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sábado, 31 de outubro de 2009

Brincar também é importante

Perdoai-me, Senhor, por todas as tarefas que hoje ficaram por fazer. Mas, de manhã, quando meu filho, com seus passinhos incertos, entrou no quarto e pediu: “Mamãe, quer brincar comigo?”, eu simplesmente tive de dizer sim.
E entre os quebra-cabeças e caminhões, cubos de madeira e bonecos, velhos chapéus, livros e risadas, dividimos mil pensamentos especiais, centenas de esperanças, sonhos e muitos abraços. E quando à noite, na hora de rezar, ele juntou as mãozinhas e falou baixinho: “Obrigado, Deus, por mamãe e papai, pelos meus brinquedos, pelo cachorro-quente, pelo sorvete de chocolate e por mamãe brincar comigo”, eu sabia que tinha sido um dia bem gasto.
E tinha certeza de que o Senhor entenderia.

JAYNE JANDON FERRER

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

As riquezas de mamãe

Deve haver algo muito especial numa mãe que consegue educar uma filha sem que ela tome consciência da pobreza em que vive. Eu não sabia que era pobre, até a segunda série. Tinha tudo de que precisava: nove irmãos e irmãs para brincar, livros para ler, uma boneca feita de retalhos e roupas limpas que mamãe habilidosamente remendava ou, muitas vezes, fazia. Minha mãe lavava e trançava meu cabelo à noite para eu ir à escola no dia seguinte, meus sapatos marrons estavam sempre limpos e engraxados. Eu era feliz na escola, adorava o cheiro de lápis novos e do papel grosso que a professora distribuía para nossos trabalhos. Absorvia os conhecimentos como uma esponja, ganhando o cobiçado privilégio de levar mensagens para a sala do diretor durante uma semana.
Ainda me lembro do dia em que, com um sentimento de orgulho, subi sozinha os degraus da escola. Indo para minha sala, encontrei duas meninas mais velhas. Uma segredou para a outra: “Olhe, essa é a menina pobre.” E elas riram. Com o rosto vermelho e segurando as lágrimas, fiquei transtornada.
No caminho para casa, tentei eliminar os sentimentos conflitantes que os comentários das garotas me causaram. Fiquei imaginando por que as meninas me consideravam pobre. Olhei de modo crítico para meu vestido e, pela primeira vez, notei como era desbotado, um vinco na bainha denunciando que tinha sido aproveitado. Sei que os pesados sapatos de menino eram os únicos que evitavam que eu andasse na lateral dos pés, mas de repente me senti envergonhada por serem tão feios.
Quando cheguei, tive pena de mim. Senti como se estivesse entrando na casa de um estranho, olhando para tudo de modo crítico. Vi o tapete velho na cozinha, manchas de dedos na pintura meio descascada das portas. Abatida, não respondi à saudação alegre de minha mãe que preparava biscoitos de aveia para o lanche. Tudo me pareceu feio e acanhado. Fiquei trancada no quarto até a hora do jantar, imaginando como falar com mamãe sobre pobreza. Por que ela não me contara? Por que tive de descobrir por outras pessoas?
Enchi-me de coragem e fui para a cozinha: “Nós somos pobres?”, perguntei de repente, meio desafiadora. Esperei que ela negasse, contestasse ou, pelo menos, desse uma explicação satisfatória, para que eu não me sentisse tão mal. Minha mãe me olhou contemplativamente, sem nada dizer por um instante.
“Pobres?”, repetiu pousando a faca com que descascava batatas. “Não, não somos pobres. Olhe para tudo que temos”, ela disse, apontando para meus irmãos que brincavam na outra sala.
Através dos olhos de minha mãe pude ver o fogo da lareira que enchia a casa com seu calor, as cortinas coloridas e os tapetes de retalhos feitos por ela e que enfeitavam a casa, o prato cheio de biscoitos de aveia sobre a cômoda. Do lado de fora, o quintal que oferecia alegria e aventura para dez crianças. Ela continuou: “Talvez algumas pessoas pensem que somos pobres em matéria de dinheiro, mas temos tanto...” E, com um sorriso, minha mãe se virou para preparar mais uma refeição para sua família, não se dando conta de que, a cada noite, ela alimentava muito mais do que estômagos vazios. Ela alimentava meu coração e minha alma.

MARY KENYON

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

O jogo da maternidade

Você com certeza conhece jogos de perguntas e respostas em que se ganham ou perdem peças. Sempre pensei que ser mãe é mais ou menos participar de um jogo assim. Parece que passamos a maior parte do nosso tempo num labirinto, tateando a cada minuto da vida em família, sem ter certeza se fizemos pontos ou não.
Assim, preparei meu próprio jogo para as mães. As regras são simples — você começa com dez peças e ganha ou perde outras ao longo do jogo.
Está pronta? Vamos lá!
Primeira casa:
QUADRADO 1 — Você está esperando seu primeiro filho. Se você olha para sua cintura engrossando e diz: “Será que eu vou voltar ao meu manequim?”, perde duas pedras, pelo seu pensamento ansioso.

QUADRADO 2 — Dois anos depois, você está prestes a ter o segundo filho. Para evitar ciúmes do primeiro, você passa horas se dedicando a ele e até lhe dá um boneco para ele mesmo alimentar, dar banho e ninar. Quando o bebê chega, você afirma gloriosa para si mesma e para os outros: “Ele não sentiu qualquer ciúme.” Perde uma pedra por duas razões: por tratar o ciúme como um sentimento anormal e por negar o que se passa com seu filho.

QUADRADO 3 — O seu mais velho anunciou no jantar que vai representar uma árvore na peça do colégio e que precisa de uma fantasia para amanhã de manhã. Se fica acordada até três da manhã e faz uma roupa inovadora e original, perde três pedras, por dar um exemplo impossível para todas nós. Mas se você o faz meter-se num saco de papel pardo, com buracos para a cabeça e para os braços e cola com fita adesiva folhas verdes na frente e atrás, ganha cinco pedras, pois acabou de nos redimir.

QUADRADO 4 — Agora são três crianças e estão na escola. Você descobriu que “mãe” é sinônimo de “motorista”. Num dia típico, você deixou a mais nova na aula de música e foi com os meninos ao treino de futebol. Dali voltou para apanhar a menina e deixar os outros jogadores do time em suas casas. O jantar é corrido porque alguém tem ensaio do coro às sete horas. Na hora de dormir, você descobre que está sobrando uma criança. Mas não se apavora... isso já aconteceu antes e logo o telefone vai tocar, pois uma mãe descobriu que lhe falta uma criança. Você ganha cinco peças pela resistência.

QUADRADO 5 — As gracinhas que você amorosamente acomodou na cama por tantos anos e para quem contou histórias de repente tratam você como se fosse uma débil mental. Ficam envergonhados de serem vistos em sua companhia. Adivinhe: você é mãe de adolescentes, essas estranhas criaturas que pensam ter mais de dois metros de altura e serem à prova de bala. Ganha oito peças por heroísmo sob fogo cerrado. Nessa fase, lembre-se sempre de que você carrega a arma mais poderosa — a chave do carro!

QUADRADO 6 — Você sabe que seu filho mais velho foi para a faculdade quando vê a pilha de roupa suja jogada na sala da frente. Se você a apanha para separar, lavar e passar, como antigamente... perde três peças. Por favor, não faça isso! Se, em vez disso, você o pega pela mão e mostra onde as máquinas de lavar e secar estão desde que ele era pequeno, ganha cinco peças. As coisas mais importantes da vida não são ensinadas na faculdade, lembre-se.

QUADRADO 7 — As crianças, por milagre, se tornaram adultos responsáveis. Por acaso, você ouve o mais velho contando para o filho dele as mesmas histórias que você lhe contava e você chora emocionada. Não se desespere — essas coisas são as riquezas da maternidade e esse jogo trata exatamente disso.

Parabéns. Você ultrapassou a linha de chegada e está na hora de somar os pontos. O jogo se chama “maternidade” e, se não perdeu todas as suas peças, você ganhou!

JACKLYN LEE LINDSTROM

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Os grampos de cabelo

Quando eu tinha sete anos, ouvi minha mãe dizer a uma de suas amigas que ela faria trinta anos no dia seguinte. Duas coisas me ocorreram: eu jamais imaginara que minha mãe fazia aniversário e não me lembrava de ela ter recebido um presente nesta data.
Bem — eu podia fazer alguma coisa a esse respeito. Raspei meu cofrinho e contei: vinte e cinco cents — cinco semanadas.
Fui à loja da esquina e falei com o dono, o senhor Sawyer, que queria comprar um presente de aniversário para minha mãe. Ele me mostrou tudo que se encaixava naquele preço. Havia uns bibelôs de cerâmica, mas ela já tinha muitos — e ia ter de espaná-los uma vez por semana. Também havia umas caixinhas de doce, mas mamãe era diabética — não seriam apropriados.
Finalmente, ele me mostrou um pacote de grampos de cabelo. Os cabelos de mamãe eram longos e escuros e ela os lavava e enrolava duas vezes por semana. Quando os soltava no dia seguinte, parecia uma artista de cinema, com os cachos sobre os ombros. Então decidi que os grampos eram o presente ideal e paguei ao senhor Swayer com minhas moedas.
Levei os grampos para casa e os embrulhei em uma página de histórias em quadrinhos do jornal (não sobrara dinheiro para papel de presente). Na manhã seguinte, a família reunida à mesa do café, entreguei o pacote a mamãe, dizendo: “Feliz aniversário, mamãe!”
Aturdida, em silêncio e com lágrimas nos olhos, rasgou o papel. Quando viu os grampos, já estava soluçando.
“Desculpe, mamãe, não queria fazer você chorar. Só queria que tivesse um aniversário feliz.”
“Mas estou contente, meu amor”, disse, sorrindo entre lágrimas. “Sabe que é o primeiro presente de aniversário que recebo na vida?”
Ela então beijou meu rosto e agradeceu: “Obrigada, querida.” Virou-se para meus irmãos e irmã: “Vejam, Linda me deu um presente de aniversário!” E fez o mesmo com meu pai: “Veja, Linda me deu um presente de aniversário!”
E foi para o banheiro lavar os cabelos e enrolá-los com os grampos novos.
Quando mamãe saiu da sala, meu pai me olhou, dizendo: “Linda, quando eu era menino, lá no sertão (meu pai sempre chamava de sertão o lugar onde nascera, nas montanhas), não nos preocupávamos em dar presentes de aniversário para adultos. Só para as crianças. E, na família de sua mãe, eram tão pobres que nem isso faziam. Mas vendo como você deixou sua mãe feliz hoje, acho que preciso pensar nisso. O que quero dizer, Linda, é que você inaugurou uma nova fase em nossa vida.”
E inaugurei mesmo. Depois disso, mamãe passou a receber presentes de aniversário todos os anos, de meus irmãos, de minha irmã, de meu pai e de mim. E, claro, com o tempo, os filhos passaram a ter mais condições e a lhe dar presentes melhores. Quando eu tinha vinte e cinco anos, dei a ela um aparelho de som, uma tevê colorida e um forno de microondas (que ela trocou por um aspirador de pó).
Quando mamãe fez cinqüenta anos, todos os filhos se reuniram para lhe dar um presente espetacular: um anel com uma pérola rodeada de brilhantes. Quando meu irmão mais velho lhe entregou o anel na festa que fizemos para homenageá-la, admirou o presente e fez questão que passasse entre os convidados: “Não tenho filhos maravilhosos?”, ela repetia.
Podíamos ouvir os murmúrios enquanto o anel passava de mão em mão.
Depois que os convidados se foram, fiquei para ajudar na arrumação. Estava lavando a louça na cozinha quando ouvi meus pais conversando na sala.
“Bem, Pauline”, dizia meu pai, “que lindo anel. Acho que foi o melhor presente de aniversário de sua vida.”
Meus olhos se encheram de lágrimas quando ouvi sua resposta: “Ted”, ela disse docemente,”claro que é um anel lindo. Mas sabe qual foi o melhor presente de aniversário que já recebi? Aquela caixa de grampos.”

LINDA GOODMAN

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Dance comigo

Quando somos jovens e sonhamos com amor e prazer, pensamos talvez em noites enluaradas em Veneza ou em passeios numa praia ao pôr-do-sol. Ninguém nos diz que os melhores momentos da vida são efêmeros, não planejados e quase sempre nos pegam de surpresa.
Não faz muito tempo, eu estava lendo uma história para Annie, minha filha de sete anos, quando percebi seu olhar fixo em mim. Tinha uma expressão longínqua, parecia meio hipnotizada, como se não desse importância à história que ouvia.
Perguntei o que estava pensando.
“Mamãe”, ela murmurou. “Não consigo parar de olhar pra você. Você é tão bonita.”
Quase derreti de emoção. Ela mal sabia que suas palavras sinceras e amorosas me dariam grande apoio ao longo dos anos seguintes.
Pouco tempo depois, levei Sam, meu filho de quatro anos, a uma elegante loja de departamentos, onde a melodia de uma canção de amor nos levou até um pianista.
Sam e eu nos sentamos perto dele e o menino parecia petrificado pela melodia. De repente, Sam se levantou, veio para minha frente, tomou meu rosto em suas mãozinhas e disse: “Mamãe, dance comigo.”
Se essas mulheres que circulam nos ambientes mais luxuosos e românticos soubessem a alegria que esse convite feito por um menino de rosto redondo e dentes de leite me proporcionou! Embora as vendedoras estivessem rindo de nós e nos apontando enquanto deslizávamos e rodopiávamos, eu não trocaria minha dança com este jovem charmoso e irresistível nem mesmo pelo universo inteiro.

JEAN HARPER

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

O prognóstico

Uma jovem mãe, submetida a um tratamento contra câncer, voltou do hospital sem cabelos, por causa da radioterapia, e muito consciente da sua aparência.
Estava sentada na cozinha, quando seu filho apareceu na porta, olhando-a curiosamente.
Quando a mãe iniciou o discurso que ensaiara para ajudá-lo a entender o que via, o menino se aproximou e aconchegou-se em seu colo, quietinho, a cabeça recostada em seu peito.
A mãe acariciou a cabecinha do filho e disse: “Você vai ver como daqui a pouco o meu cabelo vai crescer e eu vou ficar melhor, como era antes.”
O menininho se levantou, olhou para a mãe pensativo. Com a espontaneidade de seus seis anos, respondeu: “Seu cabelo está diferente, mas seu coração está igualzinho.”
A mãe não precisava mais esperar por “daqui a pouco” para melhorar. Com os olhos cheios de lágrimas, ela se deu conta de que já estava muito melhor.

ROCHELLE M. PENNINGTON

domingo, 25 de outubro de 2009

O visitante do meio da noite

Cresci numa aldeia rural numa época em que nos maravilhávamos com o telefone e os automóveis eram incapazes de atravessar estradas cheias de lama. Foi antes da Grande Depressão, quando havia pouco para todos e os vizinhos dependiam uns dos outros. Eu me lembro bem daquela noite.
Era início de outubro e pela janela víamos tudo escuro, chuva forte e o vento se misturando. A turbulência maltratava nossa pequena casa de madeira na área rural de Arkansas, e a tempestade ameaçava apagar o lampião sobre a mesa da sala.
Aos nove anos, assustada, eu tinha certeza de que a casa sairia voando a qualquer momento. Papai fora em direção ao norte, procurando trabalho, e eu me sentia extremamente vulnerável. Mas mamãe conseguia ficar calma, sentada, consertando suas roupas “para durarem outro inverno”.
“Ah, mamãe, você precisa de roupas novas”, eu disse, tentando puxar conversa. Numa noite assim, eu precisava do conforto de uma voz bem serena.
Ela me abraçou. “Você precisa de roupas melhores porque vai à escola.”
“Mas você não tem nem um casaco para o inverno”, retruquei.
“Deus prometeu suprir nossas necessidades. Ele cumprirá sua promessa, não quando pedirmos, mas no Seu próprio tempo. Tudo vai ficar bem.”
Eu invejava a fé inabalável de minha mãe, principalmente em noites assim.
Uma lufada de vento desceu pela chaminé e espalhou o carvão da lareira.
“ Podemos trancar as portas?”, perguntei.
Mamãe sorriu, pegou a pequena pá preta da lareira e espalhou cinzas sobre os carvões em brasa.
“Edith, não podemos evitar a tempestade. E você sabe que ninguém aqui tranca as portas, especialmente numa noite assim, porque alguém pode precisar entrar fugindo do mau tempo.”
Ela pegou o lampião, foi para o quarto e eu a segui. Minha mãe me enfiou entre as cobertas, mas, antes que tirasse o roupão de retalhos, o barulho repentino da porta da frente aberta pelo vento fez entrar o cheiro de chuva e ouvimos o som de objetos derrubados na sala. Também de repente a porta bateu e se fechou.
“Esse barulho todo não era só vento e trovão.” Mamãe pegou o lampião e voltou à sala. Eu tive medo de ir também, mas o medo de ficar sozinha foi maior ainda.
Primeiro, só pudemos ver o conteúdo da cestinha de costura de mamãe espalhado no chão. Então nossos olhos seguiram pegadas de botas enlameadas no chão de madeira, da porta à cadeira estofada que ficava em frente à lareira.
Um homem encharcado e desgrenhado, baixo e corpulento, com um terno escuro e salpicado de lama estava afundado na cadeira.
Seu hálito exalava um cheiro terrível. Sua mão esquerda, imóvel, segurava uma lata amassada.
“Mamãe, é o senhor Hall!”, exclamei.
Mamãe apenas assentiu com a cabeça, enquanto, com a pá, tirava os carvões queimados da lareira. Limpou as cinzas e levou os pedaços de carvão para a fornalha da cozinha, cobrindo-os com aparas de pinho.
Ela disse: “Vou fazer café. Acenda o fogo para ajudar nosso hóspede a se aquecer e a se secar.”
“Mas, mamãe, ele está bêbado!”
“Tão bêbado que entrou em nossa casa pensando estar entrando na dele!”
“Mas ele mora bem longe, lá embaixo na estrada”, observei.
“Minha filha, o senhor Hall não é um beberrão. Não sei o que aconteceu hoje. Mas ele é um homem bom.”
Eu sabia que o senhor Hall se encontrava com alguém na estrada todas as segundas-feiras de manhã e ia para sua pequena alfaiataria em Little Rock, onde trabalhava durante toda a semana. Aos sábados à tarde ele voltava, caminhando com dificuldade, apoiado em uma bengala.
Como se lesse meus pensamentos, mamãe murmurou: “Ele deve se sentir muito solitário de vez em quando.”
Em pé na porta da cozinha, fui tomada por uma preocupação. “Oh, mamãe, o que as pessoas vão dizer sobre a bebedeira do senhor Hall?”
“As pessoas não têm de ficar sabendo disso nunca. Você está me entendendo?”
“Estou, mamãe.”
Enquanto a chuva continuava, mamãe levou para o nosso hóspede uma caneca de café preto e fumegante. Levantou sua cabeça para ajudá-lo a tomar o café, gole a gole. A caneca estava quase vazia quando ele abriu os olhos o suficiente para nos reconhecer.
“Senhora Wood.”
“Sim, senhor Hall, o senhor vai ficar bem.”
Enquanto mamãe levava a caneca de volta à cozinha, o senhor Hall conseguiu se apoiar na bengala, afastou a colcha dobrada sobre a cadeira e saiu cambaleando porta afora em direção à tempestade.
Ficamos observando-o enquanto chegava, vacilante, até o portão da frente, os clarões dos raios iluminando o caminho.
“Parece que nosso hóspede já consegue andar sozinho.”
“Mamãe, por que você o chama de nosso hóspede?”, perguntei. “Ele só é nosso vizinho. Nós não o convidamos a entrar.”
“Um hóspede é qualquer pessoa que venha à nossa casa em paz. Você se lembra quem é o próximo na história do Bom Samaritano?”
“O homem que ajudou o estranho”, respondi.
“Fazendo dele nosso hóspede, Deus nos deu a oportunidade de sermos próximas do senhor Hall.”
Algumas semanas mais tarde, chegando da igreja, havia um saco de papel sobre a mesa. Nele se lia: “Senhora Wood”.
“Deve ser o vestido que a senhora Chiles ficou de me emprestar para eu tirar o molde. Ela tem uma filha do seu tamanho. Se quiser, pode abrir”, mamãe disse, enquanto ia mudar de roupa.
Abri o saco amarfanhado e me surpreendi. “Mamãe! É um casaco para você, e é lindo!”
Mamãe voltou-se para olhar o casaco que eu suspendia. Ela o experimentou, enfiando o braço direito e depois o esquerdo pelas mangas. Naquela época eu não conhecia o significado real da generosidade. Tudo o que eu pude ver, quando mamãe experimentou o casaco, é que ele ficou perfeito nela.

EDITH DEAN

sábado, 24 de outubro de 2009

O que é uma avó?

O que é uma avó?

Carta de um aluno da terceira série.

Uma avó é uma mulher velhinha que não tem filhos. Ela gosta dos filhos dos outros. Um avô é um homem-avó. Ele leva os meninos para passear e conversa com eles sobre pescaria e outros assuntos parecidos.
As avós não fazem nada e por isso podem ficar mais tempo com a gente. Como elas são velhinhas, não conseguem rolar pelo chão ou correr. Mas não faz mal, porque nos levam ao shopping e compram tudo o que nossos pais não querem comprar. Na casa delas tem sempre um vidro com balas e uma lata cheia de suspiros. Contam histórias de nosso pai ou nossa mãe quando eram pequenos, histórias da Bíblia, histórias de uns livros bem velhos com umas figuras lindas. Passeiam conosco mostrando as flores, ensinando seus nomes, nos fazendo sentir o perfume. Avós nunca dizem “Apresse-se”, “Arrume seu quarto”, “Coma com modos”.
Normalmente, as avós são gordinhas, mas, mesmo assim, elas nos ajudam a amarrar os sapatos. Quase todas usam óculos e eu já vi uma tirando os dentes e as gengivas.
Quando a gente faz uma pergunta, a avó não diz: “Menino, não vê que eu estou ocupada!” Ela pára, pensa e responde de um jeito que a gente entende. As avós sabem um bocado de coisas.
As avós não falam com a gente como se nós fôssemos umas criancinhas idiotas, nem apertam nosso queixo dizendo “Que gracinha!”, como fazem algumas visitas chatas. Quando lêem para nós, não pulam pedaços das histórias nem se importam de ler a mesma história várias vezes. O colo das avós é quente e fofinho, bom de a gente sentar quando está triste. A minha avó sabe fazer uma festinha bem de leve nas minhas costas que eu adoro.
Todo mundo devia tentar ter uma avó, porque são os únicos adultos que têm tempo pra nós.

AUTOR DESCONHECIDO

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Minha filha, minha mestra

As crianças reinventam o mundo pra você.
SUSAN SARANDON

As crianças nos ensinam coisas novas todos os dias. Eu já tinha ouvido dizerem isso, mas foi só quando me tornei mãe que me dei conta da dimensão desse ensinamento.
Quando Marissa tinha seis meses, parecia estar sempre olhando para cima, procurando alguma coisa. Acompanhando seu olhar, descobri a magia das folhas dançando nas árvores e o movimento das nuvens no céu. Com oito meses, ela olhava para baixo, enquanto eu a empurrava no carrinho. Percebi, então, que cada pedra é diferente, que as rachaduras nas calçadas fazem desenhos interessantes e as folhas da grama têm verdes diversos.
Quando ela fez onze meses, aprendeu a dizer “Uau!”, palavra que usava, maravilhada, ante qualquer coisa nova e deslumbrante, como a variedade de brinquedos do consultório do pediatra ou o acúmulo de nuvens negras antes de uma tempestade. Ela falava baixinho “Uau!” para coisas que realmente a impressionavam, como o sopro do vento no seu rosto ou um bando de pombos levantando vôo. E, finalmente, o máximo em matéria de “Uau!” era sua boquinha aberta, mas sem emitir som, reservado para ocasiões realmente surpreendentes, como um pôr-do-sol num lago depois de um lindo dia ou fogos de artifício no céu de verão.
Marissa me ensinou muitas formas de dizer “Eu te amo”. Quando tinha quatorze meses e estávamos abraçadas, ela, com a cabecinha recostada no meu ombro, suspirou fundo e disse: “Feliz.” Num outro dia (já com dois anos e levada como ela só), apontou para uma linda modelo na capa de uma revista e perguntou: “É você, mamãe?”
Há pouco tempo, agora com três anos, entrou na cozinha enquanto eu lavava a louça e ofereceu: “Posso ajudar?” Logo depois, colocou a mão no meu braço e me fez derreter: “Mamãe, se você fosse pequena, eu queria ser sua amiga.”
Em momentos assim, tudo que posso dizer é “Uau!”.

JANET S. MEYER

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Aperte minha mão

Você se lembra da sua infância, quando caía e se machucava? Lembra o que sua mãe fazia para acalmar a dor? Minha mãe, Grace Rose, me levava no colo até sua cama e beijava meu machucado. Então, ela sentava ao meu lado, pegava minha mão e falava: “Quando doer, aperte minha mão e vou dizer ‘Eu te amo’.”
Era sempre assim: eu apertava sua mão e, sem falhar uma só vez, ouvia as palavras: “Mary, eu te amo.”
Às vezes, eu fingia ter me machucado só para passar por esse ritual com ela. À medida que fui crescendo, o ritual mudou, mas minha mãe sempre encontrava um modo de diminuir a dor e aumentar a alegria em qualquer área da minha vida.
Numa época difícil, durante o segundo grau, ela tinha sempre meus chocolates preferidos, recheados com amêndoas, quando eu chegava em casa. Lá pelos meus vinte e poucos anos, mamãe muitas vezes telefonava num fim de tarde convidando-me para vermos o pôr-do-sol ou o nascer da lua. Deixava bilhetinhos amorosos sobre meu travesseiro quando eu chegava tarde em casa e, quando fui morar sozinha, mandava-me vasinhos de flores agradecendo as visitas que eu lhe fazia.
Mas minha melhor lembrança continuou sendo ela segurando minha mão quando eu era pequena e repetindo: “Quando doer, aperte minha mão e vou dizer ‘Eu te amo’.”
Eu já tinha trinta e tantos anos quando, uma manhã, papai telefonou para o meu trabalho. Era um homem seguro e lúcido, mas a voz soava confusa e amedrontada. “Mary, há algo errado com sua mãe. Já chamei o médico, mas, por favor, venha logo que puder.”
Quando cheguei, papai andava de um lado para o outro na sala e mamãe estava deitada no quarto, olhos fechados, as mãos sobre o estômago. Chamei por ela, tentando manter a voz o mais calma possível.
“Mamãe, estou aqui.”
“Mary, é você?”, ela balbuciou.
“Sim, mamãe, sou eu.”
Eu não estava preparada para a próxima pergunta e, quando a ouvi, congelei, sem saber o que responder.
“Mary, eu vou morrer?”
Meu olhos se encheram de lágrimas enquanto olhava minha mãe querida ali, deitada, tão desamparada.
Ao tentar descobrir o que responder, pensei: “O que mamãe diria num momento desses?”
Hesitei por um instante, esperando que as palavras viessem. “Mamãe, não sei se você vai morrer, mas fique tranqüila, tudo acabará bem.” Apertei sua mão. “Eu amo você.”
Ela gemeu: “Mary, sinto tanta dor.”
Mais uma vez fiquei sem saber o que falar. Sentei a seu lado na cama e me ouvi dizendo: “Mamãe, quando doer, aperte minha mão e vou dizer ‘Eu te amo’.”
Ela apertou minha mão.
“Mamãe, eu te amo.”
Esta cena se repetiu muitas vezes durante os dois anos seguintes, até sua morte, de câncer. Nós nunca sabemos quando virão os momentos em que seremos testados. Mas sei que, quando chegarem, com quem quer que eu esteja, oferecerei o ritual de amor de minha mãe: “Quando doer, aperte minha mão e vou dizer ‘Eu te amo’.”

MARY MARCDANTE

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

A inspeção

Num acampamento de escoteiros, durante uma inspeção, o monitor achou um guarda-chuva cuidadosamente enrolado no saco de dormir de um dos meninos. Como, afinal, guarda-chuvas não faziam parte da lista do que levar para o acampamento, ele pediu para o garoto explicar por que o objeto estava ali.
Com um suspiro conformado, o menino disse: “O senhor não sabe como são as mães?”

AUTOR DESCONHECIDO

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Feche a boca e abra os braços

As crianças precisam de orientação e de compreensão
bem mais do que de instrução.

ANN SULLIVAN

Uma amiga ligou com notícias perturbadoras: a filha solteira estava grávida.
Relatou a cena terrível ocorrida no momento em que a filha finalmente contou a ela e ao marido sobre a gravidez. Houve acusações e recriminações, variações sobre o tema “Como pôde fazer isso conosco?”. Meu coração doeu por todos: pelos pais que se sentiam traídos e pela filha que se envolveu numa situação complicada como aquela. Será que eu poderia ajudar, servir de ponte entre as duas partes?
Fiquei tão arrasada com a situação, que fiz o que faço — com alguma freqüência — quando não consigo pensar com clareza: liguei para minha mãe. Ela me lembrou de algo que sempre a ouvi dizer. Imediatamente, escrevi um bilhete para minha amiga, compartilhando o conselho de minha mãe: “Quando uma criança está em apuros, feche a boca e abra os braços.”
Tentei seguir o mesmo conselho na criação de meus filhos. Tendo tido cinco em seis anos, é claro que nem sempre conseguia. Tenho uma boca enorme e uma paciência minúscula.
Lembro-me de quando Kim, a mais velha, estava com quatro anos e derrubou o abajur de seu quarto. Depois de me certificar de que não estava machucada, me lancei numa invectiva sobre aquele abajur ser uma antigüidade, sobre estar em nossa família há três gerações, sobre ela precisar ter mais cuidado e como foi que aquilo tinha acontecido — e só então percebi o pavor estampado em seu rosto. Os olhos estavam arregalados, o lábio tremia. Então me lembrei das palavras de minha mãe. Parei no meio da frase e abri os braços.
Kim correu para eles dizendo:
— Desculpa... Desculpa — repetia, entre soluços. Nos sentamos em sua cama, abraçadas, nos embalando. Eu me sentia péssima por tê-la assustado e por fazê-la crer, até mesmo por um segundo, que aquele abajur era mais valioso para mim do que ela.
— Eu também sinto muito, Kim — disse quando ela se acalmou o bastante para conseguir me ouvir. — Gente é mais importante do que abajures. Ainda bem que você não se cortou.
Felizmente, ela me perdoou. O incidente do abajur não deixou marcas perenes. Mas o episódio me ensinou que é melhor segurar a língua do que tentar voltar atrás após um momento de fúria, medo, desapontamento ou frustração.
Quando meus filhos eram adolescentes — todos os cinco ao mesmo tempo — me deram inúmeros outros motivos para colocar a sabedoria de minha mãe em prática: problemas com amigos, o desejo de ser popular, não ter par para ir ao baile da escola, multas de trânsito, experimentos de ciência malsucedidos e ficar em recuperação. Confesso, sem pudores, que seguir o conselho de minha mãe não era a primeira coisa que me passava pela mente quando um professor ou diretor telefonava da escola. Depois de ir buscar o infrator da vez, a conversa do carro era, algumas vezes, ruidosa e unilateral.
Entretanto, nas ocasiões em que me lembrava da técnica de mamãe, eu não precisava voltar atrás no meu mordaz sarcasmo, me desculpar por suposições errôneas ou suspender castigos muito pouco razoáveis. É impressionante como a gente acaba sabendo muito mais da história e da motivação por trás dela quando está abraçando uma criança, mesmo uma criança num corpo adulto. Quando eu segurava a língua, acabava ouvindo meus filhos falarem de seus medos, de sua raiva, de culpas e arrependimentos. Não ficavam na defensiva porque eu não os estava acusando de coisa alguma. Podiam admitir que estavam errados sabendo que eram amados, apesar de tudo. Dava para trabalharmos com “o que você acha que devemos fazer agora”, em vez de ficarmos presos a “como foi que a gente veio parar aqui?”.
Meus filhos hoje estão crescidos, a maioria já constituiu a própria família. Um deles veio me ver há alguns meses e disse: “Mãe, cometi uma idiotice...”
Depois de um abraço, nos sentamos à mesa da cozinha. Escutei e me limitei a assentir com a cabeça durante quase uma hora enquanto aquela criança maravilhosa passava o seu problema por uma peneira. Quando nos levantamos, recebi um abraço de urso que quase esmagou os meus pulmões.
— Obrigado, mãe. Sabia que você me ajudaria a resolver isto.
É incrível como pareço inteligente quando fecho a boca e abro os braços.

DIANE C. PERRONE

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

A visão real

A alegria de minha filha chamou minha atenção e eu me dei conta de que jamais pintara com Kayla, porque a bagunça provocada pelas tintas me incomodava especialmente. Ela acabou aprendendo sobre cores com minha amiga cega. A ironia me fez parar e olhar para minha filha e para mim mesma com outros olhos.
“Michelle me pediu para descrever o que eu tinha feito e disse que meu trabalho passava alegria, orgulho e talento!” Kayla disse que nunca sentira como era bom pintar com os dedos até que Michelle lhe mostrou como pintar sem olhar para o papel.
Foi quando entendi que Kayla não sabia que Michelle era cega. Jamais faláramos sobre o assunto.
Quando contei para ela, ficou quieta por um momento. Primeiro, não quis acreditar. “Mas, mamãe, Michelle compreendeu exatamente o que estava na minha pintura!”, Kayla insistiu. E eu sabia que era verdade porque Michelle ouvira com a maior atenção a descrição que Kayla fizera de seu trabalho. Também ouvira Kayla falar com orgulho da pintura, de como achara fantástico descobrir como as cores se misturam e o prazer que sentira com a textura das tintas.
Ficamos em silêncio até Kayla dizer, devagar: “Sabe, mamãe, Michelle realmente viu minha pintura. Ela usou meus olhos para ver.”
Eu nunca ouvi ninguém se referir a Michelle como cega. Ela não é cega. Ela tem uma espécie de “visão” que todas as mães deveriam usar.

MARSHA ARONS

domingo, 18 de outubro de 2009

Confissões de uma madrasta

Ao conhecer Larry, meu futuro marido, compreendi que era um pacote completo, incluindo McKenna, uma filha de dezoito meses, e Lorin, um menino de quatro anos, nos fins de semana.
No dia em que conheci as crianças, contornamos o lago com Larry carregando uma McKenna de fraldas no colo, enquanto Lorin corria atrás de sapos para me mostrar. Fiquei atordoada. Aquelas crianças eram uma imensa parte do homem que eu amava e, no entanto, tinham muito pouco a ver comigo. Como é que essa história de madrasta funcionava?
Eu rapidamente me apaixonei pelo sorrisinho travesso de Lorin e o corpinho rechonchudo de McKenna, quentinho, contra o meu, quando eu a segurava no colo. Fui completamente cativada pela minha nova e encantadora “família instantânea”, mas a mães das crianças, Dia, já era outra história. Tínhamos um relacionamento cauteloso, as arestas de hostilidade existentes entre nós duas muito tenuemente ocultadas. Eu fazia o possível para ignorá-la e me concentrava nas duas crianças adoráveis as quais ela dera à luz.
As crianças e eu nos dávamos bem, embora Lorin fosse um tanto reservado. Talvez fosse por lealdade à mãe ou por ser menino, ou, aos quatro anos, pelo simples fato de querer mais independência. McKenna, por ser tão pequenininha, não era dada a esse tipo de escrúpulos. Ela me amava e deixava isso bem claro, sem reservas, com uma doçura e inocência que tiravam o meu fôlego. Eu não conseguia resistir ao seu amor e, quando me apaixonei, foi de verdade. Quase que imediatamente formamos nosso próprio fã-clube mútuo — dois corações que pulsavam como um.
Na realidade foi McKenna quem primeiro me pediu em casamento. Estávamos sentadas, juntas, na sala de espera de um aeroporto, a caminho da casa dos pais de Larry. Com quase três anos, estava sentada no meu colo, de frente para mim, brincando com o meu colar. De vez em quando, olhava para o meu rosto com os olhos transbordando de adoração. Sorri, sentindo a presença de meu imenso amor por ela em meu coração. Larry estava sentado ao nosso lado e Lorin passeava pelas fileiras de cadeiras de plástico, fazendo barulhos de motor de carro com a boca. Para um observador desavisado, éramos uma jovem família como outra qualquer. Mas não éramos uma família porque Larry ainda não havia feito aquela pergunta. E muito embora eu não quisesse forçar a barra, nós dois sabíamos que minha paciência estava chegando ao limite. O que, eu me perguntava, estaria ele esperando?
Então, McKenna arrancou a chupeta da boca e, retribuindo o meu sorriso, perguntou, toda animada:
— Quer casar comigo?
Após um momento de sobressaltado silêncio, rimos até a barriga doer. Eu por simples deleite, Larry pela liberação da tensão e as crianças, simplesmente, porque os adultos estavam rindo. Felizmente, não demorou muito para que Larry seguisse o exemplo da filha com o seu próprio pedido de casamento.
Com o passar do tempo, acostumei-me a ser mãe em regime de meio expediente — e a ter a mãe das crianças como parte inevitável de minha vida. Eu gostava de Dia, sinceramente, mas nossas posições pareciam exigir um certo grau de mau humor mútuo que eu fazia o possível para sufocar. Às vezes sentia o condenável desejo de que ela simplesmente sumisse. Abatida por uma doença rápida e indolor, ela, em seu leito de morte, me pediria para criar os filhos em seu lugar. Assim, as crianças ficariam conosco — seriam minhas de fato — e nós poderíamos formar uma família “de verdade”.
Felizmente, isso jamais aconteceu. Eu não queria que ela morresse; apenas sentia ciúmes por ela ter tido filhos com o meu marido. Está bem, está bem, concordo que ele era marido dela naquela época — mas, ainda assim, a situação me exasperava.
Vi as crianças crescerem, deixarem de ser bebês e passarem a freqüentar a escola. A mãe deles e eu dávamos prosseguimento às nossas interações canhestras porém civilizadas, organizando o ir e vir das crianças, negociando férias e feriados.
Meus amigos viviam dizendo que quem tinha de lidar com a ex-mulher era Larry e, por algum tempo, tentamos isso. Mas como madrasta ativa e cheia de boa vontade para com as crianças, eu vivia me metendo nas decisões. Assim, Dia e eu acabamos voltando ao arranjo anterior e, com o passar dos anos, notei que nossos telefonemas foram mudando. Notei que gostava de conversar com Dia sobre as crianças. E acho que ela se deu conta de que havia poucas pessoas no mundo que tinham tanto interesse, que eram tão encantadas ou preocupadas com seus filhos quanto eu. Demos início a uma metamorfose lenta porém perceptível, completada no ano em que Dia me enviou um cartão de Dia das Mães me agradecendo por ser “co-mãe” de seus filhos.
Este foi o início de uma nova era para Dia e eu. E muito embora nem sempre tenha sido perfeita, tenho consciência de que tem sido extraordinária. Assim, tenho os meus próprios agradecimentos a fazer:
Obrigada, Dia, por ser grande o suficiente para compartilhar os seus filhos comigo. Se você não o fosse, eu jamais saberia o que é segurar um bebê adormecido e sentir a completa confiança demonstrada por aqueles membros flácidos, de pele sedosa, reunidos, com todo o cuidado, em meus braços. Jamais teria tido a oportunidade de me maravilhar com as curvas e desvios da mente de um menino enquanto tenta encontrar sentido num universo tão grande e complexo.
Jamais teria sabido que uma criança é capaz de chorar tão alto quando a barriga dói ou que, depois de vomitar, podia sorrir para a gente de forma tão radiante — as bochechas ainda molhadas de lágrimas, a dor já esquecida.
Eu jamais teria assistido a um menino pelejar para se tornar a sua própria pessoa ou participado tão ativamente do processo de crescimento, tão dolorido e sério, de um adolescente. Não teria tido o formidável privilégio de assistir aquele molequinho chato de doze anos, que me enlouquecia com suas perguntas, se transformar num homem lindo, com um sorriso de muitos megawatts e uma personalidade encantadora. E, enquanto se prepara para ir para a faculdade, sei que está prestes a levar uma nova geração de mulheres à loucura — por motivos completamente diferentes.
Não teria sentido a emoção de ver nossa linda filha no palco expressando-se com graça e com uma profundidade de sentimento antigo demais para alguém tão jovem. Ou de sentir a vaidade e o orgulho — completamente desmerecidos (e censuráveis) — quando um desconhecido comenta que McKenna se parece comigo.
Obrigada por transformar a manhã de Natal num evento comunitário para que as crianças jamais tivessem de se sentir divididas num dia que tanto amam. Olhei ao meu redor, um ano, e nos vi sentados ao redor da árvore de Natal enquanto os meninos distribuíam os presentes. Lá estávamos, você e seu marido, Larry e eu, as crianças e... surpreendentemente, eu me senti em casa.
Compreendi, naquele momento, que você não precisava sumir para sermos uma família de verdade.

CAROL KLINE

sábado, 17 de outubro de 2009

O suéter

Era tarde demais quando me dei conta de meu erro. Eu fora de tal forma tomada pela dor diante do rápido declínio e morte de meu pai, que não parará para pensar em como a sua morte afetaria minha filha.
Papai havia passado meses reclamando de uma dor no ombro, “um nervo pinçado” — foi o que achamos. Quando adoeceu durante as férias e foi diagnosticado com um câncer primário e progressivo na próstata, todos ficamos chocados.
Meu pai era uma dessas pessoas especiais que nasceu com um brilho nos olhos. Jamais conheci alguém que não pensasse um mundo de coisas boas a seu respeito. Crianças pequenas, em particular, sentiam-se atraídas por ele como formiguinhas por mel. Ele juntava as mãos e sorria com tanta alegria, que a criançada se aproximava correndo. Durante uma visita à minha irmã, na Irlanda, ensinou a molecada do vilarejo a jogar futebol americano. Era freqüente as crianças irlandesas passarem pela casa à noite para perguntar: “Será que o vovô pode sair para brincar com a gente?”
Assim, não era nenhuma surpresa que ele fosse especialmente próximo de minha filha Jodi, de cinco anos, a última dentre todos os netos que continuou a morar perto dele, nos Estados Unidos. Os dois viviam dando risadinhas e gargalhadas juntos, durante horas, inventando histórias e alimentando animais de mentirinha no quintal.
Quando encontraram o câncer de meu pai, já havia se espalhado para os ossos e, a partir daí, tudo aconteceu rapidamente. Quando íamos visitá-lo, Jodi sentava-se quietinha ao seu lado na cama e fingia ler para ele — as brincadeiras barulhentas haviam ficado para trás. Eu lhe explicara que o vovô estava muito doente e que não podia mais brincar com ela como antigamente, mas era difícil para sua cabecinha de cinco anos compreender.
Perto do final, eu já não levava Jodi comigo por não querer que ela se assustasse com a aparência do avô, com a expressão de dor e de sofrimento no rosto daquele homem vital que todos tanto amávamos.
Depois que ele morreu, fiquei sem saber se Jodi compreendia o caráter definitivo da morte ou se achava que o vovô estava fora da cidade, “de férias”. Mas, com o passar das semanas, ela foi ficando muito quieta e retraída, chorando com freqüência por motivos que eu achava estranhos.
Certa noite, sentei-me com ela no colo e acariciei seus cabelos, suavemente.
— Você me parece muito triste, meu docinho — disse eu. — Quer me dizer o que há de errado?
Ela passou alguns minutos em silêncio e, a seguir, pôs-se a soluçar.
— Eu não consegui me despedir do vovô.
Naquele momento eu me dei conta de que, apesar de meus bons propósitos, eu havia cometido um erro.
Através de uma nuvem de lágrimas mútuas, ficamos sentadas juntas, uma embalando a outra, e conversamos sobre o vovô e sobre todos os momentos maravilhosos passados com ele.
— Você quer dizer adeus para o vovô agora? — perguntei.
Ela olhou para mim como se eu fosse só um pouquinho esquisita.
— Feche os olhos. Agora imagine o rosto do vovô bem à sua frente. Quando ele sorrir, você pode falar com ele.
De repente, um imenso sorriso invadiu seu rosto.
— Ele está sorrindo tão grande para mim!
— Então diga a ele o que você quiser.
— Vovô — começou ela —, eu amo você e sinto muito a sua falta. Quero me despedir de você. Tchau, vovô.
Então me lembrei dos mimos que pegara para mim quando minha mãe empacotou as roupas de papai. Pedi a ela dois de seus suéteres velhos confortáveis, aqueles com os quais ele gostava de ficar em casa nos fins de semana. Fui pegar os dois suéteres azuis e dei um a Jodi.
— Estes são os suéteres especiais do vovô. Quando estivermos tristes ou com saudades dele, é só vestir para senti-lo nos abraçar.
Nós duas choramos enquanto cada uma vestia o seu suéter. Então eu a segurei nos braços enquanto adormecia. Pela primeira vez em semanas ela parecia estar em paz, com um discreto sorriso no rosto.
Os dois suéteres foram muito usados através dos anos. Muitas vezes, quando Jodi estava com algum problema, retirava-se para o quarto. Quando, mais tarde, eu ia verificar se estava tudo bem, era normal encontrá-la deitada na cama envolta no suéter azul do vovô — dormindo pacificamente com a mais sutil insinuação de um sorriso no rosto.
Hoje Jodi tem dezoito anos e ainda adora usar o suéter do avô. De alguma maneira, sempre lhe cabe perfeitamente. E sabem por quê? Porque é do tamanho de um abraço.

PAMELA ALBEE

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Completamente errado

Dizer que minha mãe era completamente inexpressiva não é crítica nem reclamação. Ela era simplesmente uma dessas mulheres que as pessoas não notam. O mundo está cheio de pessoas assim.
Nascida em uma família de alcoólatras, minha mãe decidiu sair de Saint Louis aos dezessete anos porque, como ela dizia, “Não podia agüentar mais um só minuto de discussão, bebida e loucura”. Foi para a Califórnia, morar com uma prima e começar vida nova. Isso aconteceu em 1959.
No ano seguinte se casou com meu pai, que era da Marinha, e tiveram três filhos: Tammy, Tina e eu, Jerry. Meus pais compraram uma casa pequena e simples no condado de Orange em 1967. Em 1975, apesar de seus esforços, se divorciaram. Eu tinha doze anos.
Talvez pela grande mudança provocada pelo divórcio, de repente passei a perceber minha mãe como pessoa. Notei que seu rosto tinha círculos escuros em torno dos olhos e que seu corpo sofrerá com a gravidez e o parto dos filhos. Os homens não olhavam para ela. Parece que nunca notaram os olhos luminosos que eu comecei a perceber com o tempo.
Como muitas outras mães sozinhas, a minha também arrumou um segundo emprego e à noite distribuía formulários de corridas de cavalo em lojas de bebidas alcoólicas. Ela me prometia um sorvete coberto de chocolate para eu ir com ela, pois dizia ser a única forma de estarmos juntos mais um pouco. Levava pilhas de formulários às lojas, sem receber sequer um segundo olhar dos homens detrás dos balcões. Mamãe parecia invisível para os homens.
Mais velho, eu amargava o desinteresse das pessoas por minha mãe. Eu conhecia seu caráter, sua moral e o imenso conhecimento adquirido por ser uma leitora insaciável. Percebi que a vida silenciosa e heróica de minha mãe não era notada nem apreciada. Aquilo me doía.
Em dezenove de fevereiro de 1986 recebi um telefonema no trabalho. Era minha mãe, com a notícia de que o resfriado de que ela tentava se livrar há dois meses era na verdade um tumor no pulmão esquerdo. Uma semana depois foi para a mesa de operação, mas nada havia a fazer. O médico falou em quimioterapia e radioterapia, mas seus olhos nos diziam a dura verdade.
Mamãe lutou com garra contra o tumor, mas parecia que ninguém percebia sua fibra. Ela suportou os efeitos da radiação, que atingiram sua laringe, afetando sua capacidade de engolir e até de respirar. Enfrentou o pesadelo da quimioterapia, comprando uma peruca vermelho-vivo para tentar chamar a atenção da família para o que estava ocorrendo. Não funcionou. Ela lutou para “derrotar o monstro” até perder a consciência, em dois de fevereiro de 1987, morrendo de mãos dadas com seus filhos, que acariciavam seu rosto completamente inexpressivo. Aquilo me encheu de raiva.
Raiva do mundo que não a notara. Eu a notara. Pude observar a luta e a solidão cobrarem seu preço. Como não viram que essa mulher inexpressiva na figura era, na verdade, um lindo ser humano? Tive raiva até o dia do funeral.
Pessoas que eu não conhecia começaram a chegar na capela simples onde ela se encontrava para ser notada pela última vez. Pessoas que tinham trabalhado com ela há vinte anos estavam lá, dizendo que não me viam desde que eu usava fraldas. Amigos de seu último emprego, que eu não conhecia, foram nos abraçar. Até o chefe com quem trabalhara há oito anos esteve lá. Cumprimentou-me e disse que minha mãe inexpressiva era “uma das mulheres mais bondosas que já conheci”.
Comecei a prestar atenção em minha mãe como pessoa aos doze anos e a achei totalmente inexpressiva. Olhei para a capela cheia de pessoas que tinham notado minha mãe e podiam pensar outras coisas dela, mas jamais que fosse inexpressiva.
Foi uma alegria profunda constatar que estava completamente errado. Debaixo da aparência inexpressiva de minha mãe, essas pessoas perceberam, o tempo todo, a pessoa extraordinária que estava ali.

GERALD E. THURSTON JR.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Além do controle

Quando tocaram a campainha naquela tarde, abri a porta meio entorpecida. Era a pior hora para aparecer alguém! Um homem de rosto simpático se apresentou: viera consertar o sistema de alarme.
No quinto mês de gravidez, eu estava com os nervos à flor da pele, esperando o telefone tocar. Minha paz de espírito poderia vir da notícia que aguardávamos.
Durante um ano e meio nós tínhamos tentado ter um bebê, chegando a fazer testes de fertilidade, sem um resultado conclusivo. Finalmente fiquei grávida.
O primeiro trimestre transcorreu normalmente, a não ser pelos enjôos matinais, que eu sabia serem temporários. Esperava ansiosa pelas consultas médicas, para saber cada vez mais sobre nosso filho. Então quando o médico perguntou se eu queria fazer um exame de sangue que detectaria algum eventual problema, concordamos imediatamente. Chegando os resultados, o médico me telefonou e, com um tom profissional, embora preocupado, disse que havia sugestão de síndrome de Down. Para certificar-se, agendou um ultra-som e uma amniocentese.
Embora apreensivos, meu marido e eu nos emocionamos, pois pela primeira vez pudemos ver o bebê se mexer. Tudo se tornou real de repente: íamos mesmo ter um bebê, um menino! Não poderia haver nada de terrível com ele, não é?
Foi duro saber que os resultados demorariam duas semanas e que este período seria suficiente para pôr termo à gravidez de maneira segura. Mas, qualquer que fosse o resultado, para nós esta não parecia uma opção.
Não imaginava que duas semanas pudessem parecer uma eternidade. Eu tentava me distrair, pensar em outras coisas, mas as palavras “fora dos padrões de normalidade” ficavam se repetindo na minha cabeça. Rob ia para o trabalho e eu me sentia desamparada em casa.
Finalmente chegou o dia de saber o resultado. Nunca esquecerei meu nervosismo, em casa, sozinha, esperando o telefone tocar. Mas ele não tocava e lá pelo meio-dia não agüentei mais. Liguei para o médico, mas a enfermeira disse não ter ainda a resposta. Foi neste dia que o técnico veio consertar o alarme.
Quando a campainha tocou, eu estava a ponto de explodir. Como um autômato, deixei o técnico entrar e mostrei a ele o sistema de alarme, pensando: “Isso vai custar uma fortuna, aconteceu na pior hora.”
Fui ensinada a acreditar que “Deus sabe a hora certa”, mas essa fé dava sinais de estar abalada. Umas duas horas depois, a enfermeira ligou. Respirei fundo ao ouvir: “Temos uma notícia boa e uma ruim.”
A boa era que nosso filho não tinha síndrome de Down. A ruim era que se apresentava um problema nos cromossomos. Se Rob e eu também tivéssemos o problema, nosso filho nasceria bem. Mas, caso contrário, significava que faltava alguma coisa na composição dos genes do bebê.
“Alguma coisa faltando?” Tentei não gritar. “Como assim? Isso quer dizer o quê?”
“Desculpe, senhora Horning, não se pode dizer o que há de errado com o bebê até ele nascer. Agora o melhor a fazer é a senhora vir aqui imediatamente com seu marido para um exame de sangue.”
“Imediatamente? Podemos ficar sabendo hoje?”
“Podemos fazer o exame hoje e ter o resultado em cinco dias.”
“Cinco dias?”
Foi quando perdi o controle. Não me lembro de ter chorado e gritado tanto em meus trinta e quatro anos de vida. Parecia que eu tinha levado um soco no estômago e que estava tomando fôlego para receber outro. Lembro que liguei para o trabalho de Rob, ainda histérica.
“Colleen, querida, ouça. Peça ajuda à vizinha. Vou sair logo que puder, mas não quero que você fique sozinha.” Desliguei o telefone, apavorada.
Fiquei ali, sem ar, e me lembrei então que o técnico do alarme ainda estava trabalhando e provavelmente ouvira tudo. Com vergonha, achei que tinha de me desculpar. Chorando, fui até a sala da frente e o encontrei encostado no umbral da porta, como se esperasse por mim. Antes que eu dissesse qualquer coisa, ele me levou até uma cadeira.
“Sente-se”, ele disse. “E respire fundo, procurando relaxar.”
As instruções específicas e o tom gentil me pegaram de surpresa. Sentei e comecei a respirar, me sentindo mais calma.
Aquele estranho se sentou à minha frente e, numa voz tranqüila, me contou como ele e a mulher tinham perdido o primeiro filho. O bebê nascera morto porque eles não sabiam que ela desenvolvera diabetes durante a gravidez. Ele continuou dizendo como fora duro aceitar o fato até que, finalmente, desistiram e admitiram que era algo que lhes fugia ao controle.
“Eu entendo como seu coração está doendo agora. Mas só o que a senhora pode fazer é ter fé e compreender que o que está acontecendo com seu bebê está fora do seu controle. Quanto mais tentar tomar as rédeas da situação, ter controle sobre o bebê, sobre os exames, tudo isso, mais a sua incapacidade de mudar as coisas vai fazer-lhe muito mal.”
Tomou minha mão e disse que há poucos meses ele e a mulher tinham sido abençoados com uma menininha saudável. Dessa vez, não tinha havido problemas. É claro que pensam ainda no garotinho que perderam, mas hoje entendem e aceitam que, por alguma razão, não era para ele viver. Pediu para eu tentar manter a fé e afirmou que sentia que tudo daria certo.
Então, com a mesma calma com que me contou sua história, ele se levantou e se dirigiu à porta. Virou-se e disse que já consertara o alarme.
Aquele homem me ajudou como nenhuma outra pessoa poderia ter feito! Ao apertar sua mão e dizer “obrigada”, me lembrei de que não pagara pelo serviço.
Ele sorriu e disse que eu nada lhe devia. Tudo que pedia era que eu mantivesse a fé.
Entreguei a Deus e, no final das contas, tudo aconteceu na hora certa.
COLLEEN DERRICK HORNING

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

A boneca quebrada

Eis como uma amiga me contou a história passada com sua filha.
Preocupada com sua demora em chegar da escola, eu estava aborrecida quando ela finalmente apareceu. Com a voz zangada, pedi que explicasse a razão do atraso.
Ela disse: “Mamãe, eu estava vindo a pé com Julie quando, no meio do caminho, ela deixou cair a boneca, que se partiu em mil pedaços.”
“Ah, meu bem”, respondi, “você se atrasou porque foi ajudar Julie a tentar colar os pedaços da boneca.”
Com sua vozinha inocente, minha filha disse: “Não, mamãe, eu não sabia como consertar a boneca. Só fiquei lá para ajudar Julie a chorar.”

DAN CLARCK

terça-feira, 13 de outubro de 2009

O dia em que soltamos pipas

“Linha!”, gritou meu irmão. “Precisamos de mais linha!”
Era sábado, como sempre um dia ocupado, pois “Trabalharás durante seis dias e farás todos os trabalhos” era levado a sério então. Do lado de fora, papai e o vizinho, o senhor Patrick, também cumpriam suas tarefas.
Mamãe e a senhora Patrick faziam a limpeza da primavera. O vento tornava aquele dia de março ideal para arrumações de armário. As roupas de lã já balançavam no varal do quintal.
De alguma forma, os meninos tinham conseguido ir para o morro atrás da casa com suas pipas. Agora, mesmo com o risco de deixar meu irmão encurralado e obrigado a bater tapetes, eles o mandaram pegar mais linha. Aparentemente não havia limites para a altura que as pipas poderiam alcançar.
Mamãe olhou para a sala, a mobília desarrumada esperando uma limpeza espartana. Mas seus olhos se dirigiram à janela: “Venham, meninas! Vamos levar linha para os garotos e vê-los soltar as pipas!” No caminho, encontramos a senhora Patrick rindo com um ar de culpa, as filhas ao lado.
Nunca houve um dia tão bom para soltar pipas. Deus não faz dois dias iguais no mesmo século. Pusemos toda a linha extra nas pipas dos meninos e elas continuavam a subir. Mal podíamos distinguir os pontos cor de laranja no céu. De vez em quando, puxávamos a linha devagar, fazendo-as mergulhar, apenas para ter a alegria de vê-las subir de novo. Que emoção correr com elas, para a direita, para a esquerda, percebendo que nossos pequenos movimentos em direção ao chão refletiam-se minutos depois na majestosa dança das pipas no céu! Escrevemos desejos em pedaços de papel e os encaixamos na linha. De forma lenta e irresistível, eles subiram até alcançar as pipas. Com certeza seriam desejos realizados.
Até nossos pais largaram enxadas e martelos e se juntaram a nós. Nossas mães também brincaram, rindo como estudantes. Seus penteados se desfizeram e os cachos caíram sobre seus rostos, seus aventais riscadinhos batendo em suas pernas.
Misturada à nossa alegria havia alguma coisa que causava admiração: os adultos estavam brincando conosco! Olhei para mamãe e a achei realmente bonita. E ela já tinha mais de quarenta anos! Não sentimos o tempo passar no alto da montanha. Não existia o tempo, apenas a brisa dourada. Estávamos além de nossos corpos. Os pais esqueceram seus deveres e brincaram sem qualquer vergonha. As crianças esqueceram disputas e implicâncias. Talvez seja assim o reino do céu, pensei, confusa.
A tarde caía e nós, bêbados de sol e ar, voltamos cambaleantes e sonolentos para casa. Acho que fizemos um lanche. Acho que foi feita uma limpeza superficial, mas a casa, no domingo, até que estava arrumada.
O estranho é que nós nunca mencionamos este dia depois. Eu me sentia um pouco envergonhada. Com certeza, a experiência tinha sido mais profunda para mim do que para os outros, e tranquei a lembrança lá no fundo, onde guardamos “as coisas que não podem ser e mesmo assim são”.

Passaram-se os anos e um dia eu estava ocupada na cozinha enquanto minha filha de três anos insistia em “ir ao parque ver os patos”.
“Não posso!”, eu disse. “Tenho muitas coisas para fazer e, quando terminar, vou estar cansada para ir tão longe.”
Minha mãe, que nos visitava naquele momento, parou um instante de descascar as ervilhas e disse: “Está uma manhã linda, quente, mas com uma brisa que me faz lembrar aquele dia em que soltamos pipas.”
Parei entre o fogão e a pia. A porta trancada se abriu e trouxe um jorro de lembranças. Tirei meu avental e disse à minha filha: “Vamos. Vovó tem razão. O dia está muito bonito para se desperdiçar.”

Passou-se uma década. Estávamos no pós-guerra. Durante toda a noite ouvimos o filho mais jovem do senhor Patrick contar suas experiências de prisioneiro num campo de concentração. Depois de falar bastante, ficou em silêncio. Estaria pensando nas duras situações que enfrentou?
De repente, com um sorriso nos lábios, ele disse: “Ei! Vocês lembram... não, claro que não. Não deve ter deixado em vocês a mesma impressão que deixou em mim.”
Tive até medo de perguntar: “Lembrar o quê?”
“No campo de prisioneiros, naquela situação tão terrível, eu me lembrava sempre daquele dia. Vocês lembram o dia em que soltamos pipas?”

Chegou o inverno e eu tinha a espinhosa missão de visitar a senhora Patrick, que ficara viúva. Era difícil. Não podia imaginá-la enfrentando a vida sozinha.
Conversamos um pouco sobre as famílias e sobre as mudanças na cidade. Então, ela ficou em silêncio, olhando para o colo. Limpei a garganta, me preparando para falar sobre sua perda e vê-la chorar.
Quando levantou o rosto, ela sorria: “Eu estava aqui sentada, pensando. Henry se divertiu tanto naquele dia. Frances, você se lembra do dia em que soltamos pipas?”

FRANCES FOWLER
apresentada por Ruth Rogness

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

O dia em que eu estava tão ocupada

“Mamãe, veja!”, gritou minha filha de sete anos, Darla, apontando para um filhote de falcão planando no ar.
“Hum, hum”, murmurei, enquanto dirigia, pensando no horário apertado daquele dia.
Seu rostinho mostrava decepção.
“O que foi, querida?”, perguntei, completamente absorta em meus pensamentos.
“Nada”, respondeu Darla. O momento se fora. Perto de casa, diminuí a velocidade para tentar ver o coelhinho que toda noite aparecia vindo de trás das árvores, mas ele não estava lá.
“Esta noite ele está muito ocupado”, eu disse.
Em casa, as tarefas me esperavam: jantar, banho, telefonemas, arrumações. Até que chamei Darla para dormir. Ela subiu as escadas correndo. Cansada, beijei seu rosto, rezamos e a coloquei na cama.
“Mamãe, esqueci de lhe dar uma coisa!”, ela disse.
“Deixa para dar amanhã”, respondi, impaciente.
Mas ela balançou a cabeça e retrucou: “Você não vai ter tempo amanhã!”
“Vou sim!”, respondi, na defensiva.
Às vezes, por mais que tentasse, o tempo me escorregava entre os dedos como areia numa ampulheta. Nunca era suficiente. Nem para minha filha, nem para meu marido, nem para mim.
Ela ainda não desistira. Franziu o narizinho pintado de sardas numa careta e jogou o cabelo castanho para trás.
“Não vai não! Vai ser como hoje, quando eu falei para você olhar o falcão. Você nem prestou atenção!”
Eu estava muito cansada para discutir e ela chegara bem perto da verdade.
“Boa noite”, fechei a porta do quarto dela com força.
Mais tarde, me lembrando de seu olhar azul-acinzentado, pensei que daqui a pouco ela cresceria e iria embora.
Meu marido perguntou por que eu estava tão abatida e lhe contei.
“Talvez ela ainda esteja acordada. Por que você não vai lá?”, ele falou, exercendo seu papel de pai.
Segui seu conselho, preferindo que a idéia tivesse sido minha.
Abri a porta e a luz vinda da janela iluminava a cama. Nas mãos de Darla, um papel amassado. Devagar, abri sua mão para saber a causa de nosso desentendimento.
Fiquei com os olhos cheios d’água. Ela rasgara em pedacinhos um grande coração vermelho com um poema intitulado “Por que Amo Minha Mãe!”.
Catei os pedacinhos, montei o quebra-cabeça e li:

Por que Amo Minha Mãe!

Mesmo tendo tanta coisa pra fazer e trabalhando tanto,
Você sempre encontra tempo pra brincar.
Amo você, mamãe,
Porque sou a parte mais importante do seu dia tão ocupado!

As palavras foram como uma flecha direta no meu peito. Com sete anos, minha filha tinha uma sabedoria extraordinária.
Dez minutos depois, levei até seu quarto uma bandeja com duas xícaras de chocolate quente e dois sanduíches com seu recheio favorito. Quando toquei de leve no seu rosto, senti meu coração transbordar de amor.
Ela acordou piscando com seus lindos cílios e olhou para a bandeja.
“Para que isto?”, perguntou, confusa com a invasão noturna.
“É para você, que é a parte mais importante do meu dia tão ocupado.”
Ela sorriu e, sonolenta, bebeu a metade do seu chocolate. Então voltou a dormir. Fiquei ali um longo tempo, acariciando o seu cabelo, dizendo o quanto a amava e como achava lindo que a minha filhinha de sete anos pudesse me ensinar coisas tão fundamentais.
CINDY LADAGE

domingo, 11 de outubro de 2009

Movendo montanhas

Havia nos Andes duas tribos em guerra. Uma vivia na parte baixa; a outra, na parte alta das montanhas.
Um dia, a parte baixa foi invadida pelos povos do alto, que, além de saquearem os inimigos, raptaram um bebê e o levaram para as montanhas.
Os povos da parte baixa não conheciam os caminhos usados pelos povos da montanha. Não sabiam como chegar ao alto, como chegar aos inimigos ou rastrear seus passos pelos terrenos escarpados.
Mesmo assim, enviaram seus melhores guerreiros para subir a montanha e trazer a criança de volta.
Os homens tentaram diferentes métodos de escalada. Primeiro um caminho, depois outro. Após vários dias de esforços, não tinham subido nem quinhentos metros.
Sentindo-se impotentes e sem esperança, os homens da parte baixa consideraram a causa perdida e se prepararam para voltar para sua cidade.
Enquanto arrumavam o equipamento para a descida, viram a mãe do bebê andando na direção deles. Perceberam que ela estava descendo a montanha que eles não tinham conseguido subir.
E então descobriram que o bebê estava amarrado às costas da mulher. Como era possível?
Um dos homens a saudou, dizendo: “Nós não tivemos êxito em subir a montanha. Como você chegou ao alto se nós, os homens mais fortes e capazes da cidade, não conseguimos?”
Ela encolheu os ombros e respondeu: “É que não era o filho de vocês que estava lá.”

JIM STOVALL
Bits & Pieces

sábado, 10 de outubro de 2009

Sabedoria de Salomão

Certo dia, duas prostitutas apresentaram-se diante do rei Salomão e uma delas disse:
— Ó rei Salomão! Eu e esta mulher moramos na mesma casa. Eu dei à luz um menino e ela estava lá comigo. Dois dias depois do nascimento do meu filho, ela também deu à luz um menino. Somente nós duas estávamos na casa; não havia mais ninguém lá. Uma noite ela rolou sem querer sobre seu filho e o sufocou. Então levantou-se durante a noite, enquanto eu dormia, pegou o meu filho e o colocou na cama dela. Depois colocou o menino morto nos meus braços. No outro dia de manhã, quando eu me levantei para dar de mamar ao meu filho, vi que estava morto. Porém, quando reparei bem, percebi que não era o meu filho.
Mas a outra mulher disse
— Não é verdade. Pelo contrário, meu filho é o que está vivo, e o seu é o que está morto!
E a primeira mulher respondeu:
— Não é, não! A criança morta é a sua, e a viva é a minha!
E foi assim que discutiram na frente do rei.
Então o rei Salomão disse:
— Cada uma de vocês diz que a criança viva é a sua, e que a morta é da outra.
Então mandou buscar uma espada e, quando a trouxeram, disse:
— Cortem a criança viva pelo meio e dêem a metade para cada uma destas mulheres.
A verdadeira mãe do menino, com o coração cheio de amor pelo filho, disse:
— Por favor, Senhor, não mate o meu filho! Entregue-o a esta mulher!
Mas a outra disse:
— Podem cortá-lo em dois pedaços! Assim ele não será nem meu nem seu.
Aí Salomão disse:
— Não matem a criança! Entreguem o menino à primeira mulher porque ela é a mãe dele.
Todo o povo de Israel soube dessa decisão do rei Salomão, e aí todos sentiram um grande respeito por ele, pois viram que Deus lhe tinha dado sabedoria para julgar com justiça.

LIVRO DOS REIS

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Jantar de família

Olhei para meus filhos gêmeos adolescentes e tive vontade de chorar. Ele de calças bufantes, cabelo cor de laranja e brincos. Ela com uma argola no nariz, tatuagem temporária e unhas pintadas das cores mais estranhas.
Era Pessah e íamos a um jantar de família. O que as pessoas diriam? Já podia imaginar tios e tias murmurando comentários, olhando e meneando as cabeças em desaprovação.
Eu podia ter iniciado uma discussão ali mesmo, na porta. Poderia ter ameaçado, ridicularizado, me recusado a sair. Mas para quê? Não queria causar problemas nem usar palavras agressivas naquele dia.
Teria sido mais fácil se ainda tivessem nove anos. “Voltem para seus quartos e se vistam adequadamente”, eu diria. Mas tinham dezesseis anos e, para eles, suas roupas eram perfeitamente adequadas.
E lá fomos nós. Eu estava pronta para os olhares, mas eles não vieram. Estava pronta para os comentários, mas não foram feitos. Meus filhos se sentaram (a princípio meio desconfortáveis) à mesa de vinte lugares, bem ao lado de seus primos impecavelmente arrumados.
Participaram das orações e dos cantos. Meu filho ajudou os primos mais novos nas leituras. Minha filha ajudou a trocar os pratos na hora da sobremesa.
Eles riram, brincaram e ajudaram a servir o café para os mais velhos.
Percebi, enquanto constatava como eram bonitos e simpáticos, que não devia me importar com o que os outros pensassem. Para mim, eles eram o máximo. Estavam respeitando nossas tradições com entusiasmo e se relacionavam com a família de forma amorosa. Isso vinha naturalmente — de seus corações.
Sentada em frente a eles, eu os observava. Soube naquele momento que os cabelos, as roupas e as tatuagens eram só afirmação de adolescente. Isso mudaria com o tempo. Mas sua participação nas orações da nossa festa e a união de nossa família permaneceriam para sempre nos seus corações. Mesmo quando fossem mais velhos, isso nunca iria mudar.
Logo a celebração do Pessah terminaria. A música muito alta, os amigos e o grande tumulto voltariam à nossa vida. Eu gostaria que essa noite especial não terminasse. Foram momentos preciosos que só as mães podem compreender. Acho que não importa a idade dos filhos. Às vezes é apenas um sorriso rápido e engraçado ou um pequeno gesto que faz cintilar em nós um sentimento avassalador de amor absoluto.
Observando meus filhos, senti que estavam alegres e em paz. Tive vontade de abraçá-los e dizer como os achava incríveis. Mas não fiz isso. Queria beliscar suas bochechas como fazia quando tinham nove anos e dizer o quanto os achava bonitos. Mas também não fiz isso. Fiquei no meu lugar, cantei, comi e conversei com os outros.
Mais tarde, em casa, eu lhes diria. Sozinha com eles, diria o que representara terem ido à festa. Como eram sensacionais e como estava orgulhosa de ser sua mãe.
Mais tarde, sozinha com eles, eu diria o quanto os amo. E foi isso que fiz.

SHARI COHEN

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Os setenta e cinco anos de mamãe

Ela secretamente deseja um balão de oxigênio como presente.
Através dos anos, ela gritou, falou e rezou “Jesus, Maria, José, me dêem paciência” 1.245.187 vezes.
Suas mãos penduraram fraldas em varais de roupa, esterilizaram mamadeiras, carregaram bebês, passaram roupinhas e orgulhosamente empurraram carrinhos.
Ela descascou mais batatas do que seis soldados em serviço.
Seu cabelo passou por várias fases: permanente, tintura com cápsulas colorantes, coque, outro permanente, tinta prateada.
Recebia visitas na “sala”, guardava as compras na “despensa”, o sorvete na “geladeira” e terça-feira era dia de usar a “máquina de lavar”.
Ela se graduou em cuidados com crianças através de sarampo, catapora, caxumba, pneumonia, pólio, tuberculose, febres, cortes, gripes, braços quebrados e corações partidos.
Volta e meia seu armário abrigava vestidos, chapéus enfeitados, luvas brancas, saias curtas e longas, vestidos vaporosos, tecidos de forros, roupas de domingo e brinquedos de Natal encomendados pelos catálogos da Sears.
Seu coração conheceu o êxtase do amor por um homem, a alegria dos filhos, o amargor de seus erros, o calor dos amigos, a celebração dos casamentos, a bênção de netos e bisnetos.
Quem pode contar quantas escadas esfregou, os jantares que preparou, quantos presentes embrulhou, as lições que tomou, as histórias que leu para as crianças dormirem, quantas desculpas ouviu e quantas orações elevou a Deus?
Seus braços ninaram gerações de bebês. Suas mãos prepararam incontáveis pratos “favoritos”. Seus joelhos se dobraram para rezar, muitas e muitas vezes, por aqueles que amava. Beijou muitos machucados que doíam e suas costas se curvaram para dar banho em cowboys sujos, catou muita roupa espalhada de adolescente, colheu muitas flores do jardim e envelheceu.
Passou pela vida com risos e lágrimas, vendo o pôr-do-sol de ontem se tornar o amanhecer de esperança e promessa. Por causa dela e do marido, a vida de família e amor continuou por gerações.
Quando uma mãe faz setenta e cinco anos, abençoados são aqueles que a rodeiam com seu amor.

ALICE COLLINS
apresentada por Geraldine Doyle

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

A madrasta

Desde nosso divórcio amigável há alguns anos, Eric e eu ficamos bons amigos. Entramos em acordo quanto às regras de educação e às visitas ao nosso filho Charley, que se beneficiava desse nosso equilíbrio. Ele parecia bem ajustado e feliz.
Assim, quando conheci a noiva de Eric, que, afinal, ia se tornar a madrasta de meu filho, fiquei um pouco nervosa. Não havia dúvida de que Bonny teria influência sobre a vida de Charley. O que me desagradou na época foi a influência que ela teria na minha vida.
No nosso primeiro encontro fiquei impressionada em como éramos diferentes. Suas roupas tinham um ar de “vestida para o sucesso”, enquanto eu fazia o gênero “desinteresse amarrotado”. Ela era atraente, serena e segura, enquanto eu era desalinhada, nervosa e tagarela. Eu me sentia desconfortável e desconfiada, prestando atenção em todos os seus maneirismos e inflexões, avaliando-a como futura madrasta de Charley. Meu pensamento basicamente era: “O que ela vai fazer com meu bebê?”
Até então eu tinha várias fantasias sobre a pessoa com quem meu “ex” se casaria um dia. Uma delas era que ela seria uma bruxa malvada, uma megera furiosa de quem meu filho fugiria gritando. Ele correria para mim, naturalmente, sua mãe de verdade, dona de infinita sabedoria e paciência, como só uma mãe pode ter. Havia outra hipótese assustadora: a madrasta seria tão legal que um dia eu ouviria meu filho me anunciando: “Não vou para casa hoje, mamãe. Bonny tem um camarote para assistir ao campeonato de futebol.”
De qualquer forma, havia uma pessoa que estava para se tornar a outra mãe de meu filho e tudo que eu podia fazer era observar e esperar.
Com o tempo me tornei menos desconfiada e mais natural em relação a Bonny. Ela ficou menos profissional e mais familiar em relação a mim. Nós nos entendemos entre a rotina de horários de pegar e levar Charlie, estar presentes a reuniões de pais e assistir a jogos de futebol.
Então, uma noite, meu novo marido e eu convidamos Bonny e Eric para um café depois de uma reunião de pais. Charley adorava nos ver todos juntos e estava feliz. Durante a noite, tensões e pretensões se derreteram. Bonny e eu baixamos nossas defesas e falamos mais francamente. Em vez de “ex-mulher” e “madrasta”, éramos agora apenas amigas.
Alguns meses depois, nós quatro nos reunimos para falar da formatura de Charley. Em vez de trazer seus esquemas, listas e dados — como se apresentasse um projeto ante um comitê —, Bonny confessou sua vulnerabilidade. Falou de suas inseguranças e ansiedade em lidar com um adolescente como Charley. Estava exigindo demais ou pedindo de menos? Estava pressionando-o ou mimando-o?
Meu coração se abriu para ela. Afinal, seus pensamentos e temores eram iguais aos meus. Ela estava pensando, sentindo e se comportando como mãe — o que ela se tornara.
Assim, a segunda mãe de Charley nem é a bruxa má, que magoaria meu filho, nem uma fada madrinha, que o roubaria de mim. Ela é uma mulher que o ama, se preocupa com ele, lutaria por ele e o protegeria do mal.
Em vez de me preocupar com a aparência de Bonny, passei a ser agradecida por sua presença na vida de Charley e na minha. A visão que ela tem das coisas, suas idéias e até suas listas ajudaram a criar meu filho.
Eu estava errada em querer manter Charley grudado em mim, como um brinquedo. Eu não queria dividir. Talvez eu tenha sido a primeira a amá-lo, mas isso não significa exclusividade. Descobri como é importante que meu filho seja cercado de afeto. Agora há mais uma mulher no mundo cuidando dele de forma especial. E, por isso, com alegria, divido o título de mãe.

JENNIFER GRAHAM

terça-feira, 6 de outubro de 2009

O dia em que tudo deu errado

uando uma falha ocorre, há apenas atraso, mas não derrota.
É um desvio temporário, mas não um beco sem saída.
WILLIAM ARTHUR WARD

Toda vez que, como mãe, eu preciso de ajuda, me lembro de minha própria mãe e de minha avó, mulheres que plantaram sementes de sabedoria na minha alma.
Num dia daqueles, cheguei em casa e encontrei um insolente segundo aviso de uma conta de gás que não fora paga e meus três filhos quase a nocaute.
Tommy, de onze anos, reclamava de um corte de cabelo malfeito. Teve de agüentar os meninos o chamando de “carequinha”, ele me contou, escondendo a cabeça com as duas mãos.
Lisa estava desolada: apesar de ter estudado tanto para o teste final da segunda série, errara duas palavras.
Jenni, no primeiro ano, fora traída por sua risada nervosa na hora da leitura e tropeçara numa frase.
Olhei aquelas três carinhas desconsoladas com a maior ternura e a imagem de minha avó apareceu sorrindo em minha cabeça:
“Muito bem, queridos, sabem que dia é hoje? É ‘um dia em que deu tudo errado’. Vamos festejar!”
Eles me olharam, surpresos e curiosos. Continuei: “Minha avó sempre dizia que aprendemos mais com nossos erros do que com nossos sucessos. Ela falava que quanto mais uma pedra se desgasta pela ação do tempo, mais longe ela vai ricochetear. Vamos ao McDonald’s para nossa primeira ‘festa do dia em que deu tudo errado’.”
Essa foi a primeira de muitas outras festas por coisas que deixaram de dar certo. Procurávamos o que podíamos comemorar em meio a tragédias, em vez de nos angustiarmos pelo que tínhamos sofrido.
Espero ter plantado nas almas de meus filhos as sementes reunidas pela sabedoria das mulheres que me antecederam. E que essas sementes se espalhem nos seus próprios jardins um dia.

JUDITH TOWSE-ROBERTS

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Um coração clemente

Esta manhã, eu estava com pressa de chegar em casa após realizar algumas pequenas tarefas na rua. Ao dobrar à direita para entrar no meu bairro, que fica um pouco escondido por trás de arbustos, um garotinho de camiseta amarela passou como um raio na frente de meu carro. Estava de pé, equilibrado sobre os pedais da bicicleta vermelha, as pernas trabalhando como bombas hidráulicas, ignorando por completo a minha existência — ou a existência de qualquer perigo —, seguríssimo por trás da invencível imortalidade de um menino.
Ele passou, literalmente, a centímetros de meu pára-choque. Pisei violentamente no freio, um reflexo físico sem nexo — uma vez que ele já se fora, há muito. Eu tremia e levei algum tempo para recuperar o fôlego. Em um terrível instante, a vida daquele menino poderia ter terminado. Seus pais teriam passado o resto da vida com uma imensa dor e a minha própria vida teria se transformado num pesadelo
Continuei pela rua, relembrando o rosto do menino. Sob a lente de aumento de meu medo, podia visualizar, claramente, os olhos arregalados num misto de bravata e de pavor, o sorriso desdenhoso, iluminado por mais um triunfo sobre o enfadonho mundo da preocupação adulta. Ele era tão admiravelmente vigoroso, de tal forma intrépido, que o meu choque em quase tê-lo matado foi imediatamente substituído por raiva, beirando a ira.
Transtornada de fúria — com a falta de atenção dele, não com a minha —, fui para casa. A agitação causada por quase ter atropelado aquele menino me perturbou pelo resto do dia. Então, no crepúsculo, lembrei-me de Mikey.
Quando era pequena, Mike Roberts era meu melhor amigo. Meu pai era médico numa cidadezinha ao longo do rio Ohio e meus pais eram muito próximos dos de Mike. Na realidade, a casa deles ficava a um terreno baldio de distância da clínica de papai.
Mikey, como o chamávamos, era aventureiro e audacioso. Sua mãe, Judy, era muito afável conosco, as crianças, e fazia os melhores biscoitos de manteiga de amendoim do universo. Jamais trancavam as portas e eu tinha toda a liberdade naquela casa.
Numa sexta-feira, minha mãe planejava ir a Cincinnati fazer compras e disse que eu deveria passar o dia na casa dos Roberts. Judy estava à minha espera. Não era para eu me empanturrar de biscoitos ou andar de bicicleta na rua.
Quando ela saiu naquela manhã, parti de bicicleta para a casa dos Roberts. Estava a uns cinqüenta metros da curva que levava à rua de Mikey quando ouvi um barulho que, às vezes, ainda ouço em meus sonhos. Era o feroz guincho de pneus quando alguém pisa no freio com tudo. O som me pareceu durar uma vida, embora, em retrospecto, tenha certeza de que se calou rapidamente. Seguiu-se então o barulho estridente de metal sendo esmagado. Como um relâmpago, parti em minha bicicleta e dobrei a esquina à toda.
Havia um caminhão quase emborcado na rua. Um pouco à frente do pára-lama via-se a Schwinn vermelha de Mikey de tal forma retorcida, que parecia a metade de uma bicicleta, os dois pneus agora achatados, um contra o outro.
Mikey estava deitado na grama com um brutamontes curvado sobre ele. Saltei da bicicleta, deixei-a cair e corri para o local onde o meu amigo se encontrava, silencioso e imóvel sobre um tapete de folhas. No mesmo instante, a porta da frente da casa dele se abriu e sua mãe saiu. Acho que nunca vi alguém correr tão rápido. Ao mesmo tempo surgiu uma maca de dentro da clínica de meu pai, seguida de papai e de um ajudante.
Uma multidão se formou, imediatamente. Judy ajoelhou-se ao lado da cabeça de Mikey. Papai disse a Judy que não mexesse no filho e se curvou para examiná-lo. O motorista do caminhão deixou-se cair sentado, pesadamente, a alguns metros dali. Devia pesar mais de noventa quilos. Tinha ombros largos e arredondados e um pescoço grosso com rugas profundas que luziam com gotas de suor. Usava um macacão azul e uma camisa quadriculada de vermelho.
Ficou sentado no gramado como um touro atordoado. A cabeça repousava nos joelhos dobrados e os ombros tremiam, embora eu não achasse que estivesse chorando.
Cravei os olhos naquele homem, tentando fazê-lo sentir o quão fula eu estava. Aposto que não estava prestando atenção, pensei. Uma falha bastante comum entre os adultos que eu conhecia. Muitas vezes me davam a impressão de desatenção e este daqui havia machucado o meu amigo. Eu sentia vontade de machucá-lo de volta de alguma forma indizível.
Dali a alguns minutos, Mikey voltou a si e desatou a chorar. Meu pai o imobilizou numa padiola e colocou-o sobre a maca. Judy pegou a mão de Mikey e todos avançaram para a entrada de emergência da clínica. Fui deixada a sós com o motorista de caminhão, que agora se encontrava sentado com a cabeça baixa sobre os braços cruzados. Seu corpo ainda tremia, como se estivesse com calafrios.
Ficamos ali sentados em silêncio durante o que me pareceu ser uma eternidade. Então Judy saiu pela entrada principal da clínica e caminhou em nossa direção. Relatou que Mikey ficaria bem. Só machucara o braço. Poderia ter sido muito pior.
Achei que ela, certamente, acertaria um tapa na cara do caminhoneiro ou que, pelo menos, falaria com ele de maneira severa. Mas o que ela fez, de fato, me deixou perplexa. Pediu-lhe que a acompanhasse até a sua casa.
— E você também — disse, dirigindo-se a mim.
Perguntou ao motorista seu nome e disse-lhe que se acomodasse diante da lareira, que ia buscar um café. Ele ergueu a mão dispensando a oferta, mas ela trouxe o café ainda assim — além de leite e de biscoitos para mim. Stan, o motorista, não conseguia comer ou beber nada. Permaneceu sentado na poltrona azul, preenchendo-a por completo. De vez em quando começava a tremer e Judy passava o braço por cima de seu ombro e lhe dizia, com aquela voz maravilhosamente suave:
— Você não teve culpa. Não estava em alta velocidade. Mikey se arrisca estupidamente e eu sinto muito quanto a isso. Só fico grata por ele não ter se ferido gravemente. Eu não o culpo. E você também não deveria se culpar.
Escutei o que ela dizia, incrédula. Como podia ela dizer aquelas coisas para um homem que quase matara o seu filho, o meu amigo? O que poderia haver de errado com ela? Dali a pouco, ela conseguiu acalmar o motorista um pouco — pelo menos foi o que achei — e ele se levantou para ir embora.
Ao chegar à porta, virou-se para ela e disse:
— Eu também tenho um filho. Imagino o que deve ter lhe custado me ajudar.
Então, só para acrescentar mais um assombro ao dia, Judy ficou na pontinha dos pés e beijou-lhe a face.
Eu jamais conseguira compreender como Judy fora capaz de oferecer alívio e consolo para um homem que não havia matado o seu filho por muito pouco... até hoje, quando fiz a curva para entrar naquele bairro tão familiar e passar a centímetros daquilo que teria sido um ato terrível e irreversível.
Ainda tentando me livrar do pavor que ocupara a minha mente o dia todo, pensei na mãe de Mikey e naquele dia de outono, há tanto tempo. E muito embora não houvesse ninguém ali para me consolar, para me dizer que não havia sido minha culpa, que coisas ruins acontecem por mais cuidado que se tenha, as recordações daquele dia transpuseram o tempo para me ajudar.
A empatia daquela mãe, assim como todas as dádivas concedidas por bondade, jamais deixou o mundo e pôde ser convocada para consolar e curar. E assim continuará a ser... quem sabe, para sempre.

W. W. MEADE

domingo, 4 de outubro de 2009

A porta aberta

Quando você era pequeno e bastava estender a mão para tocá-lo,
eu usava cobertores para protegê-lo do frio da noite.
Mas agora que você cresceu e está fora de alcance,
junto minhas mãos e cubro-o com minhas orações.

DONA MADDUX COOPER


Em Glasgow, na Escócia, uma jovem, como muitos adolescentes de hoje, tinha problemas em casa, revoltada com os limites impostos pelos pais. Rejeitava os princípios religiosos da família e um dia declarou: “Não quero seu Deus. Desisto, vou embora.”
Saiu de casa, decidida a ser uma mulher do mundo. Mas logo viu que não era tão fácil viver sozinha e, incapaz de arrumar um trabalho, acabou por se prostituir para sobreviver. Os anos se passaram e ela continuou em sua vida irregular. Seu pai morreu, sua mãe envelheceu.
Durante esse tempo, não houve contato entre mãe e filha. Tendo ouvido falar do paradeiro da moça, a mãe foi até a zona de prostituição da cidade, tentando encontrá-la. Parou em cada uma das igrejas que auxiliam carentes, pedindo apenas: “Eu poderia deixar aqui este retrato?” Era uma fotografia daquela mãe grisalha e sorridente, com uma mensagem manuscrita: “Eu ainda a amo... venha para casa!”
Passaram-se mais alguns meses e nada aconteceu. Então, um dia, a jovem foi à igreja pedindo algo para comer. Sentou-se, distraída, assistindo ao ofício, quando seu olhar bateu no quadro de avisos. Ao ver o retrato, pensou: “Poderia ser minha mãe?”
Não conseguiu esperar o final da cerimônia. Aproximou-se do quadro e leu a mensagem: “Eu ainda a amo... venha para casa!” Reconhecendo a mãe no retrato, ela chorou. Era bom demais para ser verdade.
Já era noite, mas, tocada por aquelas palavras, a jovem foi caminhando até sua casa. Quando chegou, o dia amanhecia. Temerosa, aproximou-se timidamente, sem saber exatamente o que fazer. Quando bateu à porta, esta se abriu sozinha. Chegou a pensar que alguém a arrombara. Preocupada com a mãe, correu para o quarto, mas a senhora dormia. A filha a acordou, dizendo: “Sou eu, sou eu, voltei para casa!”
A mãe não podia acreditar. Em prantos, abraçou-se à filha, que disse: “Fiquei tão preocupada! A porta estava aberta e pensei que alguém tinha entrado!”
A mãe respondeu docemente: “Não, querida. Desde o dia em que você se foi, a porta nunca esteve fechada.”

ROBERT STRAND

sábado, 3 de outubro de 2009

O compromisso

Num domingo perto do Dia de Ação de Graças, Angus McDonnell, membro de minha congregação, falou-me do nascimento de seu neto, o “pequeno Angus Larry”, e me pediu para oficiar a cerimônia de batismo. O conselho da igreja se mostrou relutante porque a família da criança vivia em outro estado, pois, ao batizar, assumimos o compromisso de apoiar e orientar aquela criança.
Mas a vontade de Angus prevaleceu e o batizado se deu no domingo seguinte, estando presentes os pais, Larry e Sherry, os avós, Angus e Minnie, e muitos outros familiares. Em nossa congregação há o costume de o pastor perguntar: “Quem é o responsável por esta criança?” Nessa hora, toda a família se levanta e permanece em pé durante o batismo. Então, com Angus Larry em meus braços, fiz a pergunta e todos os parentes se levantaram.
Depois da cerimônia, todos foram para casa e eu voltei à igreja para apagar as luzes. Uma mulher de meia-idade estava sentada no banco da frente. Ela parecia procurar as palavras e se mostrava hesitante, sem sustentar meu olhar. Finalmente, disse chamar-se Mildred Cory e falou sobre a beleza da cerimônia de batismo. Depois de outra grande pausa, acrescentou: “Minha filha Tina acaba de ter um bebê. Deve ser batizado, não é?”
Sugeri que Tina e o marido me telefonassem para falarmos sobre o assunto. Mildred hesitou novamente e, me olhando de frente pela primeira vez, ela disse: “Tina não tem marido. Está com dezoito anos e foi crismada nesta igreja há quatro anos. Ela costumava vir para o encontro dos jovens, mas conheceu um rapaz que não estudava...”
Depois veio o resto da história: “...e então ficou grávida e resolveu ter o bebê. Ela quer batizá-lo na sua igreja, mas está temerosa de vir falar com o senhor, reverendo. Ela deu ao bebê o nome de James — Jimmy.”
Levei o caso ao conselho da igreja. Fizeram-se algumas perguntas sobre o compromisso que Tina deveria assumir ao levar o bebê para ser batizado. Observei que, como ela e o filho viviam na cidade, nós poderíamos dar-lhes apoio.
O problema real era a imagem que todos tínhamos na cabeça: a jovem Tina, com o pequeno Jimmy nos braços, o pai ausente, Mildred Cory sendo a única a se levantar quando eu fizesse a pergunta. Doía em todos imaginar isso. Mas o conselho aprovou o batismo, marcado para o último domingo do Advento.
A igreja estava cheia, pois era o último domingo antes do Natal.
Tina percorreu rapidamente o corredor central, tremendo ligeiramente, com seu bebê de um mês nos braços. A imagem daquela jovem mãe tão sozinha mostrava como seria dura a vida daquele par.
Comecei o ofício e então, olhando para Mildred Cory, fiz a pergunta: “Quem dá apoio a esta criança?”
Fiz um sinal com a cabeça para Mildred e sorri indicando que se levantasse. Ela se levantou devagar, timidamente, olhando de um lado para o outro, e então me sorriu também.
Eu ia continuar a ler as orações, quando ouvi um movimento nos bancos.
Angus McDunnell se levantou com Minnie a seu lado. Então um outro casal de idosos se levantou. E a professora da sexta série da escola também. Mais um jovem casal e logo, ante meus olhos incrédulos, toda a comunidade estava de pé, apoiando o pequeno Jimmy, se comprometendo com ele.
Tina chorava e Mildred Cory se segurava no banco procurando se manter firme.
A escritura daquela manhã era de João:
Considerai com que amor amou o Pai, para sermos chamados filhos de Deus... Ninguém jamais viu Deus. Se nos amarmos uns aos outros, Deus permanece conosco e seu amor em nós é perfeito... No amor não há temor, pois o amor perfeito livra-se do temor.
Naquele batismo, essas antigas palavras se tornaram vivas, tomaram corpo e todos puderam sentir isso.

REVERENDO MICHAEL LINDVALL

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Bilhetes de amor - ANTOINETTE KURITZ

Desde que meus filhos foram para a escola, eu lhes preparava o almoço e o colocava nas lancheiras. Em cada uma delas, eu punha um bilhete, muitas vezes escrito num guardanapo. Podia ser um agradecimento por um momento especial, uma palavrinha sobre algo ansiosamente esperado ou um encorajamento para um teste ou uma competição esportiva.
No primeiro grau, eles adoravam os bilhetes e comentavam sobre eles quando chegavam da escola. Quando voltei a lecionar, eles é que colocavam recadinhos nos meus lanches. Mas, quando chegou ao segundo grau, meu filho mais velho, Marc, me disse que não precisava mais de meus bilhetes diários. Respondi que eu os escrevia, na verdade, muito mais por mim do que por ele, e que, mesmo que não os lesse, eu precisava continuar escrevendo. Assim, mantive a tradição até sua formatura.
Seis anos depois de Marc ter concluído o segundo grau e ido estudar numa escola em outro estado, ele me telefonou um dia para saber se podia passar um tempo comigo. Meu filho estava bem, se formara com louvor, fizera dois estágios no Congresso, em Washington, conseguindo uma bolsa para a Câmara dos Deputados do Estado da Califórnia. Agora, era assistente legislativo em Sacramento. Sempre ocupado, suas visitas não eram freqüentes. Eu estava com muita saudade do meu filho e vibrei com a visita.
Duas semanas depois de Marc ter chegado, foi recrutado para uma campanha política. Como eu ainda preparava o almoço diariamente para o meu caçula, arrumei o de Marc também. Imaginem a minha surpresa quando recebi o telefonema de meu filho de vinte e quatro anos reclamando do almoço.
“O que eu fiz de errado? Não sou mais seu filho? Você não me ama mais, mamãe?” foram algumas das perguntas que ele me fez, enquanto eu ria e perguntava qual era o problema.
“Seu bilhete, mamãe”, ele respondeu. “Não achei o seu bilhete.”
Este ano meu filho caçula está terminando o segundo grau. Ele também me avisou que já passou da idade de receber bilhetes. Mas, como seus irmãos, ele vai receber meus bilhetes até se formar — e em qualquer pacote de almoço que eu lhe prepare, enquanto eu estiver viva.

ANTOINETTE KURITZ

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Maioridade - RACHEL NAOMI REMEN

Lembro-me de ter lido uma vez, num livro sobre psicologia do desenvolvimento, que somente um pai ou uma mãe podem outorgar a maioridade a um filho. Na época, não entendi realmente o sentido dessas palavras. Hoje, acho que compreendo. Existe uma confirmação que só pode vir daqueles que nos deram a vida, que nos conhecem completamente desde que nascemos. Mesmo velhos, o poder dos pais em conceder essa confirmação não diminui. É um poder que beira o místico.
Minha mãe era uma mulher extremamente original. Profissionalmente, era uma contestadora. Seu maior interesse eram os cuidados com bebês e ela foi uma das pioneiras a reconhecer e respeitar a sabedoria inata das mães. Naquele tempo, essa era uma idéia vista com desconfiança pelos pediatras, uma profissão tão orgulhosa de sua nova ciência e tecnologia que, no meio do século, quase setenta e cinco por cento dos bebês norte-americanos eram alimentados por mamadeira. A maneira direta e sem rodeios pela qual minha mãe se expressava fazia com que ela também fosse vista com desconfiança.
Acredito que sei o exato momento em que me senti verdadeiramente adulta. Aconteceu num lugar público, na presença de um grande número de pessoas. Todavia, foi um momento inteiramente pessoal que ninguém testemunhou.
Eu era uma das duas mulheres e vários homens convidados para falar numa conferência cujo tema era “O Poder da Imaginação”, um encontro pioneiro, com um dia de duração, sobre a relação entre a saúde da mente e do corpo. Foi em 1984, quando tais idéias eram bastante novas e pouco aceitas na comunidade médica. Entre as mil pessoas da platéia, poucos eram médicos.
Nessa ocasião, minha mãe já era velha e estava bastante doente. Dois dias antes da conferência, uma amiga me perguntou se eu planejava convidá-la. Surpresa, respondi que não havia pensado nisso, pois mamãe não se interessava pelo assunto. Minha amiga, que é japonesa e tem uma percepção mais refinada do que a minha, respondeu:
— É claro que não, Rachel. Mas ela se interessa por você.
Refleti um pouco e me dei conta de que minha mãe nunca me havia visto falar em público. Pensei nas dificuldades para levá-la até o auditório e no que aconteceria se ela tivesse um de seus freqüentes problemas cardíacos enquanto eu estivesse falando. Era um pensamento assustador e eu me senti tentada a esquecer a sugestão de minha amiga. Mas, por uma questão de justiça, perguntei a minha mãe se ela queria ir. Ela aceitou com entusiasmo.
Chegamos ao saguão com duas horas de antecedência. O problema cardíaco não a deixava andar longas distâncias sem descansar. Levei um bom tempo para conseguir acomodá-la no auditório vazio. Escolhemos uma cadeira no meio da décima fila. Quando o auditório começou a ficar cheio e eu me sentei no palco com os outros participantes, vi que ela abriu a bolsa e pegou alguns comprimidos. Senti um aperto no coração.
Quando chegou a minha vez de falar, expliquei qual era a diferença entre remediar e curar e falei sobre a nova técnica de imagens guiadas que ampliava a capacidade do ser humano de curar a si mesmo. Disse que a medicina que não reconhecia esse poder inato nas pessoas cometia um erro crucial. Essas eram idéias controvertidas na época. Para comprová-las, contei várias histórias colhidas na minha prática médica. Quase no final, arrisquei um olhar para minha mãe. Ela ouvia com muita atenção. Parecia estar bem. Fiquei aliviada.
Quando terminei de falar houve um completo silêncio. Eu já esperava por isso, pois na semana anterior muitos médicos de um hospital de São Francisco, ofendidos por essas mesmas idéias, retiraram-se antes do final das sessões clínicas das quais participei. Mas aquela não era uma platéia de médicos. De repente, ouvi aplausos e muitas pessoas chegaram a se levantar, entusiasmadas. Fiquei aturdida.
Somente uma mulher na décima fila permanecia sentada. Seus braços estavam cruzados e havia um leve sorriso em seus lábios. Continuamos a olhar uma para a outra até que seus olhos se fecharam e ela fez um sinal com a cabeça duas vezes, lentamente. Jamais recebi qualquer reconhecimento igual a esse. Até hoje extraio dele uma grande força. Cinco meses depois desse dia, minha mãe estava morta.

RACHEL NAOMI REMEN
extraída do livro As Bênçãos do Meu Avô