mulher que eu conhecia há trinta anos. Ela comprava seus vestidos e conjuntos de poliéster no supermercado ou na Sears, mantinha seu cabelo grisalho bem preso dentro de uma rede de cabelo e escolhia o menor pedaço de carne na travessa quando o prato era passado de mão em mão. Eu sabia que ela não era o tipo de pessoa vistosa que possuiria uma jaqueta estampada imitando leopardo.

- Não consigo imaginar mamãe usando isso - eu disse a ele.
- Acho que ela nunca a usou fora de casa - respondeu meu marido.

Retirei a jaqueta do cabide acolchoado e a coloquei em cima da colcha de chenile branca. Parecia se esparramar como um animal exótico. Minhas mãos alisaram o plush grosso e o brilho das pintas mudava conforme meus dedos se afundavam nele.

Meu marido estava de pé na porta.

- Eu costumava ver mamãe passar os dedos pelo casaco, como você está fazendo.

Quando deslizei meus braços por dentro das mangas, a jaqueta exalou um perfume de gardênias e sonhos. Ficava solta nos meus ombros, o colarinho alto roçando em minhas bochechas, a pele falsa macia como veludo. Pertencia a uma época glamourosa e distante, o tempo de Lana Turner e Joan Crawford, mas não ao armário da prática mulher de oitenta e três anos de idade que eu conhecia.

- Por que você não me disse que sua mãe tinha uma jaqueta de leopardo? - sussurrei, mas meu marido saíra do quarto para regar as plantas.

Se me pedissem para fazer uma lista de coisas que minha sogra nunca desejaria na vida, aquela jaqueta estaria perto do primeiro lugar. Ainda assim, encontrá-la mudou nosso relacionamento. Fez com que eu percebesse quão pouco eu conhecia as esperanças e os sonhos daquela mulher. Levamos o casaco para o hospital para que ela o usasse no caminho para casa. Ficou ruborizada quando o viu e ficou ainda mais vermelha quando a equipe brincou com ela.

Durante nossos três últimos anos juntas, dei-lhe como presentes perfumes, hidratantes e maquiagem ao invés de roupa de baixo prática e chinelos. Saíamos para almoçar uma vez por semana, quando ela usava a jaqueta e começou a enrolar o cabelo para que ficasse fofo e glamouroso para nossos encontros. Passava muito tempo olhando seu álbum de fotografias e, finalmente, comecei a enxergar a jovem que havia ali, com a boca no formato de um arco de Cupido.

Pele falsa voltou à moda. Está nas vitrines das lojas e nas ruas. Todas as vezes que vejo uma delas, lembro-me da jaqueta de minha sogra e de que todos nós temos um ser secreto que precisa ser encorajado e partilhado com aqueles que amamos.

(Grazina Smith)

terça-feira, 22 de setembro de 2009

O que há de errado com seu pai? - de Carol Darnell

Eu estava no ginásio antes de perceber que meu pai tinha um defeito de nascença.

Ele tinha lábio leporino e fenda palatina, mas, para mim, continuava com a mesma aparência que tinha no dia em que nasci. Lembro-me de dar-lhe um beijo de boa noite certa vez, quando eu era pequena, e perguntar se meu nariz ficaria chato depois de uma vida inteira dando beijos. Ele me assegurou que isso não aconteceria, mas me recordo de um tremor em seus olhos. Tenho certeza de que ele estava assombrado por ter uma filha que o amava tanto, que pensava que seus beijos, não trinta e três cirurgias, haviam remodelado seu rosto.

Meu pai era gentil, paciente, atencioso e amoroso. Ele nunca encontrou uma pessoa na qual não pudesse vislumbrar qualidades. Sabia o primeiro nome de serventes, secretárias e diretores. Na verdade, acho que ele gostava mais dos serventes.

Sempre perguntava sobre suas famílias, sobre quem eles achavam que iria ganhar o campeonato de futebol e sobre como andava a vida.
Preocupava-se o suficiente para escutar suas respostas e lembrar-se delas.

Papai nunca deixou que sua deformação comandasse sua vida. Quando foi considerado muito feio para trabalhar com vendas, começou a fazer entregas de bicicleta e criou sua própria clientela. Quando o exército não permitiu que ele se alistasse, ele se ofereceu como voluntário. Chegou até mesmo a convidar uma Miss América para sair, uma vez.

- Se você não perguntar, nunca vai saber - disse-me mais tarde. Raramente falava ao telefone, pois as pessoas tinham dificuldades para entendê-lo. Quando o encontravam pessoalmente, com sua atitude positiva e sorriso fácil, pareciam não levar sua deficiência em consideração. Casou-se com uma linda mulher e tiveram sete crianças saudáveis, que achavam, todas, que o sol e a lua nasciam em seu rosto.

Quando eu era uma "adolescente sofisticada", entretanto, mal tolerava estar no mesmo aposento com este homem que, durante uma década, me aturou enquanto eu o observava fazendo a barba todas as manhãs. Meus amigos eram chiques, na moda e populares; meu pai era velho e ultrapassado.

Numa noite eu cheguei com o carro cheio de amigos e paramos na minha casa para fazer um lanche de madrugada. Meu pai saiu de seu quarto e cumprimentou meus amigos, servindo refrigerantes e fazendo pipoca. Um de meus amigos me puxou para o lado e me perguntou:

- O que há de errado com seu pai?

De repente, olhei através da cozinha e o vi pela primeira vez com olhos imparciais.

Fiquei chocada. Meu pai era um monstro! Fiz com que todos saíssem imediatamente e levei-os para casa. Senti-me tão idiota. Como podia ter deixado de ver?

Mais tarde, naquela noite, eu chorei, não porque percebi que meu pai era
diferente, mas porque percebi que pessoa fútil e patética eu estava me tornando.

Ali estava a pessoa mais doce e carinhosa que você poderia pedir e eu o havia julgado por sua aparência.

Naquela noite eu aprendi que, quando você ama totalmente alguém e então a vê através dos olhos da ignorância, do medo ou do desprezo, começa a entender a profundidade do preconceito. Eu havia visto meu pai como os estranhos o viam, como alguém diferente, deformado e anormal. Sem me lembrar que ele era uma boa pessoa que amava sua esposa, seus filhos e seus semelhantes. Ele tinha alegrias e tristezas e já vivera uma vida inteira sendo julgado pelas pessoas por sua aparência. Fiquei grata por tê-lo conhecido primeiro, antes que as pessoas me mostrassem seus defeitos.

Papai já se foi. Empatia, compaixão e preocupação pelo próximo são o legado que ele me deixou.

São os maiores presentes que os pais podem dar a um filho - a capacidade de amar os outros sem considerar sua posição social, raça, religião ou incapacidades físicas, mas os dons da perseverança positiva e do otimismo. O sublime objetivo de ser tão amorosa em minha vida que receba beijos o bastante para que meu nariz fique chato.

(Carol Darnell)

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

A outra mulher - de David Farrell

Após vinte e um anos de casamento, descobri uma nova maneira de manter acesa a fagulha do amor e da intimidade no meu relacionamento com minha esposa.

Comecei, recentemente, a sair com outra mulher. Na realidade, foi idéia da minha esposa.

- Você sabe que a ama - ela disse um dia, pegando-me de surpresa. - A vida é muito curta.

Você precisa passar algum tempo com as pessoas que ama.

- Mas eu amo você - protestei.

- Eu sei. Mas também a ama. Você provavelmente não vai acreditar em mim, mas acho que, se vocês dois passarem mais tempo juntos, isso será bom para nós.

Como sempre, Peggy estava certa.

A outra mulher com quem minha esposa estava me encorajando a sair é minha mãe.

Minha mãe é uma viúva de setenta e um anos de idade que vive sozinha desde que meu pai morreu, há dezenove anos. Logo depois de sua morte, viajei quatro mil quilômetros para morar na Califórnia, onde comecei minha própria família e minha carreira. Quando voltei à minha cidade natal há cinco anos, prometi a mim mesmo que passaria mais tempo com ela. Mas, de alguma maneira, com as exigências de meu trabalho e três filhos, nunca cheguei a vê-la fora das reuniões familiares e dos feriados.

Ela ficou surpresa e desconfiada quando telefonei e sugeri que fôssemos jantar e depois ao cinema.

- O que aconteceu? Você vai se mudar para longe com meus netos? - perguntou.

Minha mãe é o tipo de mulher que acha que qualquer coisa fora do habitual - um telefonema tarde da noite ou um convite surpresa para jantar feito por seu filho mais velho - significa más notícias.

- Achei que seria bom passar algum tempo com você - eu disse. - Só nós dois.

Ela avaliou a observação por um instante.

- Eu gostaria disso - falou. - Gostaria muito. Surpreendi-me nervoso enquanto dirigia para a casa dela na sexta-feira depois do trabalho. Estava com a ansiedade do pré-encontro - e só estava saindo com a minha mãe, pelo amor de Deus!

Sobre o que iríamos conversar? E se ela não gostasse do restaurante que escolhi? Ou do filme? E se não gostasse de nenhum dos dois?

Quando estacionei em frente à sua garagem, percebi o quanto ela também estava nervosa com o nosso encontro. Estava me esperando na porta, já de casaco. Tinha feito um penteado especial. Sorria.

- Eu disse para as minhas amigas que ia sair com o meu filho e todas ficaram impressionadas - falou enquanto entrava no carro. - Mal podem esperar até amanhã para ouvirem a respeito da nossa noite.

Não fomos a nenhum lugar chique, apenas um restaurante do bairro, onde pudéssemos conversar. Quando chegamos lá, ela agarrou meu braço - metade por carinho, metade para ajudá-la a subir os degraus para o salão.

Sentamos e eu tive que ler o cardápio para nós dois. Os olhos dela só vêem grandes formas e sombras. Já tinha lido metade das entradas, quando olhei para cima.

Mamãe estava sentada do outro lado da mesa, olhando para mim. Tinha um sorriso pensativo nos lábios.

- Era eu quem lia o cardápio quando você era pequeno disse.

Entendi imediatamente o que ela estava dizendo. De responsável a dependente, de dependente a responsável, nossa relação se invertera completamente.

- Então chegou a hora de você relaxar e me deixar retribuir o favor - falei.

Conversamos agradavelmente durante o jantar. Nada avassalador, apenas sobre nossas vidas. Conversamos tanto que perdemos o filme.

- Saio com você novamente, mas só se você deixar eu pagar o jantar da próxima vez - disse minha mãe quando a deixei em casa. Concordei.

- Como foi o seu encontro? - minha esposa quis saber quando cheguei em casa aquela noite.

- Bem... melhor do que eu esperava - respondi. Ela deu seu sorriso eu-bem-que-disse.

Desde aquela noite, tenho tido encontros regulares com minha mãe. Não saímos toda semana, mas tentamos nos ver pelo menos duas vezes por mês. Sempre jantamos e às vezes assistimos a um filme. No entanto, na maior parte das vezes apenas conversamos. Conto-lhe dos desafios diários de meu trabalho. Conto vantagem a respeito de meus filhos e de minha esposa. Ela atualiza meu conhecimento a respeito das fofocas da família com as quais pareço nunca estar em dia.

Também me conta do seu passado. Agora eu sei como foi para minha mãe trabalhar em uma fábrica durante a Segunda Guerra Mundial. Sei como ela conheceu meu pai lá e como eles se cortejaram no bonde durante aqueles tempos difíceis. Ouvindo essas histórias percebi o quanto elas significam para mim. São minhas histórias. Não me canso de ouvi-las.

Mas não conversamos apenas a respeito do passado. Também conversamos sobre o futuro. Por causa de problemas de saúde, minha mãe se preocupa com os dias por vir.

- Tenho tanta coisa para viver - ela me disse certa noite. - Tenho que estar aqui enquanto meus netos crescem. Não quero perder nem um pouquinho.

Como muitos amigos da minha geração, tenho a tendência de viver correndo, enchendo ao máximo a agenda enquanto luto para fazer com que a carreira, a família e os relacionamentos caibam na minha vida. Com freqüência reclamo da velocidade com que o tempo passa. Passar algum tempo com a minha mãe me ensinou a importância de diminuir o ritmo. Finalmente entendi o significado de um termo que ouvi um milhão de vezes: qualidade de vida.

Peggy estava certa. Sair com outra mulher realmente ajudou meu casamento. Fez de mim um marido e um pai melhores e, espero, um filho melhor.

Obrigado, mamãe. Eu te amo.

(David Farrell)

domingo, 20 de setembro de 2009

Vovó Ruby - de Lynn Robertson

Sendo mãe de dois meninos muito ativos, de um e sete anos de idade, às vezes me preocupo que eles transformem minha casa cuidadosamente decorada em um canteiro de demolição. Em meio a sua inocência e às suas brincadeiras, de vez em quando derrubam meu abajur favorito ou desarrumam meus arranjos bem planejados. Nesses momentos, quando nada parece sagrado, lembro-me da lição que aprendi com minha sábia sogra, Ruby.

Ruby é mãe de seis e avó de treze. É a encarnação da gentileza, da paciência e do amor.

Num Natal, todos os filhos e netos estavam reunidos, como de costume, na casa de Ruby. Apenas um mês antes Ruby havia comprado um lindo carpete branco, depois de viver com o mesmo carpete durante vinte e cinco anos. Ficara felicíssima com o jeito novo que ele dava à casa.

Meu cunhado, Arnie, tinha acabado de distribuir seus presentes entre todas as sobrinhas e sobrinhos - mel natural premiado de seu apiário. Eles estavam superanimados.

Mas quis o destino que a pequena Sheena de oito anos de idade derramasse seu pote de mel no carpete novo da vovó fazendo uma trilha escada abaixo por toda a casa.

Chorando, Sheena correu para a cozinha e para os braços de Ruby. - Vovó, eu derramei todo o meu mel em cima do seu carpete novo.

Vovó Ruby ajoelhou-se, olhou carinhosamente nos olhos
chorosos de Sheena e disse:

- Não se preocupe, querida, podemos lhe arrumar mais mel.

(Lynn Robertson)

sábado, 19 de setembro de 2009

Ouse imaginar - de Marilyn King

“Os médicos me disseram que eu jamais andaria novamente, mas minha mãe disse que eu andaria, então acreditei na minha mãe.” (Wilma Rudolph, "a mulher mais rápida do mundo", três medalhas de ouro nas Olimpíadas de 1960.)

Quando as pessoas descobrem que eu competi nas Olimpíadas, presumem que sempre fui atleta. Mas não é verdade. Eu não era a mais forte ou a mais rápida e não fui a mais rápida a aprender. Para mim, tornar-me uma esportista olímpica não foi desenvolver um dom de habilidade atlética natural, mas foi, literalmente, um ato de vontade.

Nas Olimpíadas de 1972, em Munique, eu era um membro da equipe americana de pentatlo, mas a tragédia dos atletas israelenses e um ferimento em meu tornozelo, combinados, tornaram a experiência profundamente desencorajadora. Não desisti. Ao invés, continuei treinando, acabando por me qualificar para ir com a equipe americana para os jogos de 1976, em Montreal. A experiência foi muito mais prazerosa e fiquei emocionada por ficar em décimo terceiro lugar. Mas, ainda assim, sentia que podia fazer melhor.

Arranjei para tirar uma licença do meu emprego como professora de Educação Física na universidade um ano antes das Olimpíadas de 1980. Achei que doze meses de treinamento vinte e quatro horas por dia me dariam a vantagem que eu precisava para trazer uma medalha para casa desta vez. No verão de 1979 comecei a treinar intensivamente para as eliminatórias das Olimpíadas a serem realizadas em junho de 1980. Senti a satisfação que surge quando a mente está focalizada e sentimos um progresso contínuo em direção a um objetivo que nos é caro.

Mas então, em novembro, o que parecia ser um obstáculo intransponível aconteceu. Sofri um acidente de carro e machuquei a região lombar. Os médicos não tinham certeza do que estava errado, mas tive que parar de treinar porque não podia me mover sem sentir dores excruciantes. parecia óbvio demais que eu teria que abrir mão do meu sonho de ir para as Olimpíadas se não pudesse continuar treinando. Todo mundo ficou com pena de mim. Menos eu.

Foi estranho, mas nunca acreditei que este contratempo iria me deter. Confiei que os médicos e fisioterapeutas resolveriam logo o problema e que eu voltaria ao treinamento.

Agarrava-me à afirmação: estou ficando melhor a cada dia e ficarei entre os três primeiros nas eliminatórias para as Olimpíadas. Isso passava constantemente pela minha cabeça.

Mas meu progresso era lento e os médicos não conseguiam concordar quanto ao tratamento. O tempo estava passando e eu continuava sentindo dores, incapaz de me mover. Restando apenas alguns meses, eu sabia que teria que fazer alguma coisa ou nunca conseguiria competir. Então comecei a treinar da única maneira que podia - em minha cabeça.

Um pentatlo consiste de cinco eventos de corrida e campo: 100 metros com barreira, arremesso de peso, salto com vara, salto em distância e corrida dos 200 metros.

Consegui filmes dos detentores dos recordes mundiais em todos os meus cinco eventos. Sentada em uma cadeira na cozinha, assisti aos filmes projetados na parede de minha cozinha vezes sem conta. Eu os assistia em câmara lenta ou quadro a quadro. Quando ficava entediada, assistia-os de trás para frente, só para me divertir.

Assisti-os durante centenas de horas, estudando e absorvendo. Em outros momentos, deitava-me no sofá e visualizava a experiência de competir em detalhes minuciosos.

Sei que algumas pessoas pensaram que eu estava maluca, mas eu ainda não estava pronta para desistir.

Treinei o máximo que pude - sem jamais mover um músculo.

Finalmente os médicos diagnosticaram meu problema como hérnia de disco. Agora eu sabia por que doía tanto quando me movia, mas ainda não podia treinar. Mais tarde, já podendo andar um pouco, fui até a pista de corridas e fiz com que montassem todos os meus cinco eventos. Mesmo não podendo praticar, ficava de pé na pista e imaginava na minha cabeça a série completa de treinamento que eu teria feito naquele dia se fosse capaz. Durante meses, imaginei-me repetidamente competindo e me qualificando nas eliminatórias.

Mas será que visualizar era o suficiente? Seria realmente verdade que eu poderia me qualificar entre os três primeiros nas eliminatórias para as Olimpíadas? Acreditei nisso de todo o coração.

Quando as eliminatórias realmente começaram, eu havia melhorado apenas o suficiente para competir. Tomando muito cuidado para manter quentes meus músculos e tendões, atravessei meus cinco eventos como se estivesse em um sonho. Depois, enquanto andava pelo campo, ouvi uma voz no alto-falante anunciar o meu nome.

Fiquei sem ar, mesmo tendo imaginado a cena mil vezes em meu pensamento. Senti uma onda de pura felicidade enquanto o locutor dizia:

- Segundo lugar, pentatlo olímpico de 1980: Marilyn King.

(Marilyn King, Como contado para Carol Kline)

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Obstáculos ilusórios - de Heidi Marotz

“Nós apreciamos o calor porque já sentimos frio. Apreciamos a luz porque já estivemos no escuro. Como prova do que digo, podemos experimentar a felicidade porque já conhecemos a tristeza.” (David l. Weatherford)

Meu marido Scott usara suas pernas para conseguir bolsas de estudo através de campeonatos de esqui na faculdade e para chegar ao topo do Grand Tetons, em Jackson Hvle, Wyoming. Então, sem nenhum aviso, durante um mês de abril atipicamente quente, descobriu-se um rumor na espinha dorsal de Scott. Disseram-nos que a morte, ou a paralisia, poderia ser o resultado final.

Nossos filhos - Chase, Jillian e Hayden - variam em idade de sete a dois anos. Eles não entenderam realmente todas as "coisas ruins" que estavam acontecendo - mas foram os maiores torcedores e os melhores professores quando Scott descobriu que continuaria viver, mas que estava paralisado do tórax para baixo. Os adultos, às vezes, ficam presos à imagem de como as coisas eram. Eu pensava sobre os acampamentos que nunca faríamos, as montanhas que Scott nunca escalaria e a neve recém-caída que ele nunca esquiaria com seus filhos.

Chase, Jillian e Hayden estavam muito ocupados com as coisas da vida para ficarem atolados no que seu pai não podia fazer. Ficavam de pé nas rodas da cadeira e gritavam de prazer enquanto ele apostava corridas em calmos corredores de hospital.

Os médicos disseram para preparar Scott para uma vida na cadeira de rodas, pois, se ele pensasse que iria andar de novo - e não poderia -, ficaria deprimido. As crianças não deram ouvidos aos médicos. Insistiam para que seu pai "tentasse ficar de pé". Eu ficava com medo de que Scott caísse. As crianças riam com ele quando ele caía e rolava na grama. Eu gritei, mas eles insistiram para que ele "tentasse novamente".

No meio de todas essas mudanças em nossas vidas, entrei para um curso de Desenho numa faculdade local. Durante uma semana, o instrutor nos disse que não podíamos desenhar coisas, mas apenas o espaço entre as coisas. Um dia, enquanto eu estava sentada debaixo de um enorme pinheiro desenhando o espaço entre os galhos, comecei a ver o mundo como Scott e as crianças o viam. Não vi os galhos como obstáculos que podiam impedir uma cadeira de rodas de atravessar o gramado, vi todos os espaços que permitiam a passagem de cadeiras de rodas, pessoas e até mesmo animais pequenos. Quando eu não estava me concentrando nos galhos - ou nos obstáculos da vida - adquiria uma nova visão de todos os espaços. Estranhamente, quer você desenhe os espaços ou os galhos, o desenho parece ser basicamente o mesmo. É a forma como você o vê que é diferente.

Quando passei a olhar os "espaços" junto com minha família, um novo mundo se abriu. Não era o mesmo - às vezes ficávamos frustrados -, mas era sempre compensador, pois estávamos trabalhando juntos. Conforme experimentávamos todas essas novas aventuras, Scott começou a ficar de pé e a andar com a ajuda de uma bengala. Ele ainda não sente nada na parte inferior de seu corpo e nas pernas, não pode correr ou andar de bicicleta, mas desfruta de muitas experiências novas.

Aprendemos que você não precisa sentir as pernas para empinar uma pipa, jogar um jogo de tabuleiro, plantar uma árvore, boiar em um lago na montanha ou freqüentar aulas. As pernas não são necessárias para abraçar, botar curativo em um corte ou acalmar alguém depois de um pesadelo.

Algumas pessoas vêem barreiras na estrada. Scott nos ensinou que barreiras são apenas desvios. Algumas pessoas vêem galhos: Scott e as crianças vêem espaços abertos, grandes o suficiente para que todo o amor e esperança que cabem no coração possam passar.

(Heidi Marotz)

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Diga apenas sim - de Fran Capo

“Ou a vida é uma aventura ousada, ou não é nada.” (Helen Keller)

Sou uma comediante de palco. Estava trabalhando em uma estação de rádio em Nova York, fazendo o boletim meteorológico como uma personagem chamada June East (irmã há muito desaparecida de Mae West). Certo dia, uma mulher do The Daily News telefonou e disse que queria fazer uma matéria comigo. Quando terminou a entrevista para a matéria, ela me perguntou:

- Quais são os seus planos daqui para a frente?

Bem, na época eu não tinha plano nenhum. Então perguntei o que ela queria dizer, tentando arrumar tempo. Ela disse que realmente queria acompanhar a minha carreira.

Ali estava uma mulher do The Daily News dizendo que estava interessada em mim!

Então achei que seria melhor dizer qualquer coisa. O que saiu foi: "Estou pensando em quebrar o recorde do Guiness Book de mulher de fala mais rápida do mundo."

O artigo do jornal saiu no dia seguinte e o redator incluíra minhas últimas declarações a respeito de tentar quebrar o recorde mundial de mulher de fala mais rápida do mundo. Por volta das cinco horas daquela tarde eu recebi um telefonema do show de televisão "Larry King Live" chamando-me para participar. Eles queriam que eu tentasse bater o recorde e disseram que me pegariam às oito porque queriam que eu fizesse aquilo naquela noite!

Agora, eu nunca ouvira falar de "Larry King Live" e quando ouvi a mulher dizer que eles eram do canal Manhattan, pensei: "Huum, isso é um canal pornô, certo?" Mas ela me assegurou pacientemente que o programa era em cadeia nacional e que a oferta era uma oportunidade única - e seria naquela noite ou nunca.

Fiquei olhando para o telefone. Eu tinha um show em Nova Jersey aquela noite, mas não foi difícil descobrir qual dos dois compromissos eu preferia cumprir. Tinha que encontrar um substituto para meu show às sete horas da noite e comecei a telefonar para todos os comediantes que conhecia. Pela graça de Deus, finalmente encontrei um que me substituiria e, cinco minutos antes do prazo final, disse à mulher que poderia participar do "Larry King Live".

Então sentei-me para tentar descobrir o que, diabos, eu iria fazer no show.

Telefonei para o Guiness para descobrir como quebrar um recorde de fala rápida. Disseram que eu teria que recitar algo de Shakespeare ou da Bíblia.

De repente comecei a dizer o salmo dezenove, uma oração de proteção que minha mãe havia me ensinado. Shakespeare e eu nunca nos déramos bem, então achei que a Bíblia era a única esperança.

Comecei a praticar e praticar, de novo e de novo. Estava nervosa e animada ao mesmo tempo.

Às oito horas da noite, a limosine veio me pegar. Pratiquei durante todo o caminho e, quando cheguei ao estúdio em Nova York, estava com a língua presa. Perguntei à responsável:

- E se eu não quebrar o recorde?

- Larry não está preocupado se você vai ou não quebrar o recorde - ela disse. - Ele só quer que você tente primeiro em seu programa. Então me perguntei: "Qual é a pior coisa que pode acontecer? Fazer papel de tola em cadeia nacional! Uma coisinha de nada", disse para mim mesma, achando que poderia sobreviver a isso.

"E se eu quebrasse o recorde?"

Então decidi apenas dar o melhor que podia, e assim fiz. Quebrei o recorde, tornando-me a mulher de fala mais rápida do mundo por falar 585 palavras em um minuto diante de uma audiência em cadeia nacional de televisão. (Eu o quebrei novamente dois anos depois, com 603 palavras em um minuto.) Minha carreira decolou.

As pessoas freqüentemente me perguntam como fiz aquilo. Ou como consegui fazer as muitas outras coisas que fiz, como dar uma palestra pela primeira vez, ou subir num palco pela primeira vez, ou pular de bungee jremp pela primeira vez.

Digo a elas que vivo minha vida seguindo esta simples filosofia: sempre digo sim primeiro.

Então pergunto: "E agora, como é que eu vou fazer para conseguir isso?"

Depois me pergunto: "Qual é a pior coisa que pode acontecer se eu não conseguir?" A resposta é: "Simplesmente não consegui! E qual é a melhor coisa que pode acontecer? Conseguir!" O que mais a vida pode lhe pedir? Seja você mesmo e divirta-se!

(Fran Capo)

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

As Marcas Da Vida - De Diana Golden

Minhas companheiras na Equipe Americana de Esqui para Deficientes costumavam brincar comigo a respeito do tamanho dos meus seios, dizendo que minha grande deficiência não era a falta de uma perna, mas a falta de material para encher um decote. Mal sabiam o quanto isso se tornaria verdade. Neste último ano, descobri pela segunda vez na vida que tenho câncer, desta vez em ambos os seios. Fiz uma mastectomia bilateral.

Quando ouvi que precisava da cirurgia, não pensei que seria um grande problema. Cheguei até a dizer, em tom de brincadeira, a minhas amigas: "Como amiga do peito, vou lhe manter a par da situação." Afinal de contas, eu havia perdido a perna em meu primeiro embate contra o câncer, quando tinha 12 anos de idade, e então fora em frente e me tornara campeã mundial de corrida de esquis. Todos nós na Equipe de Esqui para Deficientes não tínhamos uma ou outra parte do corpo. Vi que um homem em uma cadeira de rodas pode ser totalmente sexy. Que uma mulher sem mãos pode não parecer estar perdendo nada. O conjunto não tem nada a ver com as partes que estão faltando e tudo a ver com o espírito. Ainda assim, mesmo que eu soubesse disso, fiquei surpresa ao descobrir como era difícil me adaptar às minhas novas cicatrizes.

Quando voltei à consciência, após a cirurgia, comecei a chorar e a hiper-ventilar. De repente, descobri que não queria enfrentar a perda de mais partes do meu corpo.

Não queria fazer quimioterapia novamente. Não queria ser corajosa e forte e manter um perpétuo rosto sorridente. Não queria acordar nunca mais. Minha respiração ficou tão alterada que o anestesista me deu oxigênio e então, felizmente, colocou-me para dormir.

Quando eu estava correndo a fim de me preparar para minha competição de esqui - meu coração, pulmões e músculos da perna todos pegando fogo -, com freqüência era atingida pela sensação de que não havia sobrado recursos dentro de mim para continuar. Então eu pensava nas competições que viriam - o sonho de forçar o meu potencial até onde pudesse ir, a satisfação de ultrapassar minhas próprias barreiras - e isso me fazia terminar a corrida. A mesma tenacidade que me servia nas corridas de esqui me ajudou a sobreviver em um segundo combate contra o câncer.

Depois da mastectomia, eu sabia que a única maneira de continuar seria começar a me exercitar novamente, então dirigi-me para a piscina pública. No chuveiro comunitário, peguei-me observando os seios de outras mulheres pela primeira vez em minha vida. Seios grandes e seios pequenos, flácidos ou empinados. De repente, e pela primeira vez após todos esses anos sem uma perna, senti-me extremamente auto-consciente. Não conseguia me despir.

Resolvi que era hora de confrontar a mim mesma. Naquela noite, em casa, tirei toda a roupa e olhei longamente para a mulher no espelho. Ela era andrógina.

Peguei o meu rosto sem maquiagem, era o belo rosto de um menino. Os músculos do meu ombro, braços e mãos eram poderosos e musculosos por causa das muletas. Eu não tinha seios. Ao invés disso, havia duas cicatrizes proeminentes em meu peito. Possuía uma barriga chata e sexy, uma bunda redonda e quadris bem desenvolvidos, por causa de anos de corridas de esqui. Minha perna direita terminava em outra longa cicatriz logo abaixo do joelho.

Descobri que gostava de meu corpo andrógino. Combinava com a minha personalidade: meu lado masculino agressivo que adora colocar um capacete, braçadeiras e protetor de queixo para lutar no slalom e meu lado feminino gentil que deseja ter filhos algum dia e quer colocar um lindo vestido de seda, sair para jantar com um amante e então deitar-se e ser lentamente despida por ele.

Descobri que as cicatrizes no meu peito e na minha perna eram um grande problema. Eram as marcas da minha vida.

Todos nós somos marcados pela vida. Apenas algumas dessas cicatrizes aparecem mais do que outras. Nossas cicatrizes têm importância. Elas nos dizem que vivemos, que não nos escondemos da vida.

Quando vemos nossas cicatrizes claramente, podemos encontrar, como eu fiz naquele dia, nossa própria e lírica beleza. Na vez seguinte em que fui a piscina, tomei banho nua.

(Diana Golden)

terça-feira, 15 de setembro de 2009

A outra mãe - de Diane Payne

- Ei Sra. Prins!

Grito enquanto aceno na direção da janela de sua cozinha. Em cima do trepa-trepa, estico-me através da cerca que limita a escola em direção à sua casa, acenando freneticamente, mas ela parece não perceber. Seu marido, porém, percebe. Ele fecha as cortinas da cozinha.

A Sra. Prins é minha professora da terceira série, ainda que às vezes eu a chame acidentalmente de "mãe". Sei que ela não é minha mãe, mas não posso deixar de ter esperanças que ela me adote se minha mãe morrer de câncer. A Sra. Prins não sabe nada a respeito dessa esperança, mas sabe que eu gosto dela o suficiente para brigar depois da aula com os garotos que caçoam de sua boca virada para cima. Metade de sua boca está sempre sorrindo porque ela fez uma operação no nervo e as crianças sentam-se em suas cadeiras curvando metade da boca, caçoando da Sra. Prins pelas costas.

Enquanto me balanço no trepa-trepa, não consigo entender por que o Sr. Prins fechou as cortinas na minha cara. Isso faz tanto sentido quanto os meninos caçoarem da Sra. Prins.

Talvez ele não tenha me visto balançando nas barras, acenando a um metro e meio de distância de sua janela. Através das cortinas de sua sala de estar posso ver a Sra. Prins sentada no sofá lendo o jornal. Começo a acenar e a gritar olá novamente. O Sr. Prins se aproxima e fecha essas cortinas. Agora eu sei que ele me acha inconveniente.

Com todas as cortinas hermeticamente fechadas, permaneço no trepa-trepa do playground vazio, temendo ir para casa, desejando que o Sr. Prins não me considerasse uma peste. Se ele não estivesse lá, a Sra. Prins me convidaria para entrar. Só porque não há mais aulas naquele dia ela não pode começar a me considerar uma peste de repente.

No primeiro dia de aula, a Sra. Prins me perguntou:

- Você não é a garota que costumava ter aquele lindo cabelo longo?

Eu ainda não a conhecia e fiquei preocupada com o motivo de ela ter me notado.

Antes das aulas começarem, eu havia cortado meu cabelo para me assegurar de que não passaria mais um ano com uma professora cruel puxando meu cabelo cada vez que eu fizesse algo errado. Agora todo o meu cabelo está dentro de um saco de papel na gaveta da cômoda de minha mãe, a salvo de professoras cruéis. Parada no trepa-trepa com o cabelo curto, imagino como seria ter a Sra. Prins penteando meu cabelo longo enquanto sento-me a seu lado no sofá. Mas não há mais cabelo e as cortinas estão fechadas.

À medida que o céu escurece, a Sra. Prins entra em seu jardim e me oferece alguns biscoitos de manteiga de amendoim e um copo de leite. Ao invés de dar a volta no playground, pulo a cerca, esperando impressioná-la com minha força, mas ela parece preocupar-se quando rasgo minha camisa ao cair do outro lado da cerca.

Dessa vez não há sangue, só uma camisa rasgada, não um corpo machucado.

- Você não tem que ir para casa depois da escola? - ela pergunta.

- Claro, mas não imediatamente.

Sentamo-nos nas espreguiçadeiras comendo nossos biscoitos. Agora que estou finalmente em seu jardim, não sei o que dizer. - A senhora acabou de fazer esses biscoitos?

- Depois da aula.

- São os melhores que já comi - eu disse, certa de que ela os fizera especialmente para mim.

Quando termino os biscoitos, sei que é hora de voltar andando para casa através da colina de cerca de oitocentos metros. Agradeço à Sra. Prins pelos biscoitos, deixando sua casa silenciosa para trás, cortando caminho lentamente através das aléias e olhando por cima das cercas para os cachorros, imaginando se meu pai estará em casa para o jantar ou em um bar, bebendo. Sinto-me culpada por não ter ido imediatamente para casa para preparar o jantar, fazendo mamãe cozinhar quando sei que ela não está se sentindo bem. Imagino o que a Sra. Prins está fazendo para o jantar e resolvo que será iscas de peixe congeladas e uma caixa de macarrão com queijo. É isso o que nós vamos comer.

À noite, escrevo uma história a respeito de Pepper, nosso cachorro. A Sra. Prins quer que a turma escreva histórias sobre pessoas que são importantes para nós, mas parece que todos os humanos importantes para mim dariam uma história triste. Pepper é diferente. Está preso em casa, nem morrendo nem bebendo, apenas esperando alguém para brincar com ele.

Alguns dias depois de entregar minha história, a Sra. Prins me pergunta se pode falar comigo após a aula. Concordo e então passo o dia inteiro preocupando-me com o que devo ter feito errado. Três vezes vou ao banheiro chorar, certa de que, de alguma forma, eu feri seus sentimentos. Porém, depois da aula, a Sra. Prins tira minha história de dentro da gaveta de sua escrivaninha e pergunta:

- Posso ficar com isso?
- Por quê?
- Porque quero guardá-la em uma gaveta especial em casa com todas as minhas histórias favoritas.

Ela parece estar prestes a chorar e quero pedir-lhe a história de volta, apenas para ler o que eu disse que poderia fazê-la se sentir assim. Mas não posso falar sem chorar. Então ela me abraça e meus olhos se enchem de lágrimas.

Voltando para casa, sei que mesmo que eu nunca durma em sua casa, minha história dorme e isso é suficiente para fazer com que a Sra. Prins pareça ser minha mãe. Esta será minha mãe com metade do rosto sorrindo enquanto seus olhos se enchem de lágrimas. A mãe para quem posso olhar enquanto subo no trepa-trepa. E, mais importante, a mãe que entende minhas histórias.

(Diane Payne)

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Nenhum ato de caridade é pequeno - de Donna Wick

"Se eu puder impedir que um coração se parta,
Não terei vivido em vão;
Se eu puder aliviar o sofrimento de uma vida,
Ou diminuir a dor,
Ou ajudar um frágil rouxinol
A voltar novamente para seu ninho,
Não terei vivido em vão."

(Emily Dickinson)


O dia era quinta-feira de Ação de Graças, nosso "dia designado" de trabalho, uma tradição semanal que eu e minhas duas filhas pequenas começamos há alguns anos.

Quinta-feira é nosso dia de sair no mundo e fazer uma contribuição positiva. Nesta quinta-feira em especial não tínhamos idéia do que iríamos fazer, mas sabíamos que surgiria alguma coisa.

Dirigindo por uma estrada movimentada de Nouston, rezando por um sinal na busca para realizarmos nosso ato de caridade semanal, o meio-dia adequadamente provocou pontadas de fome em minhas duas filhinhas. Elas não perderam tempo em me dizer, cantando: "McDonald's, McDonald's, McDonald's" enquanto eu dirigia. Cedi e comecei a procurar seriamente pelo McDonald's mais próximo. De repente percebi que quase todos os cruzamentos pelos quais havíamos passado estavam ocupados por um pedinte. E então me dei conta! Se as duas pequenas estavam com fome, então todos aqueles pedintes também deviam estar.

Perfeito! Nosso ato de caridade havia surgido. Iríamos comprar comida para os pedintes.

Após encontrar um McDonald's e pedir dois lanches para minhas filhas, pedi mais quinze almoços extras e partimos para entregá-los. Foi animador. Parávamos perto de um pedinte, fazíamos uma contribuição e dizíamos a ele ou a ela que esperávamos que as coisas melhorassem. Então dizíamos:

- Por falar nisso, aqui está o almoço.

E então partíamos zunindo para o próximo cruzamento. Foi a melhor maneira de dar. Não havia tempo suficiente para nos apresentarmos ou explicarmos o que estávamos fazendo, nem havia tempo para que eles pudessem dizer nada para nós.

O ato de caridade foi anônimo e fortaleceu cada um de nós. Adoramos o que vimos pelo retrovisor: uma pessoa surpresa e encantada, segurando a sacola com o almoço e olhando para nós enquanto nos afastávamos. Foi maravilhoso!

Chegamos ao fim do nosso "itinerário" e havia uma mulher pequena pedindo um trocado. Entregamos nossa última sacola com o almoço e imediatamente fizemos o contorno para irmos para casa. Infelizmente o sinal fechou e paramos no mesmo cruzamento onde estava a mulher Fiquei envergonhada e não sabia como me comportar. Não queria que se sentisse obrigada a dizer ou fazer nada.

Ela se aproximou do carro. Então baixei o vidro quando começou a falar.

- Ninguém jamais fez nada parecido com isso para mim disse, espantada.

Respondi:

- Bem, fico feliz que tenhamos sido as primeiras. Sentindo-me constrangida e querendo mudar de assunto, perguntei:

- Então, quando você acha que vai comer seu almoço?

Ela apenas olhou para mim com seus grandes e cansados olhos marrons e disse:

- Oh, querida, não vou comer este almoço.

Fiquei confusa, mas, antes que eu pudesse dizer alguma coisa, ela continuou:

- Você sabe, também tenho uma filhinha em casa e ela adora McDonald's, mas nunca posso comprar nada para ela porque não tenho dinheiro. Mas sabe o que mais? Esta noite ela vai comer no McDonald's!

Não sei se as crianças perceberam as lágrimas nos meus olhos. Tantas vezes eu questionara se nossos atos de caridade eram pequenos ou insignificantes demais para realmente fazer alguma diferença. Ainda assim, naquele momento, reconheci a verdade nas palavras de Madre Teresa:

- Não podemos fazer grandes coisas, apenas coisas pequenas com muito amor.

(Donna Wick)

domingo, 13 de setembro de 2009

Então, o que você planta? - de Philip Chard

"Não somos ricos pelo que temos, mas sim pelo que não precisamos ter." (Emmanuel Kant)

Sandy mora em um apartamento tão pequeno que, quando chega do supermercado, tem que decidir o que pôr para fora a fim de abrir lugar para suas compras. Ela luta dia a dia para alimentar e vestir a si mesma e a sua filha de quatro anos com o dinheiro de trabalhos literários autônomos e de bicos.

Seu ex-marido desapareceu há muito por alguma auto-estrada desconhecida, provavelmente para nunca mais reaparecer. Dia sim, dia não, seu carro decide que precisa de uma folga e recusa-se a andar. Isto significa ir de bicicleta (se o tempo permitir), andar ou pegar uma carona com amigos.

As coisas que a maioria dos norte-americanos considera essenciais para a sobrevivência - televisão, forno de microondas, aparelho de som e tênis caros - estão lá embaixo na lista de "talvez algum dia" de Sandy.

Comida nutritiva, roupas quentes, um apartamento acolhedor, os pagamentos do empréstimo estudantil, livros para sua filha, consultas médicas absolutamente necessárias e uma ocasional matinê de cinema consomem todo o dinheiro que há.

Sandy bateu em mais portas do que pode se lembrar, tentando conseguir um emprego decente, mas sempre existe algo que não se encaixa perfeitamente - experiência insuficiente ou do tipo errado, ou horários que tornam impossível tomar conta de uma criança.

A história de Sandy não é incomum. Muitos pais e mães solteiras e pessoas idosas lutam com nossa estrutura econômica, caindo naquele espaço ambíguo que existe entre ser realmente auto-suficiente e ser suficientemente pobre para receber ajuda do governo.

O que torna Sandy incomum é seu ponto de vista.

- Não possuo muito, no sentido de ter coisas ou do sonho americano - contou-me com um sorriso sincero. - Isso a incomoda? - perguntei.

- Às vezes. Quando vejo outra menina com uma idade próxima à da minha filha que tem roupas bonitas e brinquedos bons, ou que está andando num carro chique ou morando numa bela casa, me sinto mal. Todo mundo quer ser bem sucedido para seus filhos - respondeu.

- Mas você não se amargura?

- Ficar amargurada com o quê? Não estamos passando fome ou frio e tenho o que realmente importa na vida - replicou.

- E o que é isso? - indaguei.

- Do meu ponto de vista, não importa quantas coisas você compre, não interessa quanto dinheiro ganhe, você só fica com três coisas na vida - falou.

- O que você quer dizer com "fica"?

- Quero dizer que ninguém pode tomar isso de você. - E que três coisas são essas? - perguntei.

- Primeiro, as suas experiências. Segundo, seus amigos verdadeiros. Terceiro, aquilo que você planta dentro de si mesmo - ela respondeu sem hesitar.

Para Sandy, as "experiências" não estão em grandes acontecimentos. São momentos considerados comuns com sua filha, passeios no bosque, tirar um cochilo debaixo da sombra de uma árvore, ouvir música, tomar um banho de banheira ou assar pão.

Sua definição de amigos é mais extensa.

- Os amigos verdadeiros são aqueles que nunca saem do coração, mesmo que saiam da sua vida durante algum tempo. Quanto ao que plantamos dentro de nós, Sandy disse:

- Isso cabe a cada um de nós, não é? Não planto amargura nem arrependimento. Poderia, se quisesse, mas prefiro não fazê-lo. - Então, o que é que você planta? - perguntei.

Sandy olhou carinhosamente para a filha e então novamente para mim. Apontou para seus próprios olhos, que estavam iluminados de ternura, gratidão e um brilho de felicidade.

- Eu planto isso.

(Philip Chard - Entregue por Laurie Waldron)

sábado, 12 de setembro de 2009

O que você quer será? - de Rev. Teri Johnson

“A imaginação é a maior pipa que se pode empinar.” (Lauren Bacall)

Tive um daqueles momentos felizes e inesperados há algumas semanas. Estava no quarto trocando a fralda de um dos bebês, quando nossa filha de cinco anos, Alyssa, entrou e pulou na cama ao meu lado.

- Mamãe, o que você quer ser quando crescer? - perguntou. Achei que ela estava fazendo algum jogo imaginário e, para entrar na brincadeira, respondi dizendo:

- Huum. Acho que gostaria de ser mãe quando crescer.
- Você não pode ser isso porque você já é mãe. O que você quer ser quando crescer?
- Está bem, talvez eu seja pastor de igreja quando crescer respondi a segunda vez.
- Mamãe, não, você já é isso!

- Desculpe-me, querida - eu disse. - Mas então não estou entendendo o que eu devo dizer.
- Mamãe, só responda o que você quer ser quando crescer. Você pode ser qualquer coisa que quiser!

A esta altura eu estava tão enternecida com a experiência que não pude responder imediatamente. Alyssa desistiu e saiu do quarto.

Esta experiência - esta minúscula experiência de cinco minutos - tocou fundo dentro de mim.

Fiquei emocionada porque, aos olhos jovens de minha filha, eu ainda podia ser qualquer coisa que quisesse ser! Minha idade, minha carreira atual, meus cinco filhos, meu marido, meu diploma, meu mestrado - nada disso tinha importância.

Aos seus olhos jovens eu ainda podia sonhar e tentar alcançar as estrelas. Aos seus olhos jovens meu futuro não havia acabado. Aos seus olhos jovens eu ainda podia ser astronauta, pianista ou até mesmo cantora de ópera, talvez. Sob seu olhar jovem eu ainda tinha que crescer mais e tinha muito "ser" sobrando em minha vida.

A verdadeira beleza daquele encontro com minha filha foi quando eu percebi que, com toda sua honestidade e pureza, ela teria feito a mesma pergunta a seus avós ou a seus bisavós.

Já foi escrito: "A mulher velha que irei me tornar será bastante diferente da mulher que sou agora. Outro eu está começando..."

Então, o que você quer ser quando crescer?

(Rev. Teri johnson)

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Problema ou solução - de Edgar Bledsor

Era 1933. Eu havia sido demitido de meu emprego de meio expediente e não podia mais contribuir para a despesa familiar. Nossa única renda era o que mamãe conseguia ganhar fazendo roupas para os outros.

Então mamãe ficou doente durante algumas semanas e incapaz de trabalhar. A companhia elétrica veio e cortou a força quando não conseguimos pagar a conta. Depois foi a companhia de água. Mas o Departamento de Saúde os fez religar a água por motivos sanitários. A despensa ficou quase vazia. Felizmente, tínhamos uma pequena horta e podíamos cozinhar os legumes numa fogueira no quintal.

Um dia minha irmã mais nova veio saltitante da escola para casa dizendo:

- Amanhã temos que levar para a escola alguma coisa para dar aos pobres.

Mamãe começou a esbravejar, dizendo:

- Não conheço ninguém mais pobre do que nós!

Mas a mãe dela, que estava morando conosco na época, a fez calar, franzindo as sobrancelhas e tocando-lhe o braço:

- Eva - disse -, se você passar para uma criança a idéia de que ela é "pobre" com essa idade, ela será "pobre" para o resto da vida. Sobrou um pote daquela geléia caseira. Ela pode levar aquilo.

Vovó achou um pedaço de papel de seda e um pedacinho de fita cor-de-rosa com os quais embrulhou nosso último pote de geléia, e minha irmã foi saltitando para a escola no dia seguinte levando orgulhosamente seu "presente para os pobres".

E, para sempre depois disso, se havia um problema na comunidade, minha irmã naturalmente presumia que ela deveria ser parte da solução.

(Edgar Bledsor)

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

A Senhora George - de William L. Rush

Encontrei a Sra. George, a professora do novo Ginásio Dr. J. P. Lord, pela primeira vez em uma pequena sala planejada para um professor e um aluno.

O aposento fora convertido em sala de aula para quatro garotos adolescentes. Três de nós estavam em cadeiras de rodas e um andava com uma bengala. Todos ali na sala possuíam uma variedade de problemas médicos. O aluno com a bengala era legalmente cego. Quanto aos três em cadeiras de rodas, um era vítima de um tiro na cabeça, um tinha distrofia muscular e o outro paralisia cerebral.

Eu era o que tinha paralisia cerebral. Quando tentei falar, a Sra. George brincou comigo dizendo que parecia o chamado de acasalamento de um alce.

Cada um de nós tinha necessidades acadêmicas e emocionais diferentes, variando de se preparar para a faculdade até a se preparar para a morte. A Sra. George fez tudo o que pôde para ajudar a primeira turma do Ginásio Dr. J. P. Lord.

A Sra. George, com cinqüenta e poucos anos, cerca de um metro e meio de altura, cabelos negros que estavam ficando grisalhos (e que ficariam muito mais grisalhos ao final do ano letivo), pele azeitonada e uma voz estridente. Tinha o hábito de falar rápido demais e terminava suas explicações com "entende?".

Ela nos cumprimentou no primeiro dia de aula dizendo animadamente:

- Bom dia, rapazes. Esta sala foi arrumada no último minuto, mas acho que vai dar tudo certo. Este ginásio é o primeiro de seu tipo em Nebraska, portanto, somos pioneiros. Os pioneiros têm que agüentar alguns problemas. Sei que vocês se conhecem, a não ser Bill e David. David, este é o Bill. Ele tem paralisia cerebral.

Largou a escola mais ou menos quando você entrou, porque esta escola não tinha ginásio na época. Bill, David é um estudante havaiano de intercâmbio e tem distrofia muscular.

Fará dezenove anos no dia 6 de maio. Daremos uma festa de aniversário com dançarinas.

Imaginei se ela sabia o que era distrofia muscular. Eu sabia que David não iria durar até seu aniversário. Ele já fizera mais aniversários do que a maioria das pessoas que sofrem de sua doença. Seus pulmões já haviam sido afetados, o que significava que teria que se esforçar o ano todo para respirar.

- Agora vamos começar com o que eu quero que vocês façam. Tenho expectativas a respeito de todos, entendem? - declarou a nova e idealista professora.

Quando ela veio até mim, eu estava classificando rochas para preencher uma exigência da aula de Ciência Naturais. Sentando-se a meu lado, ela disse:

- Ouvi dizer que você está fazendo um curso por correspondência da Universidade de Nebraska, em Lincoln, e que progrediu muito nos últimos três anos. Sei que esses cursos são difíceis e exigem muito tempo. Mas vou ajudá-lo e iremos tentar a formatura na próxima primavera. Também irei lhe dar o almoço na boca, se estiver tudo bem para você. Sei que você preferiria uma daquelas mocinhas recém-saídas da faculdade, mas não tem como se livrar de mim. Alguma pergunta?

- Acho que David não chega até o seu aniversário. Seus pulmões estão fracos demais e os invernos são difíceis para qualquer um - escrevi lentamente no painel com uma caneta de feltro presa em minha cabeça.

- Nós sabemos disso, mas ele não sabe. Da mesma forma que você quer aquele diploma, David quer seu bolo de aniversário de dezenove anos.

A Sra. George cumpriu sua palavra. Terminei meus cursos e comecei outros com uma velocidade impressionante. Entretanto, David piorou durante a época do Natal.

Tinha medo de dormir à noite, pois pensava que não acordaria mais. Então a Sra. George deixava que ele dormisse durante a aula, dizendo:

- Temos um hospital do outro lado da rua e, se tivermos que visitá-lo, poderemos estar lá em cinco minutos. Portanto, David, você está mais seguro aqui do que em qualquer outro lugar.

Uma vez, quando David estava tendo problemas para respirar, ela teve que massagear seu peito durante toda a tarde. Enquanto o fazia, disse para o fisioterapeuta-assistente de pé ao lado do oxigênio:

- David está me ajudando a fortalecer meu braço para jogar tênis, então, se você vir uma mulher de um metro e meio com bíceps desenvolvidos na quadra de tênis, sou eu. Isso é um exercício fantástico! Entende?

Um dia estávamos discutindo algum assunto entediante para meu curso de História Mundial quando ela disse:

- Quando estou trabalhando com os outros dois rapazes não posso monitorar a respiração de David, então vou encarregar você, Bill, está bem? Se ele tiver um colapso, faça um dos seus barulhos de alce para chamar minha atenção. Ele não parece bem, parece? Mas vamos mantê-lo na escola o maior tempo possível. Pelo menos sua mãe não tem que tomar conta dele quando ele está aqui. Agora devemos ser capazes de terminar este maldito curso de História em março, se tivermos sorte. Este é um curso chato e tenho certeza de que você está cheio dele, porque eu estou!

Freqüentemente, quando estava tentando respirar, David olhava para mim e dizia:

- Estou bem, Bill. Estou bem. Obrigado por tomar conta de mim.

Felizmente, meu som de alce nunca foi necessário. A vigília, entretanto, me amadureceu imensamente. Eu observava David e, ao fazê-lo, tornei-me consciente de seu desejo de viver. Vendo-o lutar a cada respiração que tomava, de repente compreendi o valor da vida. Então, quando tinha que fazer alguma pesquisa tediosa, não me importava, porque pelo menos podia fazê-lo sem ter que me preocupar em respirar.

Acho que esta era a lição que a Sra. George estava me ensinando ao fazer com que eu tomasse conta de David.

O dia 10 de abril foi o último dia de aula de David. Naquela noite ele piorou. Foi levado às pressas para o hospital, onde máquinas podiam manter sua respiração.

No dia 15 de abril de 1975, eu havia planejado visitá-lo depois da aula. Mas, naquela manhã, encontrei um bilhete escrito à mão ao lado de minha máquina de escrever dizendo:

"Não vá ao hospital hoje à noite. David morreu dormindo. Não quis contar aos outros porque hoje a escola vai ao circo e não há motivos para estragar isso.
Choraremos juntos por ele. J. George."

Ainda que a Sra. George possa não ter realizado o sonho de David de um aniversário de dezenove anos (Deus sabe que ela tentou!), ela fez com que meu sonho de me formar no segundo grau se tornasse realidade. Fiquei sentado no palco em uma tarde quente de maio em 1976, ouvindo o começo da música O Sonho Impossível, as palavras servindo perfeitamente à mulher vestida de amarelo, observando com orgulho enquanto eu recebia meu diploma, porque ela "sonhara o sonho impossível" e fizera com que ele se tornasse realidade.

(William l. Rush)

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

O escritor - de Willy Mcnamara

"Posso sobreviver dois meses com um elogio." (Mark Twain)

A vida do século dezenove não era fácil para o rapaz londrino. Enquanto seu pai definhava na cadeia por causa de dívidas, dores excruciantes de fome corroíam seu estômago. Para alimentar-se, o garoto aceitou um emprego colando rótulos em garrafas de graxa em um lúgubre armazém infestado de ratos. Dormia em um quarto desolador no sótão com dois outros rapazolas, enquanto sonhava secretamente tornar-se escritor. Tendo estudado apenas quatro anos, possuía pouca segurança em suas habilidades.

A fim de evitar os risos zombeteiros que esperava, escapou furtivamente no meio da noite para enviar seu primeiro manuscrito.

Uma história depois da outra era recusada até que, finalmente, uma foi aceita. Não o pagaram por ela, mas, ainda assim, um editor elogiou seu trabalho.

O reconhecimento que recebeu através da impressão daquela história mudou sua vida. Se não fosse pelo encorajamento daquele editor, ele poderia ter passado toda a sua vida trabalhando em uma fábrica infestada de ratos.

Você pode ter ouvido falar nesse garoto, cujos livros causaram tantas mudanças no tratamento dado às crianças e aos pobres: seu nome era Charles Dickens.

(Willy Mcnamara)

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Voando livre - de Laourie Waldron

“Não é fácil encontrar a felicidade em nós mesmos e é impossível encontrá-la em outro lugar.” (Agnes Repplier)

Uma casa nova, uma piscina nos fundos, dois belos carros na garagem e meu primeiro filho a caminho.

Faltavam apenas alguns dias para eu dar à luz o meu primeiro filho quando uma conversa com meu marido abalou o mundo em que eu vivia.

- Eu quero estar presente para o bebê, mas acho que não te amo mais - ele falou.

Eu não conseguia acreditar no que estava ouvindo! Ele se afastara de mim durante a gravidez, mas eu relacionara isso ao seu medo e preocupação em se tornar pai.

Enquanto eu o sondava em busca de explicações, ele me contou que tivera um caso cinco anos antes e desde então não sentia a mesma coisa por mim. Pensando apenas no meu bebê e querendo salvar meu casamento, disse-lhe que podia perdoá-lo e que queria consertar as coisas entre nós.

Aquela última semana antes do nascimento de meu filho foi um passeio emocional numa montanha-russa. Estava tão animada com o bebê, com tanto medo de estar perdendo meu marido e sentindo-me tão culpada às vezes, pois achava que era culpa do bebê isso tudo estar acontecendo.

John nasceu numa sexta-feira de julho. Era tão lindo e inocente. Não fazia idéia do que estava acontecendo no mundo de sua mãe. Estava com quatro semanas quando descobri o verdadeiro motivo do afastamento de seu pai. Não apenas ele tivera um caso cinco anos antes, mas começara a ter um caso durante minha gravidez, e continuava a ter. Então, quando ele estava com cinco semanas, John e eu abandonamos a casa nova, a piscina e todos os meus sonhos desfeitos para trás. Mudamos para um apartamento do outro lado da cidade.

Não sabia que existia depressão tão profunda quanto a que eu entrei. Nunca havia experimentado nada igual à solidão de passar uma hora depois da outra sozinha com uma criança recém-nascida. Alguns dias aquela responsabilidade toda me esmagava e eu tremia de medo. A família e os amigos estavam lá para ajudar, mas, ainda assim, havia muitas horas cheias de pensamentos a respeito de sonhos desfeitos e desespero.

Eu chorava com freqüência, mas me assegurei de que John nunca me visse chorando. Estava determinada a não deixar que isso o afetasse. De algum lugar dentro de mim eu sempre encontrava um sorriso para ele.

Os primeiros três meses da vida de John passaram num borrão de lágrimas. Voltei ao trabalho e tentei esconder de todo mundo o que estava acontecendo. Tinha vergonha, ainda que não soubesse por quê.

Cheguei ao fundo do poço num domingo de manhã, quando John estava com quatro meses. Acabara de ter outra discussão emocional com meu marido e ele saíra como um furacão do meu apartamento. John estava dormindo em seu berço e me peguei sentada no chão do banheiro, encolhida como uma bola, balançando para frente e para trás. Ouvi-me dizendo em voz alta: "Eu não quero mais viver." Depois de dizer isso, o silêncio foi arrebatador.

Acredito que Deus esteve comigo naquele dia. Após dizer aquilo, fiquei sentada em silêncio, deixando as lágrimas correrem pelo meu rosto. Não sei quanto tempo se passou, mas de algum lugar de dentro de mim surgiu uma força que eu não havia sentido antes. Decidi naquele momento tomar o controle da minha vida. Não iria mais dar ao meu marido o poder de afetar minha vida de uma forma tão negativa.

Percebi que, ao prestar tanta atenção em suas fraquezas, estava permitindo que aquelas fraquezas arruinassem a minha vida.

Naquele mesmo dia, arrumei uma mala para mim e John e fui passar o fim de semana na casa do meu irmão. Era a primeira viagem que fazia sozinha com John e me senti tão forte e independente! Lembro-me de que durante a viagem de duas horas eu ri, conversei e cantei para John por todo o caminho. Foi durante esta viagem que percebi como meu filho fora meu salvador durante todos aqueles meses. Saber que ele estava lá todos os dias e que precisava de mim me mantivera viva e me dera uma razão para me levantar todas as manhãs.

Que bênção ele era na minha vida!

Daquele dia em diante, decidi concentrar-me na confiança e na força que me fizeram levantar do chão do banheiro. Ter mudado minha atenção para pensamentos tão positivos transformou a minha vida. Senti vontade de rir novamente e de estar na companhia dos outros pela primeira vez em meses. Iniciei o processo de descobrir o indivíduo que mantive escondido dentro de mim durante tanto tempo - um processo que ainda estou apreciando.

Comecei a fazer terapia logo depois de John e eu termos nos mudado da casa e continuei com ela durante vários meses depois do dia em que cheguei ao fundo do poço.

Quando não senti mais necessidade de ter seu apoio e aconselhamento, lembrei-me da última pergunta que minha terapeuta me fez antes que eu saísse de seu consultório naquele dia:

- O que você aprendeu? - ela perguntou. Não hesitei em responder:

- Aprendi que minha felicidade tem que vir de dentro.

É esta lição de que me lembro todos os dias e que desejo partilhar com os outros. Cometi o erro, na minha vida, de basear minha identidade em meu casamento e em todas as coisas materiais que cercavam a relação. Aprendi que sou responsável por minha própria vida e felicidade. Quando centralizo minha vida em outra pessoa e tento construir minha vida e minha felicidade em volta daquela pessoa, não estou vivendo de verdade. Para viver de verdade preciso deixar que o espírito dentro de mim seja livre e regozije-se em sua singularidade.

É neste estado de ser que o amor de outra pessoa se torna uma alegria e não algo que temos medo de perder.

Que o seu espírito seja livre e voe alto!

(Laourie Waldron)

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

O ingrediente secreto - de Martha de Dot Abraham

Aquilo incomodava Ben cada vez que passava pela cozinha. Era a pequena caixa de metal na prateleira em cima do fogão de Martha. Provavelmente não teria prestado muita atenção ou se incomodado daquela forma se Martha não tivesse repetido tanto para ele nunca pegar nela. O motivo, dizia, era que a caixa continha uma "erva secreta" da sua mãe, uma erva que ela jamais poderia repor, não podendo, portanto, correr o risco de que Ben ou quem quer que fosse a abrisse, derramando acidentalmente seu precioso conteúdo.

A caixa não tinha nada de especial. Era tão velha que a maior parte do vermelho e dourado das suas flores originais havia desbotado. Podia-se dizer exatamente onde havia sido pegada vezes sem conta quando a levantavam e puxavam a tampa justa.

Não eram só os dedos de Martha que haviam encostado ali, mas também os dedos da sua mãe e da sua avó. Martha não tinha certeza, mas achava que talvez até mesmo sua bisavó tivesse usado a mesma caixa e sua "erva secreta".

Tudo o que Ben sabia com certeza era que, pouco depois de ter casado, a mãe dela trouxera a caixa para Martha e lhe dissera para usar o conteúdo da mesma forma amorosa com que ela o havia usado.

E ela o usou, fielmente. Ben nunca viu Martha preparar um prato sem tirar a caixa da prateleira e colocar uma pitada da "erva secreta" por cima dos ingredientes.

Mesmo quando assava bolos, tortas ou biscoitos, ele a via adicionando uma pitadinha imediatamente antes de colocar as formas no forno.

O que quer que houvesse na caixa com certeza funcionava, pois Ben achava que Martha era a melhor cozinheira do mundo. Não era o único a ter essa opinião – qualquer um que comesse em sua casa elogiava efusivamente a comida de Martha.

Mas por que ela não deixava Ben tocar naquela caixinha? Será que realmente tinha medo de ele derramar o conteúdo? E qual era a aparência da "erva secreta"? Era tão delicada que, todas as vezes que Martha salpicava um pouco em cima da comida, Ben não conseguia descobrir qual a sua textura. Ela obviamente tinha que usar muito pouco, pois não havia como encher a caixa novamente.

De alguma maneira, Martha tinha conseguido fazer o conteúdo render durante os trinta anos de casamento, até aquela data. Nunca deixava de produzir resultados de dar água na boca.

Ben ficava cada vez mais tentado a olhar apenas uma vez no interior da caixa, mas nunca chegou a fazê-lo.

Até que um dia Martha ficou doente. Ben a levou para o hospital, onde a internaram para passar a noite. De volta em casa, sentiu-se extremamente solitário. Martha nunca tinha passado a noite fora. Quando a hora do jantar foi chegando, pensou no que fazer para comer - Martha gostava tanto de cozinhar que ele nunca havia se preocupado em aprender a cozinhar.

Enquanto perambulava pela cozinha, procurando o que havia na geladeira, viu imediatamente a caixa na prateleira. Ela atraía seus olhos como um ímã. Desviou rapidamente o olhar, mas a curiosidade fez com que olhasse de novo.

A curiosidade o importunava.

O que havia na caixa? Por que ele não devia pegar nela?

Qual era a aparência da "erva secreta"? Quanto havia sobrado? Ben afastou o olhar e levantou a tampa de uma grande fôrma de bolo no balcão da cozinha. "Ah, ainda havia mais da metade de um dos maravilhosos bolos de Martha." Cortou um bom pedaço, sentou-se à mesa da cozinha e não havia dado a segunda mordida quando seus olhos se voltaram mais uma vez para a caixa. Que mal havia em olhar dentro? De qualquer forma, por que Martha mantinha tanto segredo?

Ben deu outra mordida e debateu consigo mesmo - deveria ou não? Durante mais cinco longas mordidas ele pensou no que fazer, olhando fixo para a caixa. Afinal, não conseguiu mais resistir.

Atravessou lentamente o aposento e tirou a caixa da prateleira com todo o cuidado - temendo, horror dos horrores, derramar o conteúdo enquanto dava uma olhadela.

Colocou a caixa no balcão e tirou cuidadosamente a tampa. Estava quase com medo de olhar lá dentro! Quando viu o interior da caixa, os olhos de Ben se arregalaram - a caixa estava vazia, a não ser por um pedacinho de papel dobrado no fundo.

Ben tentou pegar o papel, sua mão grande e áspera lutando para entrar. Pegou-o pelo canto, tirou-o e desdobrou-o cuidadosamente sob a luz da cozinha.

Um bilhete curto estava rabiscado e Ben imediatamente reconheceu a letra como sendo a da mãe de Martha. De maneira simples, dizia: "Martha, em tudo o que fizer, acrescente uma pitada de amor."

Ben engoliu em seco, recolocou o bilhete e a caixa no lugar e voltou silenciosamente para terminar o bolo. Agora entendia, realmente, por que tinha um gosto tão bom.

(Entregue por Dot Abraham, Revista Reminisce)

domingo, 6 de setembro de 2009

O som de mãos batendo palmas - de Tim Hansel

Existe uma história maravilhosa a respeito de Jimmy Durante, um dos grandes artistas de teatro de variedades de algumas gerações atrás. Pediram-lhe que fizesse parte de um show para veteranos da Segunda Guerra Mundial. Ele disse que estava com a agenda muito ocupada e que poderia ceder apenas alguns minutos, mas que, se não se importassem de ele fazer um monólogo curto e partir imediatamente para seu próximo compromisso, ele iria.

É claro que o diretor do espetáculo concordou alegremente.

Mas quando Jimmy subiu no palco algo interessante aconteceu. Ele acabou o pequeno monólogo e ficou. Os aplausos ficaram cada vez mais altos e ele continuou ali - quinze, vinte, então trinta minutos. Finalmente, fez sua última reverência e saiu do palco. Na coxia alguém o deteve e disse:

- Achei que o senhor tinha que partir depois de alguns minutos. O que aconteceu?

Jimmy respondeu:

- Eu realmente tinha que ir, mas posso lhe mostrar o motivo pelo qual fiquei. Você mesmo pode ver se olhar para a primeira fila.

Na primeira fila estavam dois homens, cada um dos quais havia perdido um braço na guerra. Um perdera o braço direito e o outro, o esquerdo. Juntos, eram capazes de aplaudir e era exatamente isso o que estavam fazendo, bem alto e alegremente.

(Tim Hansel)

sábado, 5 de setembro de 2009

Privação dos sentidos - de Deborah E. Hill

Quero sair para dançar, usar um vestido que rodopie e flutue em volta de mim e rir.

Quero sentir a luz trêmula da seda enquanto ela escorrega pelos meus braços e pelo meu corpo, a alegria de tocar com os dedos sua maciez.

Quero dormir na minha própria cama e regalar-me na frescura dos lençóis limpos e descansar minha cabeça em meu travesseiro macio. E ir dormir quando quiser, com todas as luzes apagadas e acordar quando estiver pronta.

Quero me esticar em meu sofá debaixo da minha manta de lã azul e ouvir minha música favorita escoar dos alto-falantes para dentro do meu ser, regando a paisagem ressequida da minha alma.

Quero sentar-me na varanda, bebericar café quente de minha caneca de faiança, ler o jornal e ouvir o cachorro latir para as folhas que caem ou para esquilos invasores.

Quero atender o telefone e ligar para os meus amigos e família e conversar até termos colocado em dia todas as palavras que guardamos um para o outro, e rir.

Quero ouvir o trem apitar através de Loveland, o cascalho sendo esmagado na porta da garagem e portas de carros batendo quando os amigos vêm nos visitar. E o tilintar e tinir dos talheres contra a louça, o chiado e o gorgolejo da máquina de fazer café.

Quero sentir meus pés descalços na brancura fria do chão da minha cozinha e na maciez azul do tapete do meu quarto. Quero ver as cores, todas elas, cada cor jamais fiada na existência. E branco, branco de verdade, puro e imaculado. E acres de árvores verdes e quilômetros de estradas com fitas amarelas e centenas de metros de luzes de Natal. E a Lua. Quero sentir o cheiro de bacon fritando, um filé grelhado. Jantar de Ação de Graças e a plantação de tomates de meu pai. E roupa recém-lavada, asfalto novo em um estacionamento. E o oceano.

Porém, mais do que tudo isso, quero ficar de pé na porta do quarto do meu filho e vê-lo dormindo. Ouvi-lo acordar pela manhã e vê-lo voltar para casa à noite. Tocar seu rosto e passar meus dedos por seu cabelos. Pegar uma carona em seu caminhão e comer seus sanduíches de queijo quente.

E vê-lo crescer, rir, brincar, comer, dirigir e viver. Acima de tudo, de tudo, viver. E passar meus braços à sua volta e segurá-lo até ele rir e dizer:

- Já chega, mamãe!

E então ser livre para fazer tudo de novo.

(Deborah e. Hill)

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Carrinho vermelho - de Patricia Lorenz

Nota do editor. O texto a seguir nos foi enviado por uma prisioneira. Não sabemos qual o crime que ela cometeu.

Para ser completamente honesta, o primeiro mês foi muito feliz. Quando Jeannie, Julia, Michael - com as idades de seis, quatro e três anos - e eu nos mudamos de St. Louis para minha cidade natal no norte de Illinois exatamente no dia do meu divórcio, eu estava feliz apenas em encontrar um lugar onde não haveria brigas nem abusos.

Porém, depois do primeiro mês, comecei a sentir saudades de meus antigos vizinhos e amigos. Senti saudades de nossa adorável casa de tijolos no subúrbio de St. Louis, moderna, estilo rancho, especialmente depois que nos ajeitamos na casa de madeira branca de noventa e oito anos de idade que alugamos, que era tudo o que minha renda pós-divórcio podia pagar.

Em St. Louis tínhamos todos os confortos: uma lavadora, secadora, lava-louças, TV e carro. Agora não tínhamos nada disso. Depois do primeiro mês em nossa nova casa, parecia-me que tínhamos passado do conforto da classe média para o pânico no nível da pobreza.

Os quartos do andar de cima de nossa velha casa não possuíam nem aquecimento, mas, de alguma forma, as crianças não pareceram perceber. O chão de linóleo, frio, contra seus pezinhos, simplesmente os encorajava a se vestirem mais rápido pela manhã e a pular mais rápido para dentro da cama à noite.

Reclamei do frio enquanto o vento de dezembro assobiava por todas as janelas e portas daquela velha casa de madeira. Mas as crianças riam dos "lugares engraçados de ar" e simplesmente se aninhavam debaixo das pesadas mantas que tia Bernardine trouxera no dia em que nos mudamos.

Eu estava louca sem televisão.

- O que faremos à noite sem televisão? - perguntei. Senti-me trapaceada pelo fato de as crianças perderem todos os especiais de Natal. Mas meus três filhinhos eram mais otimistas e muito mais criativos do que eu. Sacaram seus jogos e me imploraram para jogar Terra dos Doces e Três Marias com eles. Nos aconchegamos juntos no esfarrapado sofá cinza que o senhorio fornecera e lemos um livro de ilustrações depois do outro retirados na biblioteca pública. Por insistência deles ouvimos discos, cantamos canções, fizemos pipoca, criamos magníficas torres de blocos e brincamos de esconde-esconde em nossa velha casa. As crianças me ensinaram como se divertir sem televisão. Numa fria manhã de dezembro, apenas uma semana antes do Natal, depois de andar mais de três quilômetros para casa de meu trabalho de meio expediente em uma loja de departamentos, lembrei-me de que tinha que lavar a roupa da semana naquela noite. Eu estava exausta de tanto levantar e selecionar os presentes de Natal dos outros e um tanto amarga, sabendo que eu mal poderia comprar algum presente para meus próprios filhos.

Assim que peguei as crianças na casa da babá, empilhei quatro cestas grandes cheias de roupa suja dentro de um carrinho vermelho e nós quatro nos dirigimos para a lavanderia, a três quadras de distância. Dentro, tivemos que esperar pelas máquinas de lavar e, depois, que as pessoas liberassem as mesas para dobrar as roupas. Selecionar, lavar, secar e dobrar levaram mais tempo do que o normal.

Jeanne perguntou:
- Você trouxe passas ou biscoitos, mamãe?
- Não, vamos jantar assim que chegarmos em casa - respondi asperamente.

O nariz de Michael estava pressionado contra a janela de vidro embaçada.
- Olhe, mamãe! Está nevando! Flocos grandes! Julia acrescentou:
- A rua está toda molhada. Está nevando no ar, mas não está nevando no chão!

A animação deles apenas me deixou mais irritada. Como se o frio não fosse ruim o suficiente, agora tínhamos que lidar com a neve e a lama. Eu ainda nem abrira a
caixa com as botas e luvas.

Finalmente, as roupas limpas e dobradas estavam empilhadas nas cestas, colocadas no carrinho vermelho. Lá fora estava escuro como breu. Já eram seis e meia? Por isso estavam com tanta fome. Normalmente jantávamos às cinco!

As crianças e eu abrimos caminho através do frio vento da noite e deslizamos pela calçada lamacenta. Nossa procissão de três crianças pequenas, uma mãe rabugenta e quatro cestas de roupa limpa em um velho carrinho vermelho movia-se lentamente, enquanto o vento gelado feria nossos rostos.

Atravessamos a tumultuada rua de quatro pistas na faixa de pedestres. Quando chegamos ao meio-fio, as rodas da frente escorregaram no gelo e viraram o carrinho de lado, derrubando todas as roupas em uma poça de lama preta.

- Oh, não! - gemi. - Pegue as cestas, Jeanne! Julia, segure o carrinho! Volte para a calçada, Michael!

Joguei as roupas sujas e molhadas dentro das cestas.

- Eu odeio isso! - gritei. Lágrimas de raiva jorraram dos meus olhos. Eu odiava ser pobre, não ter um carro nem uma lavadora ou uma secadora. Odiava o tempo. Odiava ser o único dos pais responsável por meus três filhos. E, sem dúvida, realmente odiava toda a porcaria do Natal.

Quando chegamos em casa, eu destranquei a porta, arremessei minha bolsa através da sala e fui para o quarto chorar batendo com os pés no chão.

Solucei alto o suficiente para que as crianças pudessem ouvir. Egoistamente, queria que eles soubessem o quanto eu estava infeliz. A vida não podia ficar pior.

A roupa ainda estava suja, estávamos todos cansados e com fome, não havia comida pronta e nenhuma perspectiva de um futuro melhor.

Quando as lágrimas finalmente pararam, sentei-me e fiquei olhando para uma placa de madeira com Jesus entalhado pendurada na parede ao pé da minha cama. Eu tinha aquela placa desde criança e a carregara comigo para todas as casas em que morara. Mostrava Jesus com os braços abertos sobre a Terra, obviamente resolvendo os problemas do mundo.

Fiquei olhando para seu rosto, esperando um milagre. Olhei, esperei e finalmente disse em voz alta:

- Deus, será que não pode fazer alguma coisa para melhorar a minha vida?

Eu queria desesperadamente que um anjo, em uma nuvem, descesse e me resgatasse.

Mas não apareceu ninguém, a não ser Julia, que espiou pela porta do meu quarto e me disse com a sua melhor vozinha de quatro anos que tinha colocado a mesa para o jantar.

Eu podia ouvir Jeanne, de seis anos de idade, na sala de estar, separando a roupa em duas pilhas, "muito suja, meio limpa, muito suja, meio limpa".

Michael, de três anos, apareceu no meu quarto e me deu um desenho da primeira neve que ele acabara de fazer.

E sabe o que mais? Naquele exato instante eu vi não um, mas três anjos diante de mim: três pequenos querubins eternamente otimistas e, mais uma vez, me puxando da tristeza e da melancolia para o mundo de "as coisas vão melhorar amanhã, mamãe".

O Natal naquele ano foi mágico, pois nos rodeávamos de um tipo especial de amor que se baseia na felicidade de fazermos juntos coisas simples. Uma coisa é certa: ser mãe solteira nunca mais foi tão amedrontador ou deprimente quanto na noite em que a roupa limpa caiu do carrinho vermelho. Esses três anjos de Natal mantiveram meu espírito vivo; e, mesmo hoje em dia, mais de vinte anos depois, eles continuam a encher meu coração com a presença de Deus.

(Patricia Lorenz)

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Rosas cor de lavanda de Charles A. Hard

Meus estudos a respeito do autismo começaram nos anos 40. Sendo a criança mais nova de nossa família, com cerca de quatro anos eu sabia que Scott era o nosso segredo, um constrangimento que mandávamos para um quarto dos fundos quando tínhamos visitas. Sua dor e a dor que ele nos causava eram muito íntimas para serem partilhadas com os outros. Minhas irmãs e eu saímos de casa assim que nos foi possível, casando cedo ou estudando em universidades do outro lado do país.

Anos mais tarde eu ouvi uma psicóloga classificar nosso comportamento como "fuga de irmãos". Foi realmente uma debandada, mas Scott não nos expulsou. O medo, a vergonha e a confusão tornaram nossa casa insuportável.

Bem pequeno, eu achava que a deficiência de Scott era a pior sina que uma família podia sofrer. Vi meus pais se curvarem sob o fardo e sabia que eu não poderia segui-los. Poderia acontecer novamente? Seria possível que eu fosse pai de "uma criança que nunca cresce"?

Esse medo me assombrou durante meus vinte anos, mas, após cinco anos de casamento, eu sabia que teria que começar uma família ou perderia a mulher que amava. Troquei meus pesadelos por esperanças e concebemos nosso primeiro filho.

No nascimento de Ted eu importunei o médico, querendo que ele me assegurasse: haveria chance - mesmo uma chance pequena - de que esse bebê perfeitamente formado tivesse um defeito? Ted passou em todos os testes. A despeito de uma cesariana, ele obteve nota nove na escala dos recém-nascidos – um campeão na sala de parto!

Como muitos homens, eu não sabia muito sobre bebês, mas sabia que nenhum outro bebê podia ser comparado com o meu primogênito. Cada movimento, cada passo e palavra pareciam precoces e brilhantes!

Por volta do segundo aniversário de Ted nós percebemos pequenas peculiaridades, excentricidades que sugeriam que ele era diferente (mas certamente melhor!) das outras crianças. Sua linguagem era estranha (talvez ele não precisasse fazer perguntas). Ele não brincava com outras crianças (talvez preferisse adultos). Seus resultados nos gráficos de desenvolvimento começaram a cair (talvez os gráficos estivessem errados).

Por volta de seu terceiro aniversário, nós sofremos durante uma série de diagnósticos que mais pareciam adivinhações profissionais: "danos cerebrais", "neurologicamente debilitado" e, finalmente, "autista". Procuramos ajuda, formas de "consertar" Ted.

Porém, quanto mais aprendíamos, menos tínhamos esperanças. Parecia que meu pior pesadelo havia se tornado realidade: minha segunda família parecia tão condenada quanto a primeira.

No lado positivo, minha esposa e eu possuíamos recursos que meus pais nunca tiveram: emprego fixo, melhor escolaridade e acesso a um centro de treinamento dentro da universidade. Além disso, a sociedade começara a reconhecer os direitos e as necessidades das pessoas com deficiências. Diferente de Scott, que nascera nos anos 20, meu filho dos anos 70 não teria que ficar em casa. A lei lhe garantia uma educação "adequada". A compreensão médica também havia aumentado. Os médicos não mais culpavam os pais pela deficiência. O estigma estava se levantando como uma nuvem. Decidimos que nunca esconderíamos essa criança. Não tínhamos vergonha dele.

Revendo o passado, percebo que a família da minha infância havia entendido tudo errado: Scott não era "o nosso problema” - nós éramos o problema dele! Doeu ter que encarar esta verdade, mas a dor trouxe uma descarga de adrenalina e determinação. Atingiu-me como um raio: se algo é uma maldição ou uma bênção, depende da nossa interpretação.

Enquanto minha esposa e eu tentávamos entender Ted, estávamos determinados a não negligenciar nosso segundo filho, nascido três anos depois. Como irmão de Scott, eu podia me identificar com as preocupações e necessidades de meu filho mais novo, ainda que ele nunca falasse sobre elas. Ele ansiava por um irmão "normal" e preocupava-se durante sua busca adolescente por identidade.

Criar dois filhos com necessidades tão diferentes testou-nos ao máximo.

Tropeçamos através de suas infâncias, esperando pela formatura como por uma prometida luz no fim do túnel. O aniversário de vinte e dois anos de Ted nos encontrou bem preparados para sua passagem para o mundo adulto. Ele se formaria no final do ano. Entre empregos de meio expediente e alguma ajuda do governo, teria uma renda razoável. Seus supervisores o conheciam bem e o haviam treinado durante estágios estudantis. Chegamos até a arrumar um apartamento para ele no porão. Nós achávamos que estava tudo planejado para a formatura, mas Ted não concordou. Naquela primavera, em seu último ano, ele nos pegou de surpresa com sua declaração:

- Eu vou à festa de formatura.

Ele pensara nisso durante anos. Com dezoito anos, havia visto os garotos de sua idade planejarem sua festa de formatura. Agora ele via sua oportunidade. Só precisava de uma acompanhante.

Mas ele simplesmente não conseguia arrumar sozinho uma acompanhante. Algumas das meninas o achavam "engraçadinho" e toleravam sua atenção nas assembléias estudantis, mas nenhuma sairia com ele. Entretanto, um amigo da família tinha uma filha chamada Jennifer. Uma loura admirável, Jennifer conhecera Ted e gostara dele. E ela entendia o que a festa de formatura significava para ele. À medida que o grande acontecimento se aproximava, nós ajudamos Ted a se preparar. Tiramos a poeira do smoking da família, que ficava melhor em Ted do que em mim. Ele concordou em deixar que eu o levasse no carro da família. Planejou até mesmo o jantar que teriam antes do baile. Só faltava um detalhe: as flores.

Eu poderia ter encomendado aquelas flores em dois minutos, mas queria que Ted tivesse a experiência. Imaginei, comovido, se ele jamais teria outra oportunidade de dar flores a uma mulher.

Antes da ida ao florista, Ted "fez de conta". Praticar as palavras em casa torna mais fácil dizê-las em outra situação. Ted me deu o papel do florista. Então convidei-o para minha floricultura imaginária. Ensaiamos até que Ted pareceu saber tudo na ponta da língua. Então caminhamos até a floricultura do bairro.

Ouvindo a porta, o florista parou o que estava fazendo e voltou sua atenção para nós. Esperei que Ted falasse, olhando-o com expectativa. A loja ficou muito silenciosa.

Seu corpo inteiro havia enrijecido. Então ele fez uma careta e deixou escapar:

- Meu nome é Ted. Vim aqui para alugar as flores roxas. O florista pareceu espantado. Ele olhou de relance para mim enquanto eu estimulava meu filho.

- Vamos tentar de novo, Ted.

Ele respirou fundo algumas vezes e franziu as sobrancelhas. Eu o encorajei a ficar calmo e falar pausadamente. Finalmente ele foi capaz de explicar.

Precisava das flores para sábado. Sua acompanhante queria usá-las no pulso. Ele preferia rosas cor de lavanda. Pagaria quando as viesse buscar no sábado.

Eu não havia esperado a reação do florista:

- O senhor tem muita paciência - ele me disse. - Eu nunca poderia ser tão paciente.

"Não!", eu queria gritar. Isto não é paciência, isto é compreensão. Nossos sistemas nervosos funcionam. Eles transmitem sinais instantaneamente dos bancos de memória para os centros nervosos e as cordas vocais fazem o caminho inverso. Ted tem que trabalhar esse processo, lutando corrente acima em direção a uma vida que nós tomamos como certa. O florista estava admirando a pessoa errada! Sem ele saber, Ted escalara barreiras do tamanho de montanhas e nadara oceanos de confusão para chegar a esse ponto. Ele não estaria montando quebra-cabeças no sábado à noite, como seu tio Scott fizera com tanta freqüência. Ted ia à festa de formatura.

Na noite da formatura, deixei Ted e Jennifer na festa. Em casa, liguei para uma de minhas irmãs. Falamos sobre a vida atrofiada de nosso irmão e sobre o impressionante progresso que Ted já fizera. Choramos.

Tenho uma foto da festa na minha mesa. Jennifer está ao lado de Ted. Em seu pulso está um pequeno buquê de rosas cor de lavanda.

(Charles A. Hard, Entregue por Edna Smith)