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segunda-feira, 27 de março de 2017

Cuidado com a web motivacional: respeite seus medos


Papo de Homem - É tempo de homens possíveis. Puxe uma cadeira, a casa é sua. – Luciano Andolini
26 de mar de 2017 06:21

É um ritual para muitas pessoas.

Abrir o celular, abrir o Instagram e ler aquelas mensagens motivacionais para levantar da cama e seguir seus sonhos.

Existe uma overdose de conteúdo voltado para a motivação. Imagens para todo o lado que dizem "supere seus medos", "saia da zona de conforto".

Ok, entendo, parece que temos uma epidemia de procrastinação. As pessoas simplesmente não conseguem focar e fazer o que dizem a si mesmas que deveriam fazer.

Mas será que é só falta de motivação?

Fico desconfiado quando um movimento coletivo e maciço de informações pende para um lado da balança. Gosto de entender o que está por trás de tanta gente falando e ganhando dinheiro em cima da "preguiça" dos outros.

E, pelo que já pude observar até aqui, temos um padrão, tanto de quem se aproveita quanto de quem é vítima dos gurus da web motivacional. Dois perfis que se complementam nessa dinâmica.

A Idade Média, a culpa e o que a gente vê no Instagram

Quando olhamos para trás e focamos em como a religião mobilizava a culpa das pessoas em favor dos indultos celestiais, sentimos um certo repúdio.

Como podia aquela gente cair naquela lábia e pagar adiantado para ter um benefício invisível (ou, no mínimo, subjetivo)? Como eles podiam se deixar serem punidos pelos seus pecados com a culpa e chicotes?

A estranheza vem do fato de que acreditamos de forma ingênua que diminuir a influência política da igreja fez desaparecer os mecanismos pelos quais ela obtinha seus benefícios institucionais.

Pode não parecer, mas há uma semelhança entre a Igreja na Idade Média e o mundo fitness e empreendedor.

Quando você vê capas de revista figurando empresários milionários e musas fitness, podemos dizer que estamos mexendo principalmente nos vespeiros emocionais do dinheiro, poder, status e aparência. 

Todo um mercado se movimenta em torno dessas obsessões.

O mercado empreendedor tem uma enxurrada de profissionais voltados a motivar e criar ferramentas para "curar" a deficiência de habilidades pessoais e profissionais de pessoas que sonham ter a sua liberdade do meio corporativo.

"Siga os seus sonhos", "encontre o seu propósito", "seja o líder de sua vida". São todas variações de falas (nem sempre) bem intencionadas de pessoas que, de modo geral, mal bateram sua metas pessoais mas "ajudam" os outros a fazerem a lição-de-casa que eles próprios não fizeram.

Quando alguém desponta no horizonte como um case de sucesso, vira guru e passa a ser mais imperativo. O chicote é sutil: "você não pode deixar sua preguiça tomar conta de você".

Uma horda de seguidores famintos segue idolatrando e chicoteando os outros e a si mesmos.

O universo fitness se equipara em termos autoflagelação. É comum notar como os seguidores entram para fazer comentários autodepreciativos em fotos de musas. Dos mais sutis, como "um corpo é um corpo" (implícito: o meu é um punhado de banha imprestável) até os "essa aí malhando divinamente e eu aqui comendo porcaria #voltandoamalharnasegunda".

Prazer, tempo livre e usufruir a vida com momentos banais começam lentamente a soarem grandes pecados. Fotos de antes e depois constrangem e deixam uma mensagem clara "lá atrás eu não merecia crédito (e você que está como eu era também), agora mereço ser amado, desejado e invejado". Embutido nisso vem sempre o merchan de um produto revolucionário.

Criticar esse modo de vida bem-sucedido pode não ser bem visto, afinal, dinheiro e saúde estão em jogo. Mas o ponto não é esse.

Qual é o custo emocional para sustentar essa onda motivacional do universo do empreendedorismo e do fitness? Por quanto tempo dá pra suportar?

Os limites da cultura da performance, produtividade e sucesso

Como não observamos os gurus motivacionais e musas fitness a longo prazo, não notamos que essas pessoas não mantém o pique de forma saudável por mais de cinco ou dez anos.

Há um limite para esse tipo de motivação e normalmente não vemos ninguém abrindo o jogo.

Em um determinado ponto, dizer "supere!" não basta. Soa bobo, constrange, cria culpa e uma sensação de incompetência tóxica em quem supostamente gostaria de ser ajudado.

Quando a pessoa é herdeira de uma rigidez emocional de pais exigentes, obsessivos e/ou autoritários, por exemplo, a receita está pronta para o desastre. Se esse sujeito não consegue ver o próprio esforço recompensado com resultados bombásticos, logo vem a culpa, o sentimento de incompetência e o medo.

Então, ele vai lá no Instagram, lê uma frase qualquer que apele ao mal-estar crônico que já carrega e sai "motivado" a pegar firme, pois está atrasado em seu ritmo de crescimento, preso à "zona de conforto".

Mas isso não basta. Em um determinado momento, a muleta não funciona mais.

Mais compaixão, menos motivacional de Instagram

O que me dói o coração é ver gente com seus dias bons e não tão bons, batalhando o seu trabalho, buscando meios de seguir mais feliz e engajada na própria vida e, por outro lado, intoxicadas de culpa e mal-estar consigo mesmas por conta dessa onda de autoaperfeiçoamento.

Não há um efetivo respeito pelo compasso de crescimento de cada um, o salto precisa ser sempre descomunal.

Então, é na noção distorcida e pouco sustentável de crescimento que precisamos bater, de criar uma rede de apoio e compaixão com quem está confuso ou perdido e não mera motivação de segunda-feira. Não basta dizer "vai, seu preguiçoso". 

Estamos cansados desse tipo de dedo na cara, principalmente vindo de nós mesmos.

Devemos deletar todos os perfis de Instagram que seguimos? Não necessariamente. 

Se conseguirmos olhar o que é postado como uma referência, uma possibilidade ou inspiração, se usarmos isso como ferramenta pra tentar desmanchar um pouco do nosso negativismo, ou pra diminuir os pensamentos do tipo "eu nunca vou conseguir", então ok, não há problema. Mas nem sempre temos essa sabedoria.

Muitas vezes vezes é preciso fazer uma faxina virtual para evitar se confrontar com os outros forçando autocobrança goela abaixo. 

Quando vier medo, cansaço, frustração, preguiça, não deixe de ouvir-se e permitir-se sentir tudo isso. Compartilhe seu problema, teste pedir por ajuda, recue se for necessário. Não precisa ser invencível. Acolha a sua vida possível.

Estamos todos no mesmo barco.