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terça-feira, 14 de março de 2017

Por que os meninos apegados à mãe se afastam dela quando crescem?


Papo de Homem - É tempo de homens possíveis. Puxe uma cadeira, a casa é sua. – Frederico Mattos
12 de mar de 2017 06:54

Toda vez que me arrisco a explicar um fenômeno complexo, posso incorrer em generalizações que sempre trazem suas exceções.

No entanto, também não consigo ignorar a força de constatações difíceis que surgem no consultório em muitas horas de escuta terapêutica, que até contrariam minhas expectativas.

Esse texto é a descrição de um processo, a explicitação de uma linha de raciocínio que muitas vezes nos negamos a aceitar.

No que se refere às relações mãe e filho, vamos nos aprofundar numa dinâmica em que nos perdemos no tempo, no tecido delicado de emoções contraditórias que fogem ao nosso controle e que formam nossa personalidade.

Os caminhos da relação mãe-filho

Cena relativamente comum: ela descobre que sua gravidez é de um menino, fogos de artifício no coração. Finalmente, um menino.
 
Essa nova mãe, prestes a ganhar vida, mal sabe que essa sensação de preenchimento que o "meu menino" trouxe faz parte de uma trama inconsciente que promete muito amor e confusão. Sem saber, aquele garotinho já está encomendado para preencher uma série de carências emocionais que essa mulher carrega e, mais que isso, para cumprir uma função psicológica que anulará a identidade de ambos, mãe e filho.
 
Ele cresce, é o reizinho da mamãe. Doce, meigo, obediente, apegado. Olha ela como se fosse a expressão da divindade.

Até essa idade de quatro, cinco anos, não parece existir nenhum problema substancial, afinal, essa base de confiança mútua prepara o senso de autoestima que a criança precisa para se socializar. Mas os tentáculos precisam lentamente se abrir, como uma flor, para que a criança possa correr em outras direções.
 
Inconscientemente, essa mãe enxerga limitações que os demais parecem não ver. Ela se vê assombrada por medos "super justificáveis" de que algo de ruim possa acontecer com o seu "bebê". Na mente dela está tudo explicado e o filho como bom espelho dos desejos conscientes e inconscientes da mãe cumpre a profecia materna, vai ficando doentinho ou limitado em alguma aspecto para atender ao apelo subliminar da mãe que diz "não me deixe, senão eu desapareço…"
 
O binômio mãe-bebê vai se tornando cada vez mais crítico quando o meninão entra na escola e precisa lidar com os outros garotos, com a aspereza de outros reizinhos e se posicionar com o seu senso de importância.

Ele não tem recursos tão sofisticados, afinal, basta existir para ser idolatrado. Lá fora, ele precisa de artifícios melhores e, provavelmente, tentará de tudo para reproduzir o mesmo modelo de idealização que tem em casa.

No entanto, mesmo chorando, brigando, sendo gentil, bonzinho, realizador, esperto, burrinho, doentinho, esportista, inteligente e [coloque os múltiplos truques para ser visto], ele não consegue ter atenção exclusiva como tem em casa.

A idealização aumenta, a mãe parece ser o lugar mais seguro para viver. Porém, parece que o universo de interesse da mãe gira em torno de temas que parecem não agradá-lo como menino.

A sociedade espera dele algumas coisas que são incompatíveis com todas as "armas" que a mãe ensinou a ele para ser um homem de bem. Para consolidar sua identidade, a mãe não cumpre a função de identificação sexual e as garotas parecem estranhar um garoto sensível, doce e, em alguns casos, meloso.

A rachadura vai se abrindo pouco a pouco e aquela adoração se torna um tipo sutil de ressentimento misturado com culpa. "Ela me enganou, disse que ia tudo dar certo se eu fosse o homem que me criou para ser". A mãe, a essa altura, já se sente cada vez mais estranha e deslocada, tentando realocar os tentáculos de amor e posse em outras direções. Agora, no entanto, ele entrou na adolescência e surge uma barreira de silêncio terrível.

Ela tenta ser legal, permissiva, rígida, tirana, amorosa, engraçada, sociável, descolada e [qualquer tentativa inócua de agradar adolescentes a partir do papel de mãe] para então perceber que perdeu seu filho para um buraco negro de demandas sociais que ela não consegue entender. Onde falhou? O que deu de errado? O que deveria ter feito? Não parece haver uma resposta fácil.

Aquele garoto que agora mimetiza os pares da mesma idade consegue algum destaque, entendeu que endurecer funciona, que parecer insensível ao sentimento dos outros confere uma percepção de importância e charme.
 
Mas existe um agravante, aquela mãe zelosa criou uma religião emocional na mente do filho, uma mente unidirecional, fanática por uma pessoa só. Em princípio, era ela. Somente ela.

Com o tempo, essa religião foi transferida para outros ídolos. O deus-time de futebol, o deus-ídolo teen, o deus-gangue, o deus-droga, o deus-namorada, até mesmo o deus-Deus.

Essa mente idólatra passou a procurar novos deuses que conferissem o mesmo senso de pertencimento exclusivo e exagerado, que seria a fonte de "toda" a satisfação emocional, tal qual nos primeiros anos de vida.
 
Aquele dengo exclusivo de mãe-de-menino criou a mente vulnerável à qualquer tipo de ídolo, os confiáveis e os destrutivos.

É nessa rachadura que muitos meninos, ao se tornarem homens, paradoxalmente, ao mesmo tempo que buscam um lugar de paz também temem a intimidade.

A aproximação com a mãe cria faísca. Ele guarda uma imagem interna e longínqua de que ela já foi a razão de sua vida. Por outro lado, e exatamente por isso, ele não quer mais se aproximar e perder sua identidade.