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quarta-feira, 1 de março de 2017

Cada vez que eu chorei você morreu um pouco…


Najara Gomes
1 de mar de 2017 06:07

Seu amor sempre veio acompanhado com resquício de abandono, mas agora eu não preciso mais fazer aquele estardalhaço sobre você. Eu não precisei te matar das minhas lembranças, você foi sumindo de mim por conta própria cada vez que me deixou chorando sozinha.

Chorei por tudo isso e pelo tudo que eu sabia que iria virar nada logo. Mas a única falência que mata é a dos órgãos, então pude sobreviver vendo o que nós tínhamos virando ruína.

Eu te pedi para me ouvir, subi em cima cadeira, segurei um megafone, usei fitas de LED enroladas pelo corpo, acenei, chamei pelo seu nome. Você disse que outro dia a gente conversava. Partes suas foram sumindo desde então.

Tentei me convencer de que estava tudo bem, que só a sua presença me bastava. Era tudo coisa da minha cabeça. Talvez eu estivesse exagerando, ninguém consegue dar tanta atenção a um outro ser humano. Mas ninguém é tão ocupado, não é? Quando percebi isso, outro pedaço seu virou fumaça.

Um casal é feito de duas partes, lutando constantemente para ser uma. Então, por que eu me sentia  numa batalha de uma pessoa só? Te perdi dentro de mim e tentei te ganhar todos os dias. Antes mesmo de saber que eu nunca poderia ter alguém que nunca levantou uma bandeira por mim. Sempre foi tempo perdido e o pior é que mesmo que você já soubesse, me deixou continuar.

Mais uma vez eu chorei, você já quase não existia.

Prometi a mim mesma que não me daria por vencida enquanto não tivesse a certeza que fiz tudo para retomar os laços. Te chamei, te liguei, fiquei parada na sua porta, toquei a campainha, pedi abrigo no seu peito. Sem resposta. Eu te vi virando história de cartão postal.

Então eu chorei. Derramei litros de sonhos de um futuro que nunca iria acontecer. Tem algo desolador em desistir sem nem antes provar uma demo. Chorei porque eu quis tanto e tive tão pouco. Foi tão promissor no começo, você fez direitinho. Soube prometer tão bem quanto soube não cumprir. Mas é grandioso se render, aceitar que o barco não vai navegar nem com a maior das correntezas. E que tudo bem ser assim. Eu chorei por você. Você morreu pouco a pouco. Não existe mais.

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