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sexta-feira, 10 de junho de 2011

Aprendiz

Eu não sabia, mas antes do câncer, eu já estava doente.

Duas doenças me limitaram mais do que a quimioterapia e a cirurgia.

Os nomes delas são “Não Posso” e “Não Consigo”.





Quando eu estava atacada no vírus “Não posso” eu dizia e agia assim:

- Não posso tirar foto de lado…Porque meu nariz e queixo são pontudos;
- Não posso usar saia curta…Porque meus joelhos são muito grossos;
Não posso sorrir muito em foto…Porque meu bigode chinês aparece;
Não posso andar de avião…Porque tenho medo.
Não posso ter plantas em casa…Porque não sei cuidar.

E assim eu permanecia …doente de mim mesma.
Quando eu estava atacada do vírus “Não consigo” eu dizia e agia assim:
Não consigo ficar bem nas fotos…Porque sempre arregalo os olhos;
- Não consigo pousar para fotos…Porque tenho vergonha;
Não consigo sorrir para valer…Porque meus dentes não são bonitos;
Não consigo ler livros…Porque dá sono;

Não consigo fazer caridade regularmente…Porque não tenho tempo.

E assim eu seguia, impondo-me limites…

Quantas vezes reclamei da oleosidade do meu cabelo, do quanto ele era fino e pesado. A escova não durava nada… Fiz até permanente para dar volume…fiquei parecendo um poodle.
Hoje, depois de encarar a doença, cheguei à conclusão de que o câncer mata muita coisa realmente… entre elas…Preguiça, vergonha, solidão, hipocrisia, futilidades, medos, culpas, limitações, radicalismos, carência, dependências, auto-crítica, intolerância, baixa autoestima e muito mais.

Neste processo conheci estas frases e elas definem o que acredito hoje…
“O que somos é um presente de Deus.
O que nos tornamos, é o nosso presente para ele.”

Não aprendi a voar. Isto é com os pássaros.
Aprendi a me sentir como se estivesse voando.

Descobri que a gente pode sorrir por fora e por dentro.
Ser diferente é muito diferente de ser esquísito, feio ou anormal.
O silêncio pode ser melhor do que mil palavras.
Conhecer a mim mesma é um aprendizado constante.
Existe mais beleza nos processos e nas atitudes do que nas formas.

É certo que o câncer muda a vida da gente, porém eu discordo que ele seja um presente.
Ele é uma oportunidade!
Mas… Até quando precisaremos dele para percebermos as belezas que existem em nós e à nossa volta?
Viver… E não ter a vergonha de ser feliz… Cantar e cantar e cantar…
A beleza de ser um eterno aprendiz…

Elis Rejane Busanello
03/abril/2009